{"id":143771,"date":"2024-11-14T09:39:18","date_gmt":"2024-11-14T08:39:18","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/?p=143771"},"modified":"2024-11-14T09:39:25","modified_gmt":"2024-11-14T08:39:25","slug":"o-que-aprendemos-com-gustavo-cisneros-e-jose-antonio-llorente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/o-que-aprendemos-com-gustavo-cisneros-e-jose-antonio-llorente\/","title":{"rendered":"O que aprendemos com Gustavo Cisneros e Jos\u00e9 Antonio Llorente"},"content":{"rendered":"<p>Gustavo Cisneros foi um dos empres\u00e1rios mais relevantes do mundo hispano e dos Estados Unidos nos \u00faltimos 50 anos. Herdou do pai um importante grupo empresarial na Venezuela, mas o seu otimismo e a sua insaci\u00e1vel curiosidade o levaram a expandi-lo para toda a Am\u00e9rica Latina, os Estados Unidos e boa parte da Europa. Neste processo, enfrentou todos os tipos de dificuldades, entre elas algumas de car\u00e1ter pol\u00edtico devido \u00e0 ascens\u00e3o do populismo no seu pa\u00eds. Apesar disso, alcan\u00e7ou o seu prop\u00f3sito: criar uma empresa s\u00f3lida em muitos setores da economia \u2014 do engarrafamento de bebidas \u00e0 televis\u00e3o e ao turismo \u2014 e, ao mesmo tempo, gerar um impacto positivo na sociedade por meio do investimento em sustentabilidade, educa\u00e7\u00e3o e arte.<\/p>\n<p>Cisneros morreu em 29 de dezembro de 2023. Nos anos anteriores, Jos\u00e9 Antonio Llorente, fundador da LLYC e ele foram parceiros empresariais e se tornaram amigos. A revista Forbes pediu para Jos\u00e9 Antonio escrever um obitu\u00e1rio do seu amigo. Foi um texto emotivo e memor\u00e1vel. \u201cGustavo n\u00e3o era uma pessoa normal e comum, com certeza n\u00e3o era \u2014 escreveu. Era uma pessoa especial, parecia que tinha sido tocado por uma magia que o tornava avassalador, persuasivo, divertido, vendedor, inspirador em qualquer situa\u00e7\u00e3o que surgisse no seu caminho\u201d. O certo \u00e9 que muitos desses adjetivos podiam ser atribu\u00eddos tamb\u00e9m a Llorente. O que nem todos sabem, por outro lado, \u00e9 que ele precisou de ajuda para escrever o artigo, pois estava gravemente doente e, de fato, essa homenagem ao amigo foi um dos seus \u00faltimos atos. Faleceu em 31 de dezembro. Nesse mesmo dia a revista publicou o texto.<\/p>\n<h5>Nesta conversa descontra\u00edda e comovente, Adriana Cisneros e Alejandro Romero falam da amizade dos seus predecessores e das suas li\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a e impacto social<\/h5>\n<p>Adriana Cisneros sucedeu o pai como <em>CEO<\/em> do Grupo Cisneros e Alejandro Romero \u00e9 hoje, o <em>CEO<\/em> Global da LLYC. Ambos trabalharam durante muito tempo com seus predecessores e os conheciam profundamente, tanto pessoal como profissionalmente. Nesta conversa descontra\u00edda e comovente, eles falam da amizade de Gustavo e Jos\u00e9 Antonio, das caracter\u00edsticas que os levaram a ser os singulares e bem sucedidos l\u00edderes que foram e da import\u00e2ncia que deram ao impacto social das suas empresas. Mas, uma vez que o tema deste n\u00famero da revista UNO \u00e9 a polariza\u00e7\u00e3o social na qual vivemos, destacamos uma das muitas caracter\u00edsticas que eles compartilhavam: a capacidade de escutar opini\u00f5es diferentes e a voca\u00e7\u00e3o para estabelecer pontes entre pessoas e