{"id":474244,"date":"2014-04-21T16:34:54","date_gmt":"2014-04-21T14:34:54","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/a-silenciosa-revolucao-energetica\/"},"modified":"2026-08-13T14:58:12","modified_gmt":"2026-08-13T12:58:12","slug":"a-silenciosa-revolucao-energetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/a-silenciosa-revolucao-energetica\/","title":{"rendered":"A silenciosa Revolu\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 de imprescind\u00edvel leitura o artigo (6\/9\/2013) da Funda\u00e7\u00e3o para a An\u00e1lise e Estudos Sociais (FAES), vinculada ao Partido Popular, intitulado \u201cImplicaciones geopol\u00edticas de la independencia energ\u00e9tica de los Estados Unidos\u201d. O trabalho, assinado por tr\u00eas especialistas como Pedro Mielgo, Presidente de <em>Nereo GreenCapital;<\/em> Florentino Portero, professor de hist\u00f3ria contempor\u00e2nea da UNED; e Gerardo del Caz Esteso, engenheiro industrial e especialista em pol\u00edtica energ\u00e9tica, salienta a grande novidade, quase imediata, no novo equil\u00edbrio geoestrat\u00e9gico: Os Estados Unidos, a grande pot\u00eancia junto com a China, deixar\u00e3o para tr\u00e1s sua depend\u00eancia energ\u00e9tica aproximadamente em 2020 e os ped\u00e1gios econ\u00f4micos e pol\u00edticos que isso comporta.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos s\u00e3o o segundo consumidor de energia do mundo (8% do seu PIB) com\u00a0um gasto energ\u00e9tico por habitante de 4 000 d\u00f3lares em 2010. No final da d\u00e9cada passada, esse pa\u00eds chegou a importar at\u00e9 60% de seu consumo interior. A partir de 2025, a grande pot\u00eancia estar\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de exportar mais combust\u00edveis f\u00f3sseis dos que importar\u00e1 e poder\u00e1 transformar-se num grande exportador de g\u00e1s. Segundo os autores deste estudo, h\u00e1 uma f\u00e9rrea vontade pol\u00edtica ap\u00f3s esta esp\u00e9cie de revolu\u00e7\u00e3o silenciosa, mas tamb\u00e9m h\u00e1 uma tecnol\u00f3gica: a fratura hidr\u00e1ulica (<em>fracking<\/em>), que consiste em injetar \u00e1gua e componentes qu\u00edmicos, a alt\u00edssima press\u00e3o, para romper as rochas que cont\u00eam abundantes reservas de g\u00e1s de xisto e, eventualmente, petr\u00f3leo. As autoridades norte-americanas e a pr\u00f3pria sociedade do pa\u00eds, ainda conscientes dos custos ambientais desta tecnologia extrativa, assumem-na para obter a autossufici\u00eancia energ\u00e9tica, que alterar\u00e1 a pol\u00edtica internacional com particular incid\u00eancia em \u00e1reas conflituosas do planeta, como o Oriente M\u00e9dio, cen\u00e1rio no s\u00e9culo passado e neste de enfrentamentos b\u00e9licos, amplos e localizados, nos quais o fator energ\u00e9tico foi uma vari\u00e1vel de extraordin\u00e1rio peso decis\u00f3rio. Os Estados Unidos j\u00e1 est\u00e3o reduzindo aceleradamente o consumo de petr\u00f3leo procedente desta regi\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>A sufici\u00eancia energ\u00e9tica dos Estados Unidos est\u00e1 prevista para 2020 e implicar\u00e1 uma mudan\u00e7a econ\u00f4mica e geopol\u00edtica radical que incidir\u00e1 na Europa.