{"id":462714,"date":"2026-05-12T09:00:41","date_gmt":"2026-05-12T07:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/?p=462714"},"modified":"2026-05-12T11:50:48","modified_gmt":"2026-05-12T09:50:48","slug":"a-desinformacao-que-vem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/a-desinformacao-que-vem\/","title":{"rendered":"A Desinforma\u00e7\u00e3o que Vem"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alejandro Romero:<\/strong> Nesta edi\u00e7\u00e3o queremos abordar o papel da desinforma\u00e7\u00e3o, o fen\u00f4meno das fake news, a p\u00f3s-verdade e quem det\u00e9m a narrativa, o famoso storytelling. \u00c9 um prazer ter Pepa Bueno e Daniel Innerarity aqui para falar sobre isso. Para come\u00e7ar, gostaria de saber, Pepa, como podemos definir o conceito de desinforma\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Pepa Bueno:<\/strong> A primeira coisa a entender \u00e9 que vivemos no ecossistema da desinforma\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 dif\u00edcil para n\u00f3s identific\u00e1-la porque estamos muito dentro dele. E esse ecossistema claramente desempenha um papel relevante na forma como o jornalismo \u00e9 feito. A urg\u00eancia influencia os meios de comunica\u00e7\u00e3o que est\u00e3o sob grande estresse financeiro, com s\u00e9rios problemas econ\u00f4micos que impactam tremendamente seu modelo de neg\u00f3cio, e profissionais que precisam aprender novas tecnologias enquanto tentam aplicar um modelo de equipe do jornalismo cl\u00e1ssico. Ali\u00e1s: prefiro dizer \u201ccl\u00e1ssico\u201d e n\u00e3o \u201ctradicional\u201d, porque cl\u00e1ssico tem uma conota\u00e7\u00e3o nobre e sempre perdura, enquanto o r\u00f3tulo tradicional foi imposto para nos marginalizar. De qualquer forma, o jornalismo cl\u00e1ssico tem que correr e amarrar os sapatos ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Mas para entender o momento presente desse ecossistema, temos que descrever tr\u00eas grandes crises que afetaram o jornalismo cl\u00e1ssico, que deveria ter sido a vacina contra a desinforma\u00e7\u00e3o e, no entanto, n\u00e3o \u00e9. A primeira \u00e9 a crise tecnol\u00f3gica. O surgimento da internet foi descartado e subestimado como algo que n\u00e3o competia com nosso trabalho ou impactava nosso modelo de neg\u00f3cio. Quando percebemos que ambos eram falsos, j\u00e1 era tarde demais, e todos os meios cl\u00e1ssicos estavam em uma enorme crise econ\u00f4mica. Isso coincidiu com a grande crise financeira de 2008. E com a crise de credibilidade dos intermedi\u00e1rios que, na minha opini\u00e3o, decorre da quebra do pacto t\u00e1cito p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial nas sociedades ocidentais: voc\u00ea enriquece com o meu trabalho, mas eu e os meus progredimos.<\/p>\n<p>Esse pacto quebrou, e a partir de ent\u00e3o todos os intermedi\u00e1rios em que atu\u00e1vamos entraram em crise. Essa tripla crise que atinge os meios cl\u00e1ssicos dizima reda\u00e7\u00f5es e as coloca em competi\u00e7\u00e3o com as redes sociais, onde o vertigem e a desinforma\u00e7\u00e3o fazem parte do ecossistema. E ainda estamos nessa batalha. Uma batalha que leva ao surgimento da intelig\u00eancia artificial, que n\u00e3o s\u00f3 compete conosco, mas nos substitui.<\/p>\n<p><strong>AR:<\/strong> H\u00e1 tr\u00eas pilares que acho que valem a pena explorar. O primeiro \u00e9 a democracia e como ela \u00e9 afetada pela desinforma\u00e7\u00e3o. O segundo pilar \u00e9 o papel dos profissionais da informa\u00e7\u00e3o, que permanecem como um baluarte, e adoro esse conceito de cl\u00e1ssico, n\u00e3o tradicional, que a Pepa mencionou. E isso tamb\u00e9m se aplica \u00e0 nossa oferta cl\u00e1ssica de servi\u00e7os como empresa de comunica\u00e7\u00e3o. E o terceiro \u00e9 o surgimento da tecnologia e da internet e o conceito de democratiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o que muitas vezes tem sido usado para justificar que qualquer pessoa pode ser rep\u00f3rter ou jornalista.