na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3>A LIDERAN\u00c7A CURIOSA<\/h3>\n<p><strong>Adriana<\/strong>: \u00c9 brilhante que estes senhores, \u00e0quela idade, tenham decidido virar melhores amigos. Acredito que isso fala muito sobre o tipo de pessoa que eram e do que tinham em comum. Eram muito curiosos, sempre estavam dispostos a entender os pontos de vista dos outros, o que as pessoas pensavam, fossem elas velhas ou jovens. E acredito que esse entusiasmo deu origem \u00e0 amizade deles, que era maravilhosa e din\u00e2mica; estrat\u00e9gica, em alguns momentos; mas simples e divertida na maior parte do tempo. Acho que essa abertura \u00e0 possibilidade de algo novo definiu a lideran\u00e7a deles. Meu pai era curioso, otimista, tinha vontade de estar sempre por dentro de tudo o que acontecia a cada momento. E Jos\u00e9 Antonio era igual. Eles eram os velhos mais jovens que conhec\u00edamos. Alejandro e eu sempre r\u00edamos porque quando t\u00ednhamos que trabalhar com eles sempre fic\u00e1vamos exaustos. Eles eram os primeiros a chegar \u00e0 reuni\u00e3o e os \u00faltimos a ir embora da festa, e tinham dez vezes mais ideias do que n\u00f3s. Alejandro e eu sempre r\u00edamos. Porque de certa maneira \u00e9ramos n\u00f3s que t\u00ednhamos que conter a avalanche de propostas do meu pai e do Jos\u00e9 Antonio. E, em parte, foi por isso que herdamos essa amizade.<\/p>\n<p><strong>Alejandro<\/strong>: Jos\u00e9 Antonio e o sr. Gustavo eram homens modernos. Este estava atualizado sobre o que acontecia no Facebook ou como o X funcionava. Claro, Jos\u00e9 Antonio tinha uma personalidade digital muito desenvolvida. Mas, dado o tema da revista, tamb\u00e9m \u00e9 preciso destacar a capacidade que ele tinha de se entender com os dois lados, inclusive os dois extremos. O sr. Gustavo podia se encontrar com Barack Obama e com George Bush, com Donald Trump e Bill Clinton, com Felipe Gonz\u00e1lez e com Jos\u00e9 Mar\u00eda Aznar. A melhor maneira de evitar a polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 ter a capacidade de dialogar e de entender os dois lados. Aprendi algo parecido com o Jos\u00e9 Antonio. Poucas pessoas tiveram a capacidade de escutar que ele tinha. E para evitar a polariza\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso ter a capacidade de convocar os dois extremos. Ambos poderiam estar nas casas do sr. Gustavo e do Jos\u00e9 Antonio. A virtude est\u00e1 no equil\u00edbrio, e o equil\u00edbrio \u00e9 o ponto m\u00e9dio. Eu levo isso para a minha lideran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Adriana<\/strong>: Meu pai tamb\u00e9m tinha uma quest\u00e3o de empatia. Ele podia aterrissar em qualquer pa\u00eds e sabia que conseguiria fazer conex\u00f5es e estabelecer neg\u00f3cios e entender o mercado. Acho que isso, a capacidade de viajar o mundo todo, tamb\u00e9m tinha a ver com o sucesso do Jos\u00e9 Antonio. Talvez fosse uma caracter\u00edstica gen\u00e9tica: o meu av\u00f4 poderia ter decidido se tornar o rei da Venezuela, mas achou que a Venezuela estava pequena para ele. Isso passou a fazer parte do DNA do grupo. Nunca nos sentimos limitados pelas fronteiras.