{"id":474299,"date":"2014-07-11T10:24:00","date_gmt":"2014-07-11T08:24:00","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/a-revolucao-pendente-em-questoes-diplomaticas\/"},"modified":"2026-08-13T14:56:37","modified_gmt":"2026-08-13T12:56:37","slug":"a-revolucao-pendente-em-questoes-diplomaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/a-revolucao-pendente-em-questoes-diplomaticas\/","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o (pendente) em quest\u00f5es diplom\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/011_2.jpg\"><\/a>N o s\u00e9culo XXI, com algumas exce\u00e7\u00f5es, a a\u00e7\u00e3o externa dos Estados se caracteriza por seu alto grau de transpar\u00eancia e previsibilidade. Os acordos s\u00e3o negociados de maneira privada, mas seu conte\u00fado \u00e9 conhecido e difundido em tempo real pelos pr\u00a0\u00f3prios atores. A interdepend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais um fator de paz, e sim uma s\u00f3lida vari\u00e1vel da realidade, determinante para o progresso e a seguran\u00e7a. Longe do c\u00ednico ditado do Sir Henry Wotton (quatro s\u00e9culos atr\u00e1s) de que &#8220;o diplomata \u00e9 um homem honesto que \u00e9 enviado para o exterior para mentir pelo seu pa\u00eds&#8221;, hoje, a a\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica \u00e9 realizada de forma transparente. A coopera\u00e7\u00e3o e a transpar\u00eancia dos objetivos pol\u00edticos s\u00e3o cruciais nas rela\u00e7\u00f5es internacionais da maioria dos Estados, em um ambiente global muito mudado, em processo de mudan\u00e7a e vol\u00e1til.<\/p>\n<p>Mas a diplomacia continua vertebrada, em geral, com velhos padr\u00f5es e estruturas, e \u00e9 incapaz, por exemplo, de tornar hierarquia e colabora\u00e7\u00e3o a\u00e7\u00f5es compat\u00edveis. Embora tenha havido melhorias substanciais, os processos de adapta\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o foram inerciais e, em grande medida, superficiais, diante das profundas mudan\u00e7as no cen\u00e1rio mundial em que a diplomacia atua.<\/p>\n<p>Em um mundo cada vez mais complexo, apolar no \u00e2mbito pol\u00edtico e multipolar no \u00e2mbito econ\u00f4mico, a globaliza\u00e7\u00e3o e o acesso generalizado aos meios de comunica\u00e7\u00e3o para se posicionar com rela\u00e7\u00e3o a ela alteraram os par\u00e2metros em que tradicionalmente se assentava o poder, a pol\u00edtica e, tamb\u00e9m, a pr\u00e1tica das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Hoje, a IED das empresas espanholas equivale a 40% do PIB do nosso pa\u00eds, 87 das 150 maiores economias do mundo s\u00e3o multinacionais e apenas 67 s\u00e3o Estados. Neste<em> planeta na rede<\/em> do s\u00e9culo XXI, o Facebook e o Twitter ocupariam o segundo e o quarto lugar, respectivamente, entre os <em>territ\u00f3rios<\/em> mais povoados, atr\u00e1s da China e da \u00cdndia.<\/p>\n<blockquote><p>A empatia, que n\u00e3o \u00e9 ensinada nos institutos diplom\u00e1ticos, \u00e9 hoje um requisito indispens\u00e1vel para uma nova diplomacia, aberta, confi\u00e1vel e eficaz.<\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/011.jpg\"><\/a><\/p>\n<p>O impacto transformador das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e a comunica\u00e7\u00e3o afeta todas os \u00e2mbitos: o externo \u00e9 interno, o local \u00e9 global, e o global \u00e9 pr\u00f3ximo. Tempo e dist\u00e2ncia entram em colapso, no\u00e7\u00f5es como democracia e participa\u00e7\u00e3o se entrela\u00e7am com as no\u00e7\u00f5es de cidadania e transpar\u00eancia. A informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais um privil\u00e9gio do poder, e vivemos um claro processo de desintermedia\u00e7\u00e3o, no qual os filtros entre o poder pol\u00edtico e os cidad\u00e3os desaparecem ou deixam de existir. O ciclo de a\u00e7\u00e3o do <em>cidad\u00e3o na rede<\/em> n\u00e3o \u00e9 de quatro anos; pois age, opina e exige respostas em um fluxo constante e ininterrupto.