<\/p>\n<p>Daniel, que reflex\u00f5es voc\u00ea faria sobre o primeiro tema, o enfraquecimento da democracia?<\/p>\n<p><strong>Daniel Innerarity:<\/strong> Muitas, e n\u00e3o diretamente do mundo do jornalismo, porque n\u00e3o perten\u00e7o a ele. Mas acho que posso complementar o que a Pepa disse. Acredito que basicamente o que existe \u00e9 uma grande dificuldade em gerar um ecossistema equilibrado entre os meios \u2014 eu costumava dizer \u201ctradicionais\u201d, mas vou come\u00e7ar a dizer \u201ccl\u00e1ssicos\u201d \u2014 e as redes sociais. Quero lembrar que quando as redes sociais apareceram, as recebemos como um ganho democr\u00e1tico, o que era verdade. Lembro-me de viver em uma cidade provincial, como diriam em Madri, onde o diretor do \u00fanico jornal se comportava como um senhor feudal. Para fazer sua opini\u00e3o valer, voc\u00ea tinha que escrever uma carta ao editor. J\u00e1 contei isso em aula, e os alunos me olham incr\u00e9dulos.<\/p>\n<p>Naquele momento, isso quebrou, acabando com certa tirania do jornalismo cl\u00e1ssico, e portanto houve uma horizontaliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Foi fant\u00e1stico. As Primaveras \u00c1rabes, claro, iam estabelecer a democracia no Norte da \u00c1frica. A democracia era impar\u00e1vel gra\u00e7as a esse tipo de tecnologia. Havia o mesmo determinismo que agora vemos negativamente, mas ent\u00e3o positivamente. E junto a isso, descobrimos a maravilha de um mundo sem intermedi\u00e1rios. Por que precisamos de um jornalista? Por que precisamos de um m\u00e9dico se temos o Dr. Google? Por que precisamos de um padre se posso me relacionar diretamente com Deus?<\/p>\n<p>A tecnologia tamb\u00e9m gerou uma explos\u00e3o de conhecimento dispon\u00edvel, de informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, porque voc\u00ea entra no Google e est\u00e1 tudo l\u00e1. Isso fez com que indiv\u00edduos que n\u00e3o s\u00e3o profissionais do mundo da informa\u00e7\u00e3o enfrentassem uma sobrecarga excessiva. Acho que o grande problema agora n\u00e3o \u00e9 tanto que existam pessoas manipulando, que existem, mas que as pessoas est\u00e3o completamente perdidas em um horizonte. Isso \u00e9 o que me faz agora reivindicar o jornalismo cl\u00e1ssico e bons jornalistas: pessoas que, com uma atitude diferente, que n\u00e3o agem como senhores feudais porque n\u00e3o toleraremos mais isso, nos ajudam a navegar nesse mercado cognitivo ca\u00f3tico e n\u00e3o regulado que temos. Portanto, teremos que inventar uma f\u00f3rmula ou a figura de algu\u00e9m que filtre, selecione, priorize bem, n\u00e3o de forma interessada, mas justificadamente, e nos ajude a sobreviver nesse caos.<\/p>\n<p><strong>AR:<\/strong> Concordo. Na sociedade de hoje, acho que devemos valorizar a import\u00e2ncia dos meios e dos jornalistas como respons\u00e1veis por verificar as fontes: o que \u00e9 cred\u00edvel, o que \u00e9 confi\u00e1vel e o que n\u00e3o \u00e9. Essa \u00e9 a ess\u00eancia da quest\u00e3o. E acho que algu\u00e9m precisa assumir a responsabilidade por essa informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 o mesmo na tecnologia da avia\u00e7\u00e3o. Os avi\u00f5es est\u00e3o prontos h\u00e1 anos para voar sem pilotos, mas os pilotos ainda existem, e se algo acontece com o avi\u00e3o, queremos algu\u00e9m respons\u00e1vel. Acho que no jornalismo cl\u00e1ssico, isso \u00e9 o que temos que valorizar. Mas vamos passar aos riscos. Pepa, que riscos essa desinforma\u00e7\u00e3o que vem traz?