<\/p>\n<p>Mas essa quest\u00e3o das fronteiras \u00e9 complexa. \u00c0s vezes os s\u00f3cios ou amigos norte-americanos me ligam e pedem conselhos sobre como expandir os seus neg\u00f3cios na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 um erro. \u00c9 como se eu disse que quero me expandir na \u00c1frica. Ou seja, voc\u00ea pode ter uma estrat\u00e9gica global, mas a estrat\u00e9gia tem que ser ao mesmo tempo hiperlocal, e uma coisa tem que andar de m\u00e3os dadas com a outra. Acredito que muito do sucesso das coisas internacionais que fizemos vem da compreens\u00e3o disso.<\/p>\n<h5>Para evitar a polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso ter a capacidade de convocar os extremos. Ambos poderiam estar presentes nas casas de Gustavo e Jos\u00e9 Antonio. A virtude est\u00e1 no equil\u00edbrio<\/h5>\n<p><strong>Alejandro<\/strong>: O sr. Gustavo transmitia a ideia de que o mundo \u00e9 pequeno e \u00e9 poss\u00edvel tomar caf\u00e9 da manh\u00e3 em Nova York, almo\u00e7ar no Panam\u00e1 e jantar em Buenos Aires. Lembro da apresenta\u00e7\u00e3o do primeiro livro dele. Ele dava duas entrevistas coletivas por dia, em dois pa\u00edses diferentes. Ser cidad\u00e3o do mundo impulsionou a sua vis\u00e3o dos neg\u00f3cios. Jos\u00e9 Antonio aprendeu um pouco disso com o sr. Gustavo. Ele viu rapidamente que a expans\u00e3o natural da empresa seria pela Am\u00e9rica Latina porque se fala espanhol na regi\u00e3o. N\u00e3o significava que seria f\u00e1cil. Na verdade, era muito dif\u00edcil. Mas para uma empresa de comunica\u00e7\u00e3o de origem espanhola isso era o mais simples. Al\u00e9m disso, no caso de Jos\u00e9 Antonio, tinha o europe\u00edsmo, ele defendia muito o conceito de Europa. Mas al\u00e9m de n\u00e3o se limitar pelas fronteiras, ambos acreditavam fervorosamente que a inclus\u00e3o, a diversidade e a multiculturalidade faziam parte do sucesso dos seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<h3>O ENVOLVIMENTO SOCIAL<\/h3>\n<p><strong>Adriana<\/strong>: Eles tinham um envolvimento social que, no caso do meu pai, tinha a ver com uma certa ideia de cidadania. Para ele, era uma coisa muito sofisticada, n\u00e3o algo que algu\u00e9m disse que ele deveria fazer por quest\u00f5es de posicionamento. Al\u00e9m disso, ele teve a sorte de ter uma m\u00e3e, Patricia Phelps, a Patty, como parceira intelectual. Ele sempre focou na educa\u00e7\u00e3o. Mas tamb\u00e9m em outras coisas. Quando entramos em um pa\u00eds para montar uma opera\u00e7\u00e3o, temos uma concep\u00e7\u00e3o de tempo diferente da de muitas outras empresas. N\u00f3s, em geral, ficamos em um pa\u00eds por muito tempo. E quando isso acontece, quando voc\u00ea acorda um dia ap\u00f3s o outro, tem sempre os mesmos vizinhos&#8230; Quando voc\u00ea pensa nisso nesses termos, est\u00e1 disposto a investir no bem-estar dos seus vizinhos e se comportar de uma maneira mais adequada.<\/p>\n<p>Na Rep\u00fablica Dominicana, por exemplo, a Fundaci\u00f3n Cisneros est\u00e1 h\u00e1 15 anos em atividade, mas eu acabei de come\u00e7ar a construir o hotel Four Seasons dentro de Tropicalia, o desenvolvimento imobili\u00e1rio da Playa Esmeralda. Quando conseguimos o financiamento com o Banco Interamericano n\u00e3o nos deram apenas a pontua\u00e7\u00e3o mais alta de projeto na \u00e1rea social da hist\u00f3ria do banco, mas tamb\u00e9m n\u00e3o precisaram nos fazer nenhuma recomenda\u00e7\u00e3o sobre como melhorar as pr\u00e1ticas de investimento social. Isso nunca tinha acontecido. Todos os neg\u00f3cios que fizemos eram de no m\u00ednimo m\u00e9dio prazo. E