<\/p><\/blockquote>\n<p>A China se comportar\u00e1, consequentemente, como o principal consumidor-importador energ\u00e9tico e a Europa depender\u00e1 &#8211; exclu\u00edda a possibilidade de autossufici\u00eancia &#8211; dos Estados Unidos numa m\u00e9dia muito superior \u00e0 atual, o que lhe permitir\u00e1 tamb\u00e9m reduzir sua depend\u00eancia do Oriente M\u00e9dio de modo que a aut\u00eantica revolu\u00e7\u00e3o, segundo os autores do citado trabalho, \u201cse dar\u00e1 no hemisf\u00e9rio ocidental com a autossufici\u00eancia americana e a diversifica\u00e7\u00e3o de fontes de produ\u00e7\u00e3o que significar\u00e1 para a Europa\u201d. Os Estados Unidos, assim, dispor\u00e3o de um novo motor de crescimento econ\u00f4mico &#8211; n\u00e3o sem problemas &#8211; que levar\u00e1 a uma mudan\u00e7a de cen\u00e1rio mundial: ser\u00e3o o primeiro produtor de g\u00e1s do mundo; um dos maiores produtos de petr\u00f3leo e dispor\u00e3o de mais recursos econ\u00f4micos que outros pa\u00edses para abastecer-se nos mercados internacionais. N\u00e3o s\u00f3 isso: \u201cter\u00e3o a ind\u00fastria de extra\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada e inovadora de hidrocarbonetos com empresas competitivas e com tecnologias praticamente exclusivas\u201d. Os norte-americanos, al\u00e9m disso, continuam dispondo de amplas reservas de carv\u00e3o e apostando na energia nuclear e pelas renov\u00e1veis.<\/p>\n<blockquote><p>A t\u00e9cnica extrativa do<em> fracking<\/em> deu aos EUA nada menos que 600 000 empregos e 76 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ao PIB, de modo que os europeus n\u00e3o podem obviar esta nova realidade.<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o foi qualificada pelo prestigioso analista espanhol em quest\u00f5es internacionais, Dar\u00edo Valc\u00e1rcel (ABC de 12\/9\/2003), como o \u201cmomento transformador\u201d, enquanto outro analista &#8211; neste caso financeiro &#8211; Daniel Lacalle (El Confidencial.com) advogava num j\u00e1 c\u00e9lebre artigo por \u201c<em>Fracking s\u00ed, por favor<\/em>\u201d, aduzindo que a proibi\u00e7\u00e3o desta t\u00e9cnica extrativa seria um suic\u00eddio, porque implement\u00e1-la faria com que a Europa economizasse nada menos que 900 bilh\u00f5es em seu objetivo de reduzir importa\u00e7\u00f5es e emiss\u00f5es de CO2. N\u00e3o s\u00f3 isso: sucederia algo parecido com o acontecido nos EUA, onde se criaram 600 000 postos de trabalho e se contribuiu com 76 000 para o PIB. Segundo Lacalle &#8211; em vers\u00e3o n\u00e3o desmentida &#8211; \u201cna Espanha temos importantes reservas de g\u00e1s de xisto, concentradas em regi\u00f5es afetadas por um desemprego de cerca de 30%\u201d, e conclui com l\u00f3gica esmagadora de que o \u201ccusto da energia \u00e9 o principal\u201d. Uma das chaves da quest\u00e3o talvez consista na explica\u00e7\u00e3o &#8211; que junto com outras &#8211; oferecia o financista Marc Garrigasait (El Confidencial.com de 4\/12\/2013): \u201cos europeus s\u00e3o muito mais conservadores que os norte-americanos e, no caso do <em>fracking<\/em>, um cidad\u00e3o do Velho Continente, perante a d\u00favida de poss\u00edveis riscos ambientais, prefere n\u00e3o iniciar o processo. \u00c9 justamente o contr\u00e1rio nos Estados Unidos, onde dificilmente se d\u00e3o as costas a um projeto que seja economicamente rent\u00e1vel. Se, al\u00e9m de rent\u00e1vel para o setor privado, for estrat\u00e9gico para o pa\u00eds, ent\u00e3o desaparecer\u00e3o as d\u00favidas por completo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/02.jpg\"><\/a>Na Europa &#8211; afligida com um grav\u00edssimo desnorteamento energ\u00e9tico na composi\u00e7\u00e3o de seu mix, com altas retribui\u00e7\u00f5es \u00e0s renov\u00e1veis, \u00e0s quais se deu prioridade no