{"id":474985,"date":"2016-09-06T10:11:29","date_gmt":"2016-09-06T08:11:29","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/cuba-entre-o-passado-e-o-futuro\/"},"modified":"2026-08-13T14:09:27","modified_gmt":"2026-08-13T12:09:27","slug":"cuba-entre-o-passado-e-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/cuba-entre-o-passado-e-o-futuro\/","title":{"rendered":"Cuba, entre o passado e o futuro"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/02_22.jpg\"><\/a><\/p>\n<p>Quando o avi\u00e3o presidencial de Barack Obama aterrissou no aeroporto de Havana em 21 de mar\u00e7o, 2016, Cuba n\u00e3o era uma festa. A \u00faltima visita de um presidente americano \u00e0 ilha remonta a 1928, com John Calvin Coolidge. As autoridades cubanas estavam cientes de que Obama estava fazendo hist\u00f3ria \u2013 como Nixon, com sua abertura para a China, ou Reagan, com a queda do Muro de Berlim \u2013, mas n\u00e3o o regime de Castro, que ainda mantendo sua identidade pol\u00edtica, abria a porta, mais por necessidade do que por virtude, a um Estados Unidos cujo presidente desejava um marco decisivo que gravasse a fogo seu mandato nos livros da pol\u00edtica externa de seu pa\u00eds. De maneira que Ra\u00fal Castro e seu governo impuseram instru\u00e7\u00f5es exigentes: Obama seria friamente recebido e n\u00e3o se mostraria ades\u00e3o popular a sua pessoa nem seriam registradas grandes concentra\u00e7\u00f5es populares. E n\u00e3o houve, embora tenha sido poss\u00edvel captar um sentimento majorit\u00e1rio de conformidade e al\u00edvio com a nova pol\u00edtica do presidente americano. Obama acrescentava, assim, \u00e0 sua lista de sucessos internacionais \u2013 al\u00e9m da Confer\u00eancia de Paris sobre as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, a assinatura de Acordo de Livre Com\u00e9rcio com a \u00c1sia e o Acordo Nuclear com o Ir\u00e3 \u2013 a reabertura das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Cuba, o que implicava, entre outras consequ\u00eancias, a sa\u00edda do pa\u00eds caribenho da sinistra lista de Estados facilitadores do terrorismo.<\/p>\n<p>Alguns dias antes, a Uni\u00e3o Europeia deu o primeiro passo para promover a retomada ocidental ao regime de Castro. Em 11 de mar\u00e7o, em Bruxelas, levantou o di\u00e1logo pol\u00edtico com Cuba e restabeleceu as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas. Acabava ali a chamada \u201cposi\u00e7\u00e3o comum\u201d que adiava \u2013 o governo espanhol patrocinou essa atitude \u2013 um novo e aberto relacionamento com a ilha at\u00e9 que n\u00e3o se constatasse, de maneira irrefut\u00e1vel, que seu governo havia democratizado o regime e respeitasse os direitos humanos. A \u201cposi\u00e7\u00e3o comum\u201d, al\u00e9m disso, buscava \u2013 e conseguiu por quase duas d\u00e9cadas \u2013 evitar que os EUA fizessem uma pol\u00edtica aut\u00f4noma da Uni\u00e3o Europeia com e em Cuba. A UE dispunha de contundentes argumentos econ\u00f4micos, al\u00e9m da press\u00e3o dos EUA para superar a \u201cposi\u00e7\u00e3o comum\u201d: \u00e9 o primeiro investidor estrangeiro na ilha, o segundo maior parceiro comercial depois da Venezuela, e um ter\u00e7o dos turistas que visitam o pa\u00eds \u00e9 europeu. A Europa franqueava a Obama a implanta\u00e7\u00e3o de todas as medidas de boa vizinhan\u00e7a com Ra\u00fal Castro e permitia que sua visita ao pa\u00eds ocorresse em um clima geral de reabertura, embora midiatizada pela manuten\u00e7\u00e3o do embargo norte-americano desde 1960 e pela aus\u00eancia de transporte direto de passageiros e de mercadorias entre a ilha e o continente, assunto j\u00e1 canalizado de forma positiva tanto para o governo dos EUA como para Havana.