isso nos obrigou a ver qual o nosso papel e faz uma grande diferen\u00e7a. Somos o oposto dos mercen\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Alejandro<\/strong>: Eu gostaria de destacar algumas coisas que voc\u00eas fizeram, como o canal @Clase, o primeiro canal educativo de televis\u00e3o ou o caso da Miss Venezuela. Provavelmente n\u00e3o existe nada mais f\u00fatil na sociedade de hoje do que um concurso de beleza, mas voc\u00eas transformaram isso em algo aspiracional, que forma pessoas que normalmente est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas desfavorecidas e conseguem um trampolim para serem artistas, apresentadoras ou l\u00edderes das suas comunidades. No grupo de voc\u00eas o impacto e a contribui\u00e7\u00e3o social sempre andaram de m\u00e3os dadas com o neg\u00f3cio.<\/p>\n<h5>O envolvimento social de Gustavo Cisneros tinha a ver com uma ideia de cidadania. N\u00e3o era algo que lhe disseram para fazer por quest\u00f5es de posicionamento<\/h5>\n<p>Jos\u00e9 Antonio tamb\u00e9m foi sempre muito sens\u00edvel aos mundos que tamb\u00e9m compartilhava com o sr. Gustavo. Os dois escreveram livros. Os dois colecionavam arte, mas abriam as suas cole\u00e7\u00f5es para pessoas que geraram impacto cultural. As pessoas aprendem com isso&#8230; N\u00e3o porque algu\u00e9m senta para ensin\u00e1-las, mas simplesmente porque elas podem ver o impacto dessas atividades.<\/p>\n<p><strong>Adriana<\/strong>: O meu pai se empenhou muito para que eu fosse a sua sucessora. Eu achava isso uma p\u00e9ssima ideia. No final, decidimos ter uma conversa estruturada durante tr\u00eas anos para que eu pudesse tomar a decis\u00e3o e quando decidi fazer isso s\u00f3 coloquei uma condi\u00e7\u00e3o: que ele tamb\u00e9m me deixasse dirigir a funda\u00e7\u00e3o. Eu disse literalmente que a metade do meu cora\u00e7\u00e3o batia pelos neg\u00f3cios e a outra metade, pelo investimento social. Ele n\u00e3o queria, porque sabia que o trabalho da Funda\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande e muito complexo, mas n\u00e3o teve outra op\u00e7\u00e3o. Foi uma das melhores condi\u00e7\u00f5es que impus na minha vida.<\/p>\n<h3>A INOVA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p><strong>Alejandro<\/strong>: Eu disse antes que eles eram duas pessoas modernas. Na homenagem a Jos\u00e9 Antonio algu\u00e9m disse que ele era um renascentista. Eu relacionei isso \u00e0 ideia de estar sempre inovando. Lembro de uma vez, quando uma pessoa de 25 ou 30 anos se queixou de que estava surgindo uma nova rede social, o Threads, para competir com o X. \u201cDever\u00edamos adicionar o estresse de estar em mais uma rede?\u201d, a pessoa perguntou. E Jos\u00e9 Antonio respondeu: \u201cTrate-a com carinho\u201d. Ou seja, um homem de 63 anos, que obviamente n\u00e3o era um nativo digital, estava dizendo a um nativo digital para dar aten\u00e7\u00e3o e dedicar tempo a uma nova rede para o caso de ela ficar mais importante que o X no futuro. Ele transmitia constantemente essa ideia de: \u201cbem-vindo ao mundo de hoje\u201d. Era preciso experimentar tudo.