{"id":474004,"date":"2013-08-19T17:43:18","date_gmt":"2013-08-19T15:43:18","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/entre-a-terra-prometida-e-o-risco-do-empreendedor\/"},"modified":"2026-08-13T13:53:55","modified_gmt":"2026-08-13T11:53:55","slug":"entre-a-terra-prometida-e-o-risco-do-empreendedor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/entre-a-terra-prometida-e-o-risco-do-empreendedor\/","title":{"rendered":"Entre a terra prometida  e o risco do empreendedor"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/prometida.jpg\"><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Pra esse sol, <\/em><br \/>\n<em>para esta escurid\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>Aten\u00e7\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>Tudo \u00e9 perigoso<\/em><br \/>\n<em>Tudo \u00e9 divino maravilhoso<\/em><\/p>\n<p><strong>Caetano Veloso, <\/strong><br \/>\n<strong>Divino maravilhoso<\/strong><\/p>\n<p>Quanto mais o empreendedor ib\u00e9rico planeja investir ou investe no Brasil, mais parece ganhar sentido um verso sem qualquer v\u00ednculo com neg\u00f3cios, de Fernando Pessoa: \u201cAmar \u00e9 a eterna inoc\u00eancia, e a inoc\u00eancia \u00e9 n\u00e3o pensar\u201d. Ou seria esse escrito de Garc\u00eda Lorca: \u201cAmarrado por ti, hecho com tus dos manos\u201d. Talvez, nem um nem outro, sim esse breve cantar de Caetano Veloso: \u201cEu vou lhe dar a decis\u00e3o&#8230;\u201d ((PESSOA, Fernando, O guardador de rebanhos, in: Obras Completas, Rio de Janeiro, Aguilar, 1974, p. 204; LORCA, Garc\u00eda, Bodas de Sangre, in: Obras Completas, Aguilar, 1977, p. 606, v.2; VELOSO, Caetano, Moro na Filosofia, CD Transa, Universal Music, 2012, original: Londres, 1972.))<\/p>\n<p>Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>H\u00e1 uma converg\u00eancia entre os tr\u00eas momentos po\u00e9ticos descritos. Com inoc\u00eancia e o n\u00e3o pensar, se deixando amarrar ou sentindo a for\u00e7a da decis\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil constatar que, n\u00e3o se deve ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o das imagens feitas ou dos arqu\u00e9tipos. A cada passo, o brasileiro apresenta uma nova surpresa, um novo avan\u00e7o no modo de sentir e agir, de pensar e dar \u00e0 liberdade um significado mais amplo. A\u00e7\u00facar, ouro, caf\u00e9, borracha, madeira, algod\u00e3o, industrias, servi\u00e7os, globaliza\u00e7\u00e3o: cada momento \u00e9 palco de um novo sentido da conquista e da confian\u00e7a. Se no s\u00e9culo VXIII, foi o Brasil tesouro da Europa, pela riqueza das minas, hoje \u00e9 o tesouro dos investidores pela expans\u00e3o do mercado.<\/p>\n<p>N\u00e3o falta alegria, como rezam os arqu\u00e9tipos, mas tudo \u00e9 novo, tudo \u00e9 promissor, mas nada deixa de ser desafiador, capitalismo de risco. Ou como ensina o refr\u00e3o de Caetano Veloso: tudo \u00e9 perigoso, tudo \u00e9 divino, maravilhoso.<\/p>\n<p><strong>A MOLDURA E O QUADRO<\/strong><\/p>\n<p>De qualquer \u00e2ngulo que se olhe, o Brasil \u00e9 um gigante. Sua popula\u00e7\u00e3o, com cerca de 200 milh\u00f5es de habitantes (2012), \u00e9 equivalente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o dos 12 pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul ((Pelos dados do Ipea (Instituto de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica Aplicada), em 2035 o Brasil ter\u00e1 225 milh\u00f5es de habitantes.)). Equivale dizer que \u00e9 mais de 18 vezes maior, em n\u00fameros aproximados, que a popula\u00e7\u00e3o de Portugal e mais de quatro vezes a popula\u00e7\u00e3o da Espanha, tamb\u00e9m em n\u00fameros aproximados. Geograficamente, possui espa\u00e7o suficiente para abrigar todo o territ\u00f3rio dos Estados Unidos, excluindo o Alaska, e nos seus 8,5 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados caberia mais de 14 vezes os 580 mil quil\u00f4metros da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica.<\/p>\n<p>Se o crit\u00e9rio for as dimens\u00f5es do mercado, figura entre os cinco grandes do mundo, ao lado dos Estados Unidos, China, R\u00fassia e \u00cdndia. Ali\u00e1s, vale lembrar, o mercado sempre foi o grande trunfo brasileiro. Foi assim at\u00e9 a Abertura dos Portos em 1808, quando se abriu ao mercantilismo ingl\u00eas em troca de defesa contra as tropas de Napole\u00e3o. Foi assim no per\u00edodo do Imp\u00e9rio, quando Dom Pedro II usou o controle das importa\u00e7\u00f5es para desenvolver produtos made in Brazil.