{"id":474699,"date":"2015-10-21T09:49:40","date_gmt":"2015-10-21T07:49:40","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/tempo-de-comecar-a-pensar\/"},"modified":"2026-08-13T14:24:18","modified_gmt":"2026-08-13T12:24:18","slug":"tempo-de-comecar-a-pensar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/tempo-de-comecar-a-pensar\/","title":{"rendered":"Tempo de come\u00e7ar a pensar"},"content":{"rendered":"<p>Os problemas s\u00e3o sempre um incentivo para encontrar solu\u00e7\u00f5es, mais em tempos de bonan\u00e7a. E tanto o Mercosul como a Uni\u00e3o Europeia atravessam dificuldades de v\u00e1rios tipos que podem ser aproveitadas para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a uma nova fase de integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como Kenneth Rogoff disse, no crescimento impera a perspectiva de &#8220;desta vez \u00e9 diferente&#8221;, onde o otimismo anula a prud\u00eancia e as autoridades ignoram as advert\u00eancias do final do ciclo. Com as dificuldades, come\u00e7a a fase criativa. Como o \u00a0Pr\u00eamio Nobel, Ernest Rutherford, disse: &#8220;Senhores, n\u00f3s ficamos sem dinheiro. \u00c9 hora de come\u00e7ar a pensar\u201d,\u00a0 seja sobre sair da crise no Velho Continente ou para evit\u00e1-la, aqui no Novo Mundo. Isto nos alerta para uma quest\u00e3o \u00f3bvia: para al\u00e9m das circunst\u00e2ncias existentes, aproveitar estas oportunidades exige uma lideran\u00e7a pol\u00edtica com uma clara vis\u00e3o estrat\u00e9gica de um lado e do outro do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>O Mercosul, uma das inova\u00e7\u00f5es institucionais regionais que trouxe a terceira onda de democratiza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, foi um dispositivo chave para alcan\u00e7ar o objetivo de pacifica\u00e7\u00e3o e desmilitariza\u00e7\u00e3o do Cone Sul. Isto resulta um tanto paradoxal, j\u00e1 que mesmo desde o nome, o Mercosul foi atribu\u00eddo a ambiciosos objetivos institucionais de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que n\u00e3o foram alcan\u00e7ados. N\u00e3o houve avan\u00e7os na produtividade do Mercosul, sendo hoje talvez o gargalo da sustentabilidade das economias dos pa\u00edses que o integram. Nem tampouco serviu para integrar cadeias de valor, nem formatar uma infraestrutura de linha para atender a estes objetivos do seu interior.<\/p>\n<p>Na realidade, e devo dizer com todas as letras, o crescimento vigoroso dos pa\u00edses do Mercosul n\u00e3o se deveu \u00e0 integra\u00e7\u00e3o regional, mas ao aumento internacional do pre\u00e7o e da demanda por <em>commodities<\/em> devido ao surgimento de gigantes como a China e a \u00cdndia nesse mercado, e o acoplamento das finan\u00e7as mundiais \u00e0 sua comercializa\u00e7\u00e3o. No entanto, a institucionaliza\u00e7\u00e3o do Mercosul serviu para proteger a atividade industrial subsidiada. No caso das empresas transnacionais automotivas, com terminais tanto no Brasil e Argentina, \u00e9 particularmente saliente, onde elas operam, conseguindo facilidades em um e em outro pa\u00eds, sendo escassas as atividades destinadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o para outros mercados.<\/p>\n<blockquote><p>O Mercosul, uma das inova\u00e7\u00f5es institucionais regionais que trouxe a terceira onda de democratiza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, foi um dispositivo chave para alcan\u00e7ar o objetivo de pacifica\u00e7\u00e3o e desmilitariza\u00e7\u00e3o do Cone Sul<\/p><\/blockquote>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia, por sua vez, possui uma consolidada institucionalidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica, que faz parecer raqu\u00edtica a institucionalidade do Mercosul. A cria\u00e7\u00e3o da Comunidade Europeia tem estado na base da continuidade e expans\u00e3o do desenvolvimento de seus pa\u00edses membros, refor\u00e7ando as do j\u00e1 avan\u00e7ados, como a Alemanha, Fran\u00e7a e Inglaterra e permitindo a decolagem de pa\u00edses com atrasos de desenvolvimento no sul da Europa.<\/p>\n<p>No entanto, toda a engenharia institucional pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica da Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o impediu a forma\u00e7\u00e3o de uma imensa bolha financeira e imobili\u00e1ria, que estourou em 2008 e que mergulhou a UE numa estagna\u00e7\u00e3o de crescimento. Os diferenciais de produtividade entre os pa\u00edses mais e menos avan\u00e7ados, escondidos pela din\u00e2mica financeira positiva na \u00e9poca do auge, voltaram \u00e0 tona ap\u00f3s a crise. A \u00e2ncora cambial significativa, que em seu momento de homogeneiza\u00e7\u00e3o beneficiou aos pa\u00edses menos avan\u00e7ados a tomar cr\u00e9dito durante o auge, se voltou contra eles na fase da crise, porque n\u00e3o puderam compensar a sua falta de produtividade com uma desvaloriza\u00e7\u00e3o, sendo incapazes de cumprir com seus compromissos.