<\/p>\n<p><strong>Adriana<\/strong>: O tema inova\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos mais complexos para qualquer grupo empresarial que existe h\u00e1 muito tempo: manter a disciplina para continuar inovando. \u00c9 complicado. As pessoas se acomodam, os l\u00edderes envelhecem. N\u00f3s sempre fomos super inovadores, exceto por um per\u00edodo de uns 15 anos. Quando o Hugo Ch\u00e1vez ganhou e virou presidente, declarou o meu pai inimigo n\u00famero um do Estado. Ch\u00e1vez fazia as famosas transmiss\u00f5es em cadeia nacional e nos atacava diariamente como grupo, como fam\u00edlia e o meu pai, pessoalmente. Ele recebia amea\u00e7as de morte di\u00e1rias. Assim foi tomada a decis\u00e3o de levarmos o grupo para os Estados Unidos e nos estabelecermos em Miami. A transi\u00e7\u00e3o foi muito complicada. Foi preciso construir est\u00fadios de produ\u00e7\u00e3o na Fl\u00f3rida para cumprir o nosso contrato com a Univisi\u00f3n. Levamos os nossos executivos e foi preciso encontrar escrit\u00f3rios, escolas para os filhos dos executivos, etc. Foi nesse momento que come\u00e7aram a falar comigo e eu me dei conta de que o grupo estava focado em sobreviver, que o tema inova\u00e7\u00e3o tinha sido deixado completamente de lado. \u00c9 muito dif\u00edcil tentar sobreviver e inovar ao mesmo tempo. Ent\u00e3o, eu me dei conta de que, uma vez estabelecidos nos Estado Unidos, e depois de termos conseguido sobreviver, t\u00ednhamos que voltar a inovar, inovar e inovar. Ent\u00e3o come\u00e7ou a revolu\u00e7\u00e3o digital.<\/p>\n<p>O interessante da minha chegada n\u00e3o era o fato de eu ser particularmente inteligente ou inovadora, mas que eu representava a chegada de um olhar novo. Eu disse: todos os canais de televis\u00e3o est\u00e3o fazendo isso. Existem oportunidades diferentes. Temos que mudar o mindset. E houve receptividade. Voltamos a ser inovadores.<\/p>\n<h5>O tema inova\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos mais complexos para qualquer grupo empresarial com muito tempo de exist\u00eancia: manter a disciplina para continuar inovando. \u00c9 complicado<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>O OTIMISMO ESTRAT\u00c9GICO<\/h3>\n<p><strong>Adriana<\/strong>: Tanto Jos\u00e9 Antonio como o meu pai eram pessoas otimistas. E o mundo est\u00e1 dividido entre os que o s\u00e3o e os que n\u00e3o o s\u00e3o. Era o otimismo que fazia o meu pai se levantar todos os dias pensando: \u201cexiste uma pessoa nova que posso conhecer, existe um \u00e2ngulo novo que podemos adotar, existe uma maneira de conciliar esses conceitos\u201d. Era um otimismo que, \u00e0s vezes, inclusive, se tornava excessivo. Algumas pessoas diziam que o otimismo dele era contagiante, mas para mim, \u00e0s vezes, era muito pesado. Era de l\u00e1 que surgia uma energia e uma vontade imbat\u00edveis de continuar fazendo coisas.<\/p>\n<p><strong>Alejandro<\/strong>: Eu acho que esse otimismo tamb\u00e9m tinha um lado estrat\u00e9gico. Aprendi com os dois que administrar rela\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m faz parte do mundo dos neg\u00f3cios. Entender-se com os dois extremos faz parte do sucesso no mundo dos neg\u00f3cios. O sr. Gustavo, por exemplo, sempre fazia voc\u00ea se sentir o convidado mais importante da casa. Jos\u00e9 Antonio fazia algo parecido: se voc\u00ea gostasse de um vinho, chegaria \u00e0 casa dele e teria esse vinho, e ele tinha escolhido por causa de voc\u00ea. Ele tinha uma capacidade de gerar v\u00ednculos emocionais. E depois, claro, isso tinha uma tradu\u00e7\u00e3o profissional: permitia que eles exigissem de voc\u00ea um esfor\u00e7o extra.