<\/p>\n<blockquote><p><strong>&#8220;A democracia est\u00e1 em risco e precisamos do jornalismo cl\u00e1ssico e do profissional da informa\u00e7\u00e3o que se responsabiliza, com uma assinatura, por garantir que a informa\u00e7\u00e3o venha de uma fonte checada, cred\u00edvel e confi\u00e1vel.&#8221;<\/strong><br \/>\nAlejandro Romero<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PB:<\/strong> Quero fazer um breve coment\u00e1rio sobre o que o Daniel disse, que \u00e9 t\u00e3o sugestivo. \u00c9 verdade que o jornalismo n\u00e3o pode voltar ao p\u00falpito civil do qual foi desalojado pela democratiza\u00e7\u00e3o que a internet significou. Mas uma coisa \u00e9 abandonar o p\u00falpito civil que dita as regras, e outra \u00e9 desenvolver o m\u00e9todo profissional que o Alejandro mencionou, que permite organizar, priorizar e reportar informa\u00e7\u00f5es com fontes verificadas.<\/p>\n<p>De qualquer forma, o risco para mim \u00e9 a democracia, e com a democracia todas as institui\u00e7\u00f5es que a sustentam. Para ser concreto, a perda da conviv\u00eancia. Passamos duas d\u00e9cadas deste s\u00e9culo confinados em bolhas de conforto ideol\u00f3gico, e essas bolhas que viraram as costas umas para as outras agora entraram em combate direto. Como esse combate de bolhas e conforto ideol\u00f3gico, em que voc\u00ea est\u00e1 constantemente concordando com pessoas que pensam como voc\u00ea, permeia o mundo f\u00edsico, em uma era em que a lei do mais forte retorna? N\u00e3o quero ser apocal\u00edptica, mas sinto grandes riscos porque o outro foi muito objetificado e desumanizado, e quando voc\u00ea liga seu telefone pela manh\u00e3, tem um campo de batalha di\u00e1rio e permanente. O salto disso para a vida f\u00edsica, que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o distante, p\u00f5e em risco a conviv\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>AR:<\/strong> E como o poder do algoritmo se soma a esse risco, algo desenhado para fins comerciais e de marketing para que, por exemplo, se voc\u00ea gostava de varas de pesca, receberia muita informa\u00e7\u00e3o sobre elas? Agora a bolha ideol\u00f3gica \u00e9 brutal porque voc\u00ea s\u00f3 recebe informa\u00e7\u00e3o da sua ideologia, e voc\u00ea perde algo que voc\u00ea mencionou, o contraste da informa\u00e7\u00e3o. Acho tamb\u00e9m necess\u00e1rio diferenciar o que \u00e9 opini\u00e3o do que \u00e9 informa\u00e7\u00e3o porque h\u00e1 grande confus\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>PB:<\/strong> Isso \u00e9 crucial porque n\u00e3o estamos na era da sobreinforma\u00e7\u00e3o; estamos na era da sobreopini\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>AR:<\/strong> Estamos na era da sobreopini\u00e3o, e parece que opini\u00e3o \u00e9 informa\u00e7\u00e3o. Se uma certa pessoa me diz algo, isso j\u00e1 \u00e9 um dogma de f\u00e9, mas essa \u00e9 a opini\u00e3o dela, n\u00e3o informa\u00e7\u00e3o. Daniel, quais riscos voc\u00ea v\u00ea?<\/p>\n<p><strong>DI:<\/strong> Primeiro, acho que teremos que nos acostumar a viver em um mundo um pouco mais ca\u00f3tico, um pouco mais desconfort\u00e1vel do que t\u00ednhamos no final do s\u00e9culo passado. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil, e s\u00f3 me ocorrem solu\u00e7\u00f5es parciais, muito lentas e limitadas. Por exemplo, fact-checking para detectar mentiras muito grosseiras ou rumores com um crit\u00e9rio de objetividade.