<\/p>\n<p>Foi o mesmo recurso que industrializou o pais nos anos 40 do s\u00e9culo 20 e que neste s\u00e9culo construiu integra\u00e7\u00e3o competitiva da globaliza\u00e7\u00e3o. Neste \u00faltimo, incorporou mais de 30 milh\u00f5es de pessoas ao consumo. Tornou-se menos injusto, ser excludente passou a ser como se fosse um an\u00e1tema maldito. Independente do seu alcance, a verdade \u00e9 uma s\u00f3: com ou sem facilidades de acesso, o mercado fez do Brasil uma das economias mais atraentes do planeta.<\/p>\n<blockquote><p>O mercado sempre foi o trunfo do Brasil. Do Imp\u00e9rio \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o recorreu a ele para crescer e se tornar atraente aos olhos dos investidores internacionais<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas os n\u00fameros e as peculiaridades do mercado servem apenas para desenhar a moldura e pintar o retrato do pais que portugueses e espanh\u00f3is, em especial, est\u00e3o no caminho m\u00e1gico da redescoberta. Nesse caminham n\u00e3o devem apenas seguir a lupa dos estudos de mercado, mas tamb\u00e9m \u2013e principalmente\u2013 a voz do cora\u00e7\u00e3o. Porque esse \u00e9 o caminho dos tempos modernos, misturar Lorca, Fernando Pessoa e, por exemplo, Caetano Veloso. Todos falam a l\u00edngua de um pais que acorda, n\u00e3o perde o modo terno e carinhoso de ser, mas se movimenta para exibir mais e melhores empresas. Assim, o caminhante n\u00e3o tem caminho. Abre caminho ao andar.<\/p>\n<p><strong>A TERCEIRA ONDA<\/strong><\/p>\n<p>Os portugu\u00eas e espanh\u00f3is est\u00e3o voltando. Ou melhor, os portugueses est\u00e3o voltando e o espanh\u00f3is est\u00e3o chegando. Ao contr\u00e1rio da Am\u00e9rica do Sul, a coloniza\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s foi portuguesa, n\u00e3o hisp\u00e2nica. A vida dos espanh\u00f3is no Brasil foi uma linha reta no decorrer do s\u00e9culo 20, sobretudo nos 60 anos iniciais quando os imigrantes foram trabalhar, em sua maioria, nas fazendas de caf\u00e9 em S\u00e3o Paulo e tamb\u00e9m se dedicaram ao com\u00e9rcio. Essa foi a primeira onda.<\/p>\n<p>A segunda onda ganhou contornos mais efetivos na forma do grande capital. Investiu-se maci\u00e7amente em bancos e telefonia. Isto foi bem recentemente, a partir de 2005. Inclui as opera\u00e7\u00f5es de compra do Banco do Estado de S\u00e3o Paulo (Banespa) pelo Santander e da Vivo pela Telefonica. A terceira onda sai da linha reta e vai caminhar nas curvas. O movimento tem suas ra\u00edzes na crise europeia de 2008. A julgar pelos levantamentos da C\u00e2mara Oficial Espanhola de Com\u00e9rcio os investimentos ir\u00e3o desafiar a gravidade at\u00e9 2015, isto \u00e9, nos pr\u00f3ximos dois anos: R$ 44 bilh\u00f5es. \u00c9 dinheiro grande para investir em im\u00f3veis, software, transporte e infraestrutura.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, digamos assim, foi uma empreitada heroica. A busca de uma terra estranha, a determina\u00e7\u00e3o de vencer, o esp\u00edrito do desbravador que fez da Coroa Espanhola a senhora do Novo Mundo. Em 12 de outubro de 1492 chegava Colombo. Pensava estar na \u00c1sia, mas estava na Am\u00e9rica. Venceu o acaso, venceu a coragem. Mais do que o ouro das Am\u00e9ricas, como assinala Carlos Fuentes, Colombo levou para a Espanha a vis\u00e3o de \u201cuma nova Idade do Ouro\u201d, \u201ca terra da Utopia\u201d ((FUENTES, Carlos, The burried mirror: reflection on Spain and the New World, New York: Houghton Mifflin, 1992, p. 8.)). Foi exatamente o que vieram buscar os imigrantes do s\u00e9culo 20. A seguir, foi tudo mais planejado, menos ut\u00f3pico e mais concreto.