<\/p>\n<p><strong>Adriana<\/strong>: Voc\u00ea dava mais um, e depois eles exigiam mais dois.<\/p>\n<p><strong>Alejandro<\/strong>: Exatamente. Era assim mesmo.<\/p>\n<p><strong>Adriana<\/strong>: Mesmo que estivessem contentes, deixavam parecer que voc\u00ea estava devendo um pouquinho mais. Isso fazia parte da din\u00e2mica de trabalho deles.<\/p>\n<p><strong>Alejandro<\/strong>: Voc\u00ea podia fazer o trabalho muito bem, mas eles sempre diziam: \u201cvoc\u00ea poderia ter feito isso melhor\u201d. Mas esse v\u00ednculo emocional fazia com que voc\u00ea desse muito mais. \u00c9 nesse sentido que digo que o otimismo deles, a curiosidade, tamb\u00e9m tinham um elemento estrat\u00e9gico. Eles faziam voc\u00ea se sentir a pessoa mais importante da mesa, mas tamb\u00e9m pediam mais de voc\u00ea. Era uma caracter\u00edstica dos dois.<\/p>\n<h3>A LIDERAN\u00c7A NA ERA DA POLARIZA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p><strong>Adriana<\/strong>: O mundo sempre foi polarizado. Mas \u00e9 verdade que isso tamb\u00e9m est\u00e1 afetando a nossa gera\u00e7\u00e3o. No entanto, a partir do momento que eu comecei a trabalhar com o meu pai, ele sempre me obrigou a entender o outro lado da equa\u00e7\u00e3o. Nunca me deixou ficar confort\u00e1vel com o que eu conhecia. Sempre me dizia que era important\u00edssimo entender qual era a alternativa, de onde vinha esse ou aquele ponto de vista, como os concorrentes viam isso. Eu espero continuar tendo a disciplina de querer sempre escutar o outro lado da equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h5>Era important\u00edssimo entender de onde vinham esse ou aquele ponto de vista, a forma como os concorrentes viam algo. Eu espero continuar tendo a disciplina de querer sempre escutar o outro lado da equa\u00e7\u00e3o<\/h5>\n<p><strong>Alejandro<\/strong>: \u00c9 preciso aprender com lideran\u00e7as como as do sr. Gustavo e do Jos\u00e9 Antonio. Mas voc\u00ea precisa desenvolver a sua pr\u00f3pria voz. Eu vi como a Adriana fazia. Aprendi como ela faz para gerar a sua pr\u00f3pria voz e criar o seu pr\u00f3prio espa\u00e7o. E sim, agora a polariza\u00e7\u00e3o social est\u00e1 mais vis\u00edvel porque existem as redes sociais. Vivemos na ditadura dos algoritmos. Ele d\u00e1 o que voc\u00ea quer ver e multiplica por cem e isso \u00e9 tudo o que voc\u00ea v\u00ea. Por isso, \u00e9 preciso aprender com pessoas como eles a import\u00e2ncia de ler os dois extremos e, depois, desenvolver a sua pr\u00f3pria opini\u00e3o. O sr. Gustavo convidava todos os tipos de pessoa para a casa dele, intelectuais e jornalistas, para escut\u00e1-los e depois criar seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios. Tem uma coisa que eu nunca disse para a Adriana. Ela foi me contando coisas, hist\u00f3rias, que me fizeram invejar a inf\u00e2ncia dela, a forma como esteve rodeada de artistas e escritores. O Jos\u00e9 Antonio tamb\u00e9m estava rodeado dessas pessoas. Tivemos a sorte de poder estar em muitos desses f\u00f3runs de reflex\u00e3o, compreendendo que ser capaz de escutar e criar consensos \u00e9 vital para nos entendermos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Cisneros foi um dos empres\u00e1rios mais relevantes do mundo hispano e dos Estados Unidos nos \u00faltimos 50 anos. 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