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um risco que \u00e0s vezes \u00e9 pouco discutido e tem a ver com os instrumentos que usamos para enfrentar a desinforma\u00e7\u00e3o. Esses instrumentos, por sua vez, devem ser totalmente respeitosos da liberdade de express\u00e3o porque, caso contr\u00e1rio, podemos consertar um problema, mas gerar um muito maior. Devemos ter em mente que a democracia que queremos defender a todo custo surgiu da experi\u00eancia hist\u00f3rica de que ningu\u00e9m tinha acesso privilegiado \u00e0 verdade e ningu\u00e9m detinha o monop\u00f3lio de descrever a realidade. E a partir da\u00ed, houve uma aceita\u00e7\u00e3o do pluralismo, que temos diferentes interpreta\u00e7\u00f5es da realidade, \u00e0s vezes muito opostas, brutalmente antag\u00f4nicas. E isso gera desconforto, e certamente estar\u00edamos mais confort\u00e1veis em um universo de maiores acordos, e ao mesmo tempo, pode ser considerado uma conquista.<\/p>\n<p><strong>AR:<\/strong> Outro grande risco \u00e9 a distor\u00e7\u00e3o da realidade. Parece que repetindo algo que n\u00e3o \u00e9 verdade, e que \u00e9 possivelmente muito mais pr\u00f3ximo de uma mentira, acaba se tornando verdade. Porque, ent\u00e3o, o que \u00e9 verdade?<\/p>\n<p><strong>PB:<\/strong> Quando falo de jornalismo, parei de usar palavras grandes. Parei de usar \u201cindepend\u00eancia\u201d ou \u201crigor\u201d porque s\u00e3o polissemicas. S\u00e3o usadas indistintamente por quem sai de manh\u00e3 com uma opini\u00e3o ou transforma uma anedota em uma grande manchete e por quem faz o trabalho artesanal e pesado do jornalismo, de avaliar qual \u00e9 a not\u00edcia mais importante, qual tem maior impacto nas pessoas, e que verificamos e temos tr\u00eas fontes. N\u00e3o falo mais assim. Digo que nosso trabalho consiste em uma abordagem honesta da realidade.<\/p>\n<p><strong>AR:<\/strong> Outro grande conceito. Daniel, depois de abordar os riscos, vamos falar de poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es. Quais seriam as solu\u00e7\u00f5es para essa era dominada pela p\u00f3s-verdade ou desinforma\u00e7\u00e3o para limitar a confus\u00e3o, enfrentar a ditadura do algoritmo, ou qual papel os meios e jornalistas deveriam desempenhar?<\/p>\n<p><strong>DI:<\/strong> Deixe-me colocar meu modo fil\u00f3sofo, que \u00e9 inevit\u00e1vel no meu caso, e come\u00e7ar dizendo que devemos fazer um esfor\u00e7o para entender bem o que est\u00e1 acontecendo, para ter bons conceitos. Isso n\u00e3o \u00e9 uma luta entre o bem e o mal, entre aqueles que t\u00eam uma descri\u00e7\u00e3o perfeita da realidade e aqueles que querem manipular. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 fundamentalmente um cen\u00e1rio ca\u00f3tico em que algumas pessoas se aproveitam. Mas a desordem \u00e9 anterior. Passamos de um mundo relativamente ordenado e n\u00e3o muito democr\u00e1tico para um muito desordenado e aparentemente o mais democr\u00e1tico que conseguimos inventar.<\/p>\n<p>Acho bom fazer uma clarifica\u00e7\u00e3o conceitual, diferenciar uma opini\u00e3o falsa de uma opini\u00e3o fake. Eu costumo dizer opini\u00f5es falsas porque era uma opini\u00e3o, e depois percebo que n\u00e3o estava correta. Mas uma opini\u00e3o fake \u00e9 algo bem diferente. \u00c9 algo apresentado como opini\u00e3o, mas que na verdade \u00e9 manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acho muito importante que tenhamos clareza conceitual, que saibamos bem o tipo de mundo em que vivemos, e nesse cen\u00e1rio, eu destacaria a limita\u00e7\u00e3o do fact-checking porque a conversa p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 uma conversa sobre a objetividade das coisas, embora isso seja muito importante, mas sobre como interpretamos as coisas. Costumo dar um exemplo: quando sa\u00edmos da crise econ\u00f4mica, a Grande Recess\u00e3o, uma das discuss\u00f5es