<\/p>\n<blockquote><p>As autoridades cubanas estavam cientes de que Obama estava fazendo hist\u00f3ria \u2013 como Nixon, com sua abertura para a China, ou Reagan, com a queda do Muro de Berlim<\/p><\/blockquote>\n<p>Apesar da arrog\u00e2ncia das autoridades cubanas \u2013 que certamente mantiveram a ess\u00eancia do regime castrista contra o vento e a mar\u00e9 \u2013, a certeza do colapso econ\u00f4mico e, como consequ\u00eancia, de uma poss\u00edvel explos\u00e3o corroeu sua determina\u00e7\u00e3o. Cuba est\u00e1 fora do Fundo Monet\u00e1rio Internacional, do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, no mesmo n\u00edvel de isolamento registrado pela Rep\u00fablica Popular da Coreia. Sua situa\u00e7\u00e3o era \u2013 e \u00e9, at\u00e9 agora \u2013 de estrangulamento pol\u00edtico internacional. Ainda mais ap\u00f3s o curso dos acontecimentos de outros pa\u00edses latino-americanos \u2013 como \u00e9 o caso da Venezuela ou da Argentina \u2013 nos quais fica clara a recess\u00e3o do populismo governante. Na contram\u00e3o, Ra\u00fal Castro, com base no regime instaurado por seu irm\u00e3o, Fidel, manteve-se completamente fora destes movimentos hist\u00f3ricos. Com essas medidas, Cuba ficou entre um passado superado pela metade e um futuro a ser definido. Em outras palavras, se encontra em uma certa disrup\u00e7\u00e3o de sua trajet\u00f3ria em um presente inst\u00e1vel e provis\u00f3rio, que come\u00e7ar\u00e1 a se resolver no Congresso do Partido Comunista de Cuba, a ser realizado em 2018, e em cujo \u00e2mbito se formalizar\u00e1 a aposentadoria pol\u00edtica de Ra\u00fal Castro e a forma\u00e7\u00e3o de uma nova lideran\u00e7a de Miguel Diaz-Canel Berm\u00fadez, atual primeiro vice-presidente do pa\u00eds. Politicamente, tanto os EUA quanto a Uni\u00e3o Europeia optaram pelo que \u00e9 chamado de \u201csolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica\u201d, que consistiria em for\u00e7ar mudan\u00e7as pol\u00edticas estruturais \u2013 no sentido democr\u00e1tico \u2013 at\u00e9 os irm\u00e3os Castro, vencidos pela idade, serem substitu\u00eddos por uma nova classe dirigente geracionalmente apartada das vicissitudes hist\u00f3ricas que determinaram o regime comunista e a hostilidade m\u00fatua entre os EUA e Cuba. A \u201csolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica\u201d, no entanto, poderia ser plaus\u00edvel e at\u00e9 prov\u00e1vel, mas n\u00e3o de todo segura. Da\u00ed muitos observadores c\u00e9ticos considerarem que a ilha ser\u00e1 a \u201cChina do Caribe\u201d por muitas d\u00e9cadas, at\u00e9 mesmo indefinidamente, se, ao levantar o veto econ\u00f4mico, n\u00e3o se conseguir fazer com Cuba o mesmo que Havana se op\u00f5e no regime democr\u00e1tico. Obama e a pr\u00f3pria UE sabem bem que essa \u00e9 a grande insufici\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o em Cuba e esperam que a suaviza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica permeie a popula\u00e7\u00e3o, crie classes m\u00e9dias e profissionais, novos profissionais aut\u00f4nomos, mais fluxo tur\u00edstico e, como resultado, uma transi\u00e7\u00e3o natural em dire\u00e7\u00e3o a um sistema democr\u00e1tico. \u00c9 certo, por\u00e9m, que, apesar da frustra\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora cubana nos Estados Unidos, os Castro terminar\u00e3o seus dias na cama e em louvor na multid\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>A UE dispunha de contundentes argumentos econ\u00f4micos, al\u00e9m da press\u00e3o dos EUA para superar a \u201cposi\u00e7\u00e3o comum\u201d: \u00e9 o primeiro investidor estrangeiro na ilha, o segundo maior parceiro comercial depois da Venezuela, e um ter\u00e7o dos turistas que visitam o pa\u00eds \u00e9 europeu<\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/02_11.jpg\"><\/a><\/p>\n<p>A relev\u00e2ncia de Cuba \u00e9 geoestrat\u00e9gica e pol\u00edtica. Ambas s\u00e3o determinadas por sua proximidade f\u00edsica da costa da Fl\u00f3rida. A ilha \u00e9 como um enorme porta-avi\u00f5es no Mar do Caribe que, sem prejudicar os Estados Unidos, lembra a Washington que existem alguns problemas s\u00e9rios em seu tradicional <em>backyard<\/em>, que deixaram de ser para se tornar um espa\u00e7o estrat\u00e9gico, com um olhar como