<\/p>\n<p>Embora crises como a da Ucr\u00e2nia e do Mar da China revivam a geopol\u00edtica do s\u00e9culo passado, novos desafios e amea\u00e7as ganham mais import\u00e2ncia no cen\u00e1rio mundial: as cat\u00e1strofes naturais; a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, que as torna mais intensas e frequentes; a transmiss\u00e3o de doen\u00e7as; os tr\u00e1ficos ilegais; as assimetrias no bem-estar e no poder econ\u00f4mico; os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e seus derivados, tais como o cibercrime, o ciberterrorismo e as viola\u00e7\u00f5es da nossa privacidade. S\u00e3o riscos que desconhecem fronteiras e diante dos quais a globaliza\u00e7\u00e3o e a interdepend\u00eancia nos tornam ainda mais vulner\u00e1veis. De acordo com Habermas, &#8220;<em>a globaliza\u00e7\u00e3o desses perigos reuniu toda a popula\u00e7\u00e3o mundial, a longo prazo e de forma objetiva, em uma comunidade involunt\u00e1ria de riscos constantes&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p>Agir em um cen\u00e1rio global conforme descrito acima, liderar, por\u00e9m compartilhar de forma cooperativa o espa\u00e7o da a\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica com outros atores n\u00e3o estatais, ou elaborar estrat\u00e9gias de Diplomacia P\u00fablica que seduzam outras sociedades fortalecendo a imagem e a reputa\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds, exige uma profunda transforma\u00e7\u00e3o nos processos de elabora\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas externas e seus instrumentos.<\/p>\n<blockquote><p>Uma transforma\u00e7\u00e3o real e abrangente da cultura e da pr\u00e1tica diplom\u00e1tica, que inclui forma\u00e7\u00e3o, planejamento estrat\u00e9gico, execu\u00e7\u00e3o cooperativa, e sua avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser adiada.<\/p><\/blockquote>\n<p>A a\u00e7\u00e3o externa e diplom\u00e1tica de um pa\u00eds \u00e9 a mais global das pol\u00edticas internas, e \u00e9 relevante tanto para os pr\u00f3prios cidad\u00e3os quanto para os de outros pa\u00edses com o qual se relaciona. O paradoxo \u00e9 que o sucesso da miss\u00e3o central da diplomacia, &#8220;gerir a diferen\u00e7a&#8221;, consiste precisamente em diluir essas diferen\u00e7as, em construir \u00e1reas de atra\u00e7\u00e3o e de coopera\u00e7\u00e3o, em interagir com as sociedades de outros pa\u00edses para que as posi\u00e7\u00f5es e as a\u00e7\u00f5es dos seus governos possam convergir com os nossos interesses e objetivos.<\/p>\n<p>A <em>revolu\u00e7\u00e3o nas quest\u00f5es diplom\u00e1ticas<\/em> exige um grande impulso pol\u00edtico, que, como indica o recente relat\u00f3rio do Real Instituto Elcano, \u00e9 preciso conectar o projeto interno com a a\u00e7\u00e3o\/pol\u00edtica externa, com profundidade estrat\u00e9gica, incluindo a flexibilidade e a capacidade de resposta. \u00c9 necess\u00e1rio que os pr\u00f3prios diplomatas e outras partes interessadas, empresas ou pessoas, sintam-se partes do ciclo da a\u00e7\u00e3o externa.<\/p>\n<p>O desafio transformador \u00e9, em suma, tornar essa nova diplomacia uma realidade eficaz, que, como define David Miliband, &#8220;\u00e9 ao mesmo tempo p\u00fablica e privada, tanto de massas quanto de elites, em tempo real e, ao mesmo tempo, deliberativa&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N o s\u00e9culo XXI, com algumas exce\u00e7\u00f5es, a a\u00e7\u00e3o externa dos Estados se caracteriza por seu alto grau de transpar\u00eancia e previsibilidade. 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