que nos ocupou por quase um ano foi se realmente t\u00ednhamos sa\u00eddo dela. Por qu\u00ea? Porque a direita e a esquerda, para usar essas categorias, tinham uma concep\u00e7\u00e3o diferente do que era uma economia saud\u00e1vel e recuperada ap\u00f3s tal choque. Qual das duas era melhor? Eu sei qual era melhor, mas n\u00e3o me atreveria a dizer que uma era verdadeira e a outra falsa. Ou seja, vamos aceitar que a sociedade democr\u00e1tica \u00e9 aquela que valoriza mais o pluralismo e a liberdade de express\u00e3o, mesmo assumindo um certo risco de que os manipuladores tenham mais espa\u00e7o do que deveriam. Esse \u00e9 um princ\u00edpio que luto muito para manter.<\/p>\n<blockquote><p><strong>&#8220;N\u00e3o estamos na era da sobreinforma\u00e7\u00e3o; estamos na era da sobreopini\u00e3o.&#8221;<\/strong><br \/>\nPepa Bueno<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AR:<\/strong> Nesta conversa, acho que n\u00e3o podemos evitar tocar no surgimento da intelig\u00eancia artificial. Daniel, voc\u00ea mencionou antes o Dr. Google, mas agora temos tamb\u00e9m o Dr. Perplexity, Dr. Cloud, Dr. ChatGPT, que s\u00e3o muito mais sofisticados. O Google facilitou o que antes era feito com enciclop\u00e9dias. Mas agora a dimens\u00e3o \u00e9 diferente. Pepa, como a intelig\u00eancia artificial generativa, e os agentes que se tornaram ajudantes di\u00e1rios em muitas de nossas tarefas, afetam a desinforma\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>PB:<\/strong> Com a intelig\u00eancia artificial, o que aconteceu com a internet acontece, mas multiplicado. Insisto muito na import\u00e2ncia de identificar o ecossistema. Nossa vida, incluindo o que se relaciona com a intelig\u00eancia artificial, acontece em cinco ou seis lugares. Os donos dessas empresas, neste momento em que tudo \u00e9 geopol\u00edtica, s\u00e3o em sua maioria americanos, um chin\u00eas e um russo. Por muito tempo, era apenas neg\u00f3cio, e agora, para continuar fazendo neg\u00f3cios, decidiram atuar na pol\u00edtica. Na minha opini\u00e3o, a democracia deixou de ser \u00fatil para eles porque \u00e9 muito pesada, deliberativa, voc\u00ea tem que fazer muitas pessoas concordarem, tem que regular. Deixou de ser \u00fatil, e o algoritmo, que determina nossa conversa, nossa posi\u00e7\u00e3o, a objetifica\u00e7\u00e3o do outro, decidiu entrar na pol\u00edtica. Se n\u00e3o identificarmos bem que esse \u00e9 o ecossistema e que estamos todos profundamente dentro dele, mesmo as pessoas mais educadas e informadas, dificilmente poderemos conviver no conflito, que \u00e9 o que a democracia \u00e9.<\/p>\n<p>Mas a liberdade de express\u00e3o n\u00e3o pode cobrir tudo, Daniel, e isso vem de uma jornalista. N\u00e3o pode cobrir a morte civil de um cidad\u00e3o que pensa diferente de voc\u00ea. E vemos isso todos os dias. Mentiras, desinforma\u00e7\u00e3o, campanhas de morte civil na vida real, f\u00edsica, de muitas pessoas e fam\u00edlias, muitos jornalistas, est\u00e3o sendo cobertos. Sobre o que voc\u00ea levantou sobre intelig\u00eancia artificial. Os jornalistas n\u00e3o podem cometer o mesmo erro que em 2000 com a internet, que \u00e9 deixar essa ferramenta nas m\u00e3os das empresas. No El Pa\u00eds, meu esfor\u00e7o firme foi que desde o in\u00edcio houvesse crit\u00e9rios editoriais, que os jornalistas estivessem envolvidos nas decis\u00f5es de neg\u00f3cio que afetam a intelig\u00eancia artificial, tanto na aquisi\u00e7\u00e3o de ferramentas quanto na estrat\u00e9gia comercial e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia artificial est\u00e1 sendo muito usada nas reda\u00e7\u00f5es. A primeira abordagem, o primeiro protocolo em que estive envolvida, no El Pa\u00eds, porque na Televisi\u00f3n Espa\u00f1ola j\u00e1 encontrei isso feito quando voltei, foi que, afinal, assim como vivemos na era do indiv\u00edduo e da sobreopini\u00e3o de cada um, o jornalista \u00e9 o respons\u00e1vel final. A empresa tem responsabilidade, mas deve-se apelar \u00e0 responsabilidade dos indiv\u00edduos ao usar a ferramenta para dizer ao leitor \u201cn\u00e3o estou te enganando.