acesso ao sistema e, consequentemente, com um encarecimento de sua tarifa, tanto dom\u00e9stica quanto industrial &#8211; os titubeios ante a indaga\u00e7\u00e3o de novas t\u00e9cnicas de extra\u00e7\u00e3o como o <em>fracking<\/em> s\u00e3o cont\u00ednuos. O Reino Unido ofereceu 64% de seu territ\u00f3rio (uma centena de licen\u00e7as) para empregar esta tecnologia e procurar g\u00e1s (El Pa\u00eds de 18\/12\/2013), enquanto na Espanha as comunidades aut\u00f4nomas se recusam a conceder autoriza\u00e7\u00f5es extrativas. Os pre\u00e7os da energia, no entanto, \u201caceleram o declive industrial da UE\u201d, como comentou com grande maestria Mariano Marzo, catedr\u00e1tico da Universidade de Barcelona em La Vanguardia de 17\/11\/2013, explicando como na Uni\u00e3o Europeia o g\u00e1s industrial \u00e9 tr\u00eas vezes mais caro do que nos EUA e a eletricidade, o dobro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o de que a Europa fez uma aposta cara e problem\u00e1tica pelas energias limpas est\u00e1 levando empresas e governo ao que o analista empresarial e financeiro do jornal El Pa\u00eds, Miguel \u00c1ngel Noceda, denominou \u201cel <em>fracking<\/em> de la discordia\u201d (8\/9\/2013), pois as consequ\u00eancias ambientais desta t\u00e9cnica come\u00e7am a mobilizar amplos coletivos. Na Espanha, n\u00e3o s\u00f3 na Catalunha, mas tamb\u00e9m em Cant\u00e1bria &#8211; regi\u00e3o em que supostamente poderia haver uma abund\u00e2ncia de g\u00e1s de xisto, da mesma forma que em Castela e Le\u00e3o e no Pa\u00eds Basco, apesar de n\u00e3o existirem ainda comprova\u00e7\u00f5es conclusivas &#8211; as discord\u00e2ncias com estas t\u00e9cnicas consideram-se muito altas devido ao seu impacto ambiental.<\/p>\n<blockquote><p>Apresenta-se um desafio com interesses agora contradit\u00f3rios: a extra\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica por <em>fracking<\/em> e a sustentabilidade ambiental do planeta. \u00c9 um grande desafio que os norte-americanos j\u00e1 resolveram.<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta \u00e9, portanto, a silenciosa revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica &#8211; n\u00e3o alcan\u00e7ou ainda debates de opini\u00e3o p\u00fablica majorit\u00e1rios &#8211; que incidir\u00e1 sobre os sistemas de extra\u00e7\u00e3o em pa\u00edses emergentes com grandes fontes de recursos energ\u00e9ticos f\u00f3sseis, que alterar\u00e1 o equil\u00edbrio geoestrat\u00e9gico planet\u00e1rio, que dividir\u00e1 ainda mais a hegemonia econ\u00f4mica mundial (EUA e China e, bem atr\u00e1s, a R\u00fassia) e que obrigar\u00e1 a Europa a repensar suas prioridades e o modo de p\u00f4-las em pr\u00e1ticas, especialmente sua pol\u00edtica no \u00e2mbito das renov\u00e1veis, da energia nuclear (a Alemanha deu uma virada enquanto a Fran\u00e7a continua sendo um pa\u00eds nuclearizado) e os mix energ\u00e9ticos dos pa\u00edses da Uni\u00e3o. Estamos perante um desafio de grande porte em que se joga com interesses at\u00e9 agora contradit\u00f3rios: a obten\u00e7\u00e3o de energia e a sustentabilidade ambiental do mundo. \u00c9 um grande desafio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 de imprescind\u00edvel leitura o artigo (6\/9\/2013) da Funda\u00e7\u00e3o para a An\u00e1lise e Estudos Sociais (FAES), vinculada ao Partido Popular, intitulado \u201cImplicaciones geopol\u00edticas de la independencia energ\u00e9tica de los Estados Unidos\u201d. 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