o de Jano: para os oceanos Pac\u00edfico e Atl\u00e2ntico. Se n\u00e3o fosse por essa substancial import\u00e2ncia geoestrat\u00e9gica, Cuba n\u00e3o teria sido o carro-chefe da pol\u00edtica externa de Obama. Sua demografia \u00e9 baixa (apenas 11 milh\u00f5es de habitantes), seu crescimento \u00e9 limitad\u00edssimo, e os sal\u00e1rios, al\u00e9m de escassos, est\u00e3o firmemente controlados pelo Estado. A d\u00edvida cubana alcan\u00e7a 5% de seu PIB, as exporta\u00e7\u00f5es para a Alian\u00e7a Bolivariana para os Povos de Nossa Am\u00e9rica (Alba), uma alternativa \u00e0 \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas (Alca), sofrem muito, e a infraestrutura hoteleira \u2013 decisiva para o turismo, que seria a primeira ind\u00fastria nacional \u2013 requer um impulso decisivo, bem como outras infraestruturas (estradas, portos), a log\u00edstica, a energia, a ind\u00fastria agroalimentar e os servi\u00e7os em geral. H\u00e1 futuro, mas a revolu\u00e7\u00e3o castrista instalada formalmente em primeiro de janeiro de 1959, politicamente isolada e economicamente bloqueada, n\u00e3o conseguiu tirar a popula\u00e7\u00e3o cubana do subdesenvolvimento nem reintegrar as liberdades tomadas pelos ditadores que precederam Fidel Castro.<\/p>\n<blockquote><p>Os Estados Unidos, como a Uni\u00e3o Europeia, optaram pelo que se denomina a \u201csolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica\u201d, que consistiria em for\u00e7ar mudan\u00e7as pol\u00edticas estruturais \u2013 no sentido democr\u00e1tico \u2013 at\u00e9 os irm\u00e3os Castro, vencidos pela idade, serem substitu\u00eddos por uma nova classe dirigente geracionalmente apartada das vicissitudes hist\u00f3ricas que determinaram o regime comunista<\/p><\/blockquote>\n<p>Neste contexto, a Espanha ficou a meia dist\u00e2ncia: n\u00e3o foi dos primeiros pa\u00edses a colocar-se \u00e0 frente da abertura (como fez a Fran\u00e7a, por exemplo), mas j\u00e1 em maio 2016, os ministros de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento viajaram a Havana e, recebidos por Ra\u00fal Castro, estabeleceram um marco de relacionamento econ\u00f4mico favor\u00e1vel para Cuba e interessante para as empresas espanholas de hotelaria e infraestrutura (40% dos leitos de hot\u00e9is na ilha s\u00e3o ocupados por empresas espanholas). Em um futuro pr\u00f3ximo, ser\u00e1 necess\u00e1ria uma visita do rei e do presidente do governo espanhol para consagrar uma nova etapa de colabora\u00e7\u00e3o que ajude a exercer, com a ajuda de outros pa\u00edses, uma for\u00e7a de tra\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica de Cuba, n\u00e3o apenas em dire\u00e7\u00e3o ao bem-estar econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m rumo \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Consentir que estabele\u00e7a um sistema capitalista, no \u00e2mbito econ\u00f4mico, e autorit\u00e1rio p\u00f3s-comunista do Caribe, a poucos passos dos Estados Unidos e com o panorama de instabilidade da Am\u00e9rica Latina, possibilidade muito real agora, introduz elementos de preocupa\u00e7\u00e3o e deixa um gosto amargo \u2013 do ponto de vista democr\u00e1tico \u2013 sobre o alcance e as consequ\u00eancias da opera\u00e7\u00e3o de reformula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com Cuba, cujo passado est\u00e1 sendo superado, mas cujo futuro n\u00e3o termina de desapegar em um presente repleto de incertezas e medos. O objetivo seria coroar uma grande iniciativa hist\u00f3rica: ajudar Cuba no caminho de uma economia de mercado devidamente corrigida, incorporando maiores liberdades, que a insira, definitivamente, na comunidade internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o avi\u00e3o presidencial de Barack Obama aterrissou no aeroporto de Havana em 21 de mar\u00e7o, 2016, Cuba n\u00e3o era uma festa. A \u00faltima visita de um presidente americano \u00e0 ilha remonta a 1928, com John Calvin Coolidge. 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