\u201d Sou eu que uso essa ferramenta fant\u00e1stica que facilita muitas coisas \u2014 simplifica meus processos de tradu\u00e7\u00e3o, me d\u00e1 acesso a resumos que me permitem economizar tempo para focar no qualitativo que tenho para te oferecer como jornalista \u2014 mas eu comandei todo esse processo.<\/p>\n<p><strong>AR:<\/strong> E tamb\u00e9m, por ser respons\u00e1vel por esse artigo, essa informa\u00e7\u00e3o, esse relat\u00f3rio, aposta seu prest\u00edgio e marca pessoal. E concordo que tem muitos aspectos positivos em termos de pesquisa, pesquisa profunda, acesso a muito mais informa\u00e7\u00e3o que deve ser verificada. Daniel, do seu ponto de vista, qual \u00e9 o impacto do surgimento da IA?<\/p>\n<p><strong>DI:<\/strong> Eu responderia em dois n\u00edveis, o micro e o macro. No n\u00edvel comercial e no geoestrat\u00e9gico. No n\u00edvel comercial est\u00e1, claro, o jornalismo, mas eu sou professor e pesquisador. E vejo o mesmo debate em ambos os campos. Norbert Wiener, um dos pais da intelig\u00eancia artificial, disse uma frase que repito muito porque acho que resume tudo. Ele disse que o mundo do futuro ser\u00e1 uma luta cada vez mais exigente contra os limites da nossa intelig\u00eancia. N\u00e3o estaremos deitados confortavelmente numa rede servidos por escravos rob\u00f4s. E eu acrescento a \u201cservidos\u201d, \u201csubstitu\u00eddos.\u201d N\u00e3o estamos caminhando para a substitui\u00e7\u00e3o; estamos, especialmente se fizermos bem, caminhando para uma luta contra os limites da nossa intelig\u00eancia. E seguramente fil\u00f3sofos, jornalistas, cientistas pol\u00edticos e engenheiros ter\u00e3o que se fazer uma pergunta desconfort\u00e1vel: o que eu fa\u00e7o tem valor agregado? Que parte do que fa\u00e7o realmente tem valor agregado? Temos que nos perguntar coisas como: uma m\u00e1quina poderia ter feito o que fiz esta manh\u00e3? Porque talvez voc\u00ea deva se dedicar a outra coisa, buscar competitividade, mas tamb\u00e9m a satisfa\u00e7\u00e3o de lutar contra seus pr\u00f3prios limites. Espero muito da criatividade das profiss\u00f5es que ser\u00e3o aliviadas de tarefas que n\u00e3o t\u00eam valor. Claro, agora isso \u00e9 desconfort\u00e1vel, mas tamb\u00e9m fascinante.<\/p>\n<p>Essa seria minha resposta sobre o micro, o comercial. A resposta sobre o macro \u00e9 que estamos em um ambiente geopol\u00edtico muito inc\u00f4modo no qual os grandes chefes que dominam as plataformas e a tecnologia, os tecnossoluconistas ou senhores feudais da tecnologia, n\u00e3o acreditam na democracia. H\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o estrita: quanto mais cr\u00e9dulo voc\u00ea \u00e9 do poder da tecnologia, menos acredita na democracia. Peter Thiel e Elon Musk, todas essas pessoas, dizem abertamente: com tecnologia, podemos resolver todos os problemas da humanidade. E ao mesmo tempo, dizem que a democracia n\u00e3o serve mais para resolver nenhum problema s\u00e9rio da humanidade. Estou muito obcecado em explorar essa rela\u00e7\u00e3o porque me parece que n\u00e3o \u00e9 casual. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que a tecnologia receba poderes curativos para qualquer doen\u00e7a social e que, no fundo, essas pessoas que nos dominam sejam muito analfabetas socialmente. A coisa mais complexa do mundo, a maior conquista da humanidade, \u00e9 a democracia. \u00c9 a organiza\u00e7\u00e3o da conviv\u00eancia em uma sociedade plural, articulando valores que s\u00e3o dificilmente compat\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>AR:<\/strong> A democracia \u00e9 desconfort\u00e1vel porque exige que concordemos. E o mundo da ditadura tecnol\u00f3gica corporativa n\u00e3o quer acordos. O conceito do Vale do Sil\u00edcio de quebrar tudo baseia-se em quebrar a estrutura para recri\u00e1-la e ver se pode ser mais simples e mais f\u00e1cil de gerir. Porque gerir a complexidade das pessoas \u00e9 uma das grandes dificuldades de qualquer organiza\u00e7\u00e3o social, empresarial ou humana. Mas vamos come\u00e7ar a encerrar e tirar algumas conclus\u00f5es. Que tr\u00eas ideias-chave voc\u00eas tirariam desse di\u00e1logo?<\/p>\n<p><strong>PB:<\/strong> Primeiro, apesar do tom derrotista, sou otimista. Mas um otimismo informado sobre jornalismo e democracia. Embora curvas estejam por vir no curto prazo, todos confiamos em um movimento pendular. Que haver\u00e1 um momento em que a satura\u00e7\u00e3o de ru\u00eddo, dados e imagens descontexualizadas far\u00e1 um movimento pendular e uma maioria de cidad\u00e3os se voltar\u00e1 para os meios cl\u00e1ssicos buscando alguma compreens\u00e3o do mundo. N\u00e3o para que lhes digam o que pensar, mas para que lhes d\u00eaem as ferramentas para formar sua pr\u00f3pria opini\u00e3o.<\/p>\n<p>E essa \u00e9 uma tarefa que vai al\u00e9m do jornalismo, que obviamente afeta toda a sociedade; afeta os poderes p\u00fablicos, aqueles que t\u00eam um papel fundamental na pol\u00edtica, aqueles que ainda acreditam que a democracia, essa maravilhosa inven\u00e7\u00e3o que tem apenas duzentos anos, vale a pena como modelo de conviv\u00eancia que apela a toda a sociedade, que apela \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 a dos jovens, que acredito ser essencial; acho que o maior risco n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed, mas nos adultos com forma\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica, digitalmente chegados. Portanto, otimismo, confian\u00e7a no movimento pendular e, enquanto isso, jornalismo que seja muito, muito flex\u00edvel com o contexto e o novo ecossistema e com a tecnologia, e muito firme com o protocolo do jornalismo cl\u00e1ssico. N\u00e3o podemos abdicar disso.<\/p>\n<p><strong>DI:<\/strong> Primeiro, acho que estaremos em um ambiente ca\u00f3tico e desagrad\u00e1vel por muito tempo. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o mandato do Trump; quando um democrata vier, isso n\u00e3o vai acabar. H\u00e1 um movimento tect\u00f4nico de fundo, uma mar\u00e9, que vai em uma dire\u00e7\u00e3o perturbadora. Portanto, devemos proteger as institui\u00e7\u00f5es. Vamos nos educar. Insisto muito nisso. A Pepa disse anos atr\u00e1s que se deve gastar em jornais pelo menos o que se gasta em cervejas. Bem, eu diria que tamb\u00e9m vamos gastar um pouco em educa\u00e7\u00e3o. Parte dessa polariza\u00e7\u00e3o atual, est\u00fapida e amadora, \u00e9 que o princ\u00edpio da universalidade da pol\u00edtica e da igualdade de todas as opini\u00f5es \u00e9 confundido com o esfor\u00e7o para ter uma opini\u00e3o um pouco madura, sustentada em dados e opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Isso de um lado. Por outro lado, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s profiss\u00f5es, o que buscamos e o que oferecemos? Agora, pago pessoas para me guiarem, n\u00e3o para confirmarem minhas opini\u00f5es. Quando vou aos meios, j\u00e1 que estamos falando nesse ambiente, o que quero \u00e9 que me guiem, e come\u00e7o a suspeitar quando todos me guiam na mesma dire\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m acho bom ter diversidade, contraste de opini\u00f5es, mas o que quero s\u00e3o pessoas que me ofere\u00e7am algo bom. Estou cansado de memes no X.