{"id":475054,"date":"2016-12-12T19:24:31","date_gmt":"2016-12-12T18:24:31","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/brexit-dez-conclusoes-e-seu-impacto-diante-de-um-salto-para-o-desconhecido\/"},"modified":"2026-08-13T13:54:56","modified_gmt":"2026-08-13T11:54:56","slug":"brexit-dez-conclusoes-e-seu-impacto-diante-de-um-salto-para-o-desconhecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/brexit-dez-conclusoes-e-seu-impacto-diante-de-um-salto-para-o-desconhecido\/","title":{"rendered":"Brexit: dez conclus\u00f5es e seu impacto diante de um salto para o desconhecido"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Brexit-01.jpg\"><\/a><\/p>\n<p>Desde que no \u00faltimo 23 de junho se deu o referendo no Reino Unido sobre sua continuidade como membro da Uni\u00e3o Europeia (UE), transcorreu j\u00e1 tempo suficiente para se poderem extrair algumas conclus\u00f5es do seu resultado.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 que a decis\u00e3o de abandonar a Uni\u00e3o Europeia por parte de um de seus \u201cgrandes\u201d estados membros n\u00e3o tem precedente algum. Portanto, as negocia\u00e7\u00f5es de desconex\u00e3o, em certa medida de div\u00f3rcio, devem ser levadas a cabo com todas as garantias necess\u00e1rias para n\u00e3o se acrescentar mais incerteza ao j\u00e1 incerto, por si mesmo, panorama atual da integra\u00e7\u00e3o da Europa. A Uni\u00e3o Europeia, precisamente, deve contribuir para gerar estabilidade e confian\u00e7a dentro e fora de suas fronteiras e, neste sentido, tanto o resultado do referendo como o que est\u00e1 ocorrendo at\u00e9 agora n\u00e3o induzem a isso.<\/p>\n<p>A segunda, como disseram tanto o presidente do Conselho Europeu como o da Comiss\u00e3o Europeia, assim como os l\u00edderes dos pa\u00edses mais significativos da UE, sem notifica\u00e7\u00e3o formal por parte do Reino Unido n\u00e3o haver\u00e1 negocia\u00e7\u00e3o alguma, inclu\u00eddas reuni\u00f5es de car\u00e1ter explorat\u00f3rio.<\/p>\n<blockquote><p>Isto \u00e9 fundamental, j\u00e1 que algo t\u00e3o transcendental deve abordar-se respeitando escrupulosamente o estabelecido no art. 50 do Tratado da Uni\u00e3o Europeia (TUE), o qual estabelece que a primeira coisa que o estado membro que decide retirar-se tem de fazer \u00e9 \u201cnotificar