<\/p>\n<blockquote><p>Portugueses e espanh\u00f3is chegaram em levas sucessivas. Agora, investem grandes capitais, inspirados na crise europeia de 2008 com vis\u00e3o menos ut\u00f3picas, mais concreta<\/p><\/blockquote>\n<p>Os portugueses, por sua vez, j\u00e1 conheciam a terra. Foram seus descobridores e colonizadores. S\u00e3o os ancestrais, a mem\u00f3ria. Tamb\u00e9m aqui chegaram em ondas, mas em grandes ondas. De sa\u00edda, o grande per\u00edodo que se estende da coloniza\u00e7\u00e3o ao imp\u00e9rio. Depois, com as migra\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX. Agora, os maci\u00e7os investimentos como \u00e9 o caso dos hot\u00e9is que respondem por nomes sonoros \u2013 Vila Gal\u00e9, Pestana, Dom Pedro, com foco particular na Copa do Mundo de 2014. O resultado \u00e9 que Portugal se tornou no s\u00e9timo pais que mais investe no Brasil. E nos \u00faltimos anos os investimentos triplicaram. Os espanh\u00f3is, nessa corrida, est\u00e3o na frente. Ocupam a segunda posi\u00e7\u00e3o entre os investidores diretos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/prometida-full.jpg\"><\/a>A surpresa, para espanh\u00f3is e portugu\u00eas, foi emergindo na medida em que o sentido oculto das coisas foi se tornando vis\u00edvel. O brasileiro, com um olho e o sorriso para a cordialidade, nunca desgrudou o outro olho da determina\u00e7\u00e3o de fazer e exigir. Sobretudo, exigir que foi se tornando a caracter\u00edstica essencial da nascente, mas j\u00e1 vigorosa democracia de massas.<\/p>\n<p><strong>DO SIL\u00caNCIO AO GRITO<\/strong><\/p>\n<p>Embora o investidor ib\u00e9rico conhe\u00e7a o Brasil, as novidades n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis \u00e0 olho nu. Teoricamente, o pais exibe m\u00faltiplas facetas, que se estendem da estrutura fabril diversificada e integrada, \u00e0 agricultura vasta, sobretudo de gr\u00e3os, somando-se aos servi\u00e7os m\u00faltiplos e sofisticados. \u00c9 um pa\u00eds que evoluiu da ind\u00fastria tradicional para a ind\u00fastria de ponta, que disputa acirradamente mercados externos, das Am\u00e9ricas a Europa, da China a \u00c1sia, e que se transforma em mercado de tal forma atraente, que \u00e9 imposs\u00edvel abrir m\u00e3o caso se alimente planos de globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabe-se, igualmente, a gente brasileira \u00e9 seduzida pelo novo, pelo moderno, pelo desafio. Trata-se de um pa\u00eds que impressiona pela ideia de liberdade e a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias. H\u00e1 um outro extremo que vem vicejando com a democracia. \u00c9 a capacidade de romper o sil\u00eancio, gritar, de recorrer \u00e0 lei, de exigir que as empresas de comunique, e bem, que sejam profissionais naquilo que oferecem.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o sentido da transpar\u00eancia. Isto \u00e9 mais complexo do que se imagina porque exige pr\u00e1tica. Na verdade, exige-se investimentos em tudo que signifique atendimento ao p\u00fablico, assist\u00eancia t\u00e9cnica, di\u00e1logo. O Brasil caminha para ser um grande Estados Unidos. Se o cidad\u00e3o se sente insatisfeito, procura a empresa, se n\u00e3o for ouvido, bate \u00e0s portas da justi\u00e7a e esta vem caminhando mais r\u00e1pido. Se aperfei\u00e7oando.<\/p>\n<p>Para o empreendedor ib\u00e9rico, nessa terceira onda, \u00e9 realmente um imenso compromisso. Nenhum dos aspectos centrais da vida do brasileiro \u00e9 deixado de lado, independente de classe social. Para al\u00e9m das idealiza\u00e7\u00f5es, exig\u00eancias fazem parte da rotina do atendimento, da qualidade dos produtos, da efic\u00e1cia e pontualidade dos servi\u00e7os. O Pa\u00eds sabe ser din\u00e2mico e flex\u00edvel, livre e solid\u00e1rio, mas reclama, \u00e9 independente. Tem uma m\u00eddia forte e abrangente como porta-voz. \u00c9 preciso, por esses lados, trabalhar a comunica\u00e7\u00e3o e a gest\u00e3o como um carpinteiro. \u00c9 imprescind\u00edvel ser empreendedor e comunicador e saber fazer florir as ades\u00f5es do mercado. Eis o desafio: descobrir o mist\u00e9rio nas coisas aparentes, sentir o quanto o pais mudou com a liberdade. Sim, com a liberdade as coisas ganharam dimens\u00e3o real, ganham novos sentidos a cada dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pra esse sol, para esta escurid\u00e3o Aten\u00e7\u00e3o Tudo \u00e9 perigoso Tudo \u00e9 divino maravilhoso Caetano Veloso, Divino maravilhoso Quanto mais o empreendedor ib\u00e9rico planeja investir ou investe no Brasil, mais parece ganhar sentido um verso sem qualquer v\u00ednculo com neg\u00f3cios, de Fernando Pessoa: \u201cAmar \u00e9 a eterna inoc\u00eancia, e a inoc\u00eancia \u00e9 n\u00e3o pensar\u201d. 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