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o da atividade financeira a partir da tecnologia <em>real time<\/em> para suas opera\u00e7\u00f5es traz a contrapartida de uma enorme volatilidade e comportamentos de manada, que em poucos segundos transformam o que era uma tend\u00eancia expansiva em uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses do Mercosul sofreram na pr\u00f3pria carne e por anteced\u00eancia, especialmente \u00a0a Argentina, este tipo de crise, e o grande al\u00edvio e a relativa blindagem a novas crises foi a vigorosa expans\u00e3o de sua atividades comerciais atrav\u00e9s do <em>boom<\/em> exportador de suas economias. Embora n\u00e3o tenha ca\u00eddo a demanda por <em>commodities<\/em>, o fez por seu pre\u00e7o, inflacionado pelo componente da especula\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>Pelo menos para o momento, o crescimento dos pa\u00edses da regi\u00e3o por meio de exporta\u00e7\u00e3o de <em>commodities<\/em> parece ter atingido o pico, e este amortecimento obriga a buscar novas fontes para alcan\u00e7ar um desenvolvimento mais prolongado, e limitado apenas \u00e0s zonas de grandes cidades dos pa\u00edses do Mercosul.<\/p>\n<p>Como diz o ditado, &#8220;dos labirintos se saem por cima&#8221;, a assinatura de um acordo de livre com\u00e9rcio entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia pode ser uma oportunidade para criar uma nova institucionalidade em ambas as institui\u00e7\u00f5es regionais e entre elas. Uma nova dimens\u00e3o institucional que refine o poder do lobby das coaliz\u00f5es de interesses \u00e0 ca\u00e7a de subs\u00eddios que prejudicam o aumento de produtividade, \u00a0inova\u00e7\u00e3o e, em \u00faltima an\u00e1lise, de desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>H\u00e1 m\u00faltiplas varia\u00e7\u00f5es que podem ter um acordo deste tipo. Pode-se at\u00e9 mesmo permitir zonas de livre com\u00e9rcio sequencialmente, territorialmente falando, \u00a0ou por produtos e atividades, \u201cacoplando-se\u201d depois outras \u00e1reas e outros bens. Tamb\u00e9m \u00e9 fundamental que o Acordo fomente o encadeamento de atividades produtivas e incentive a diversidade produtiva, n\u00e3o limitando-se ao que concerne ao Mercosul de <em>commodities<\/em>, mas sua ind\u00fastria e tamb\u00e9m o setor de servi\u00e7os, que tanto pode crescer. Como zona de interesse natural para a Europa, deve-se apostar no com\u00e9rcio e no \u00a0investimento para gerar uma infraestrutura de comunica\u00e7\u00e3o e energia no Cone Sul \u2013 que tem ficado para tr\u00e1s em compara\u00e7\u00e3o ao crescimento experimentado na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Na verdade, o mundo n\u00e3o \u00e9 o mesmo de quando se pensou a Uni\u00e3o Europeia e o Mercosul. O despertar econ\u00f4mico da China e sua agressiva pol\u00edtica de expans\u00e3o comercial \u00e9 um elemento dinamizador para a economia mundial, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que para estar em condi\u00e7\u00f5es equitativas nas negocia\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas com este gigante, h\u00e1 poucos pa\u00edses no mundo com suficiente tamanho para um acordo bilateral.<\/p>\n<blockquote><p>Como diz o ditado, &#8220;dos labirintos se saem por cima&#8221;, a assinatura de um acordo de livre com\u00e9rcio entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia pode ser uma oportunidade para criar uma nova institucionalidade<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Para pa\u00edses como a Argentina, o Mercosul \u00e9 necess\u00e1rio para uma negocia\u00e7\u00e3o bem sucedida com a Uni\u00e3o Europeia, onde o interesse regional deve ser imposto a certos agentes com uma inusitada capacidade de <em>lobby<\/em> e bloqueio. Do mesmo modo, um Acordo entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia permitiria uma melhor base para a negocia\u00e7\u00e3o de Acordos com a China e um revigorado Estados Unidos. Tamb\u00e9m estabeleceria novas bases para uma ampla integra\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses latino-americanos pertencentes \u00e0 Alian\u00e7a do Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Obviamente, \u00e9 necess\u00e1rio esperar os per\u00edodos eleitorais, que terminar\u00e3o, independentes daqueles que sair\u00e3o vitoriosos, o ciclo pol\u00edtico do neopopulismo aut\u00e1rquico \u2013 cuja sustenta\u00e7\u00e3o, baseada na crise pol\u00edtica e no <em>boom<\/em> dos <em>commodities<\/em>, j\u00e1 foi transcendido. As lideran\u00e7as moderadas na Am\u00e9rica Latina\u00a0 e as necessidades de financiamento externo inauguraram uma fase em que as quest\u00f5es que anteriormente ficavam travadas ou nem sequer podiam ser mencionadas, passar\u00e3o a ser o objeto de discuss\u00e3o cotidiana.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>N\u00e3o ser\u00e1 tarefa f\u00e1cil chegar a um bom porto nas negocia\u00e7\u00f5es, mas o novo rumo que a situa\u00e7\u00e3o imp\u00f5e, em ambas regi\u00f5es, \u00a0s\u00e3o prop\u00edcias para um novo reencontro e converg\u00eancias produtivas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os problemas s\u00e3o sempre um incentivo para encontrar solu\u00e7\u00f5es, mais em tempos de bonan\u00e7a. E tanto o Mercosul como a Uni\u00e3o Europeia atravessam dificuldades de v\u00e1rios tipos que podem ser aproveitadas para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a uma nova fase de integra\u00e7\u00e3o. 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