<\/p>\n<p>E ao mesmo tempo, o que oferecemos em nossa profiss\u00e3o? Se o que quero \u00e9 consumir cinema de baixa qualidade, mas satisfat\u00f3rio, o algoritmo da Netflix ser\u00e1 fant\u00e1stico. Funciona muito bem e te d\u00e1 coisas agrad\u00e1veis. Se eu quero isso, tudo bem. Mas \u00e0s vezes quero algo que me surpreenda, algo verdadeiramente criativo, algo disruptivo. E a\u00ed, n\u00e3o encontrarei um rob\u00f4; encontrarei uma pessoa de carne e osso, um pouco louca, que foi um pouco contra a mar\u00e9. Claro, quero que o motorista do meu \u00f4nibus, aquele que me d\u00e1 a previs\u00e3o do tempo, todas essas pessoas n\u00e3o sejam muito criativas. Mas seguramente numa reda\u00e7\u00e3o deve haver espa\u00e7o para os quatro loucos. Mesmo que n\u00e3o sejam mais.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o a terceira coisa que queria dizer \u00e9 que valorizemos o que temos. Vamos valorizar a democracia. Mas n\u00e3o fa\u00e7amos \u2014 eu imponho isso como regra para mim porque basicamente me dedico a isso \u2014 descri\u00e7\u00f5es excessivamente negativas da realidade porque \u00e9 isso que os maus, se me permitem dizer assim, querem. Acho que Donald Trump \u00e9 um personagem que se delicia com certas descri\u00e7\u00f5es feitas dele, que lhe d\u00e3o mais poder do que ele realmente tem. E, pelo contr\u00e1rio, acho que ele se sente mais desconfort\u00e1vel quando cutucamos seu olho e dizemos que a democracia, mesmo a americana, tem muito mais elementos de resist\u00eancia do que parece.<\/p>\n<blockquote><p><strong>&#8220;Acho que \u00e9 bom fazer uma precis\u00e3o conceitual, diferenciar uma opini\u00e3o falsa de uma falsa opini\u00e3o.&#8221;<\/strong><br \/>\nDaniel Innineraty<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PB:<\/strong> Adoro o que voc\u00ea disse, Daniel, porque costumo dizer que fa\u00e7amos jornalismo para ajudar a entender o mundo, n\u00e3o para tem\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong>AR:<\/strong> Essa \u00e9 uma conclus\u00e3o importante e uma grande manchete. Quero agradecer a voc\u00eas dois pelo espa\u00e7o, pela conversa e pelas ideias. A intelig\u00eancia artificial dificilmente poder\u00e1 substituir essas mesas de debate e a criatividade humana ao vivo. Que permanece um est\u00edmulo para o c\u00e9rebro, para aprender e pensar em ideias que acredito serem a base do progresso da humanidade. Da minha parte, concordo que devemos fortalecer a democracia. A democracia est\u00e1 em risco, e precisamos do jornalismo cl\u00e1ssico e do profissional da informa\u00e7\u00e3o que assume a responsabilidade com uma assinatura de que a informa\u00e7\u00e3o vem de uma fonte verificada, cred\u00edvel e confi\u00e1vel. Acho que o que precisamos \u00e9 educa\u00e7\u00e3o, para termos nossa pr\u00f3pria opini\u00e3o e nosso pr\u00f3prio crit\u00e9rio ao discutir um tema, e para isso, precisamos ler. E agora, tamb\u00e9m nos educar em intelig\u00eancia artificial e no uso de ferramentas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alejandro Romero: Nesta edi\u00e7\u00e3o queremos abordar o papel da desinforma\u00e7\u00e3o, o fen\u00f4meno das fake news, a p\u00f3s-verdade e quem det\u00e9m a narrativa, o famoso storytelling. \u00c9 um prazer ter Pepa Bueno e Daniel Innerarity aqui para falar sobre isso. Para come\u00e7ar, gostaria de saber, Pepa, como podemos definir o conceito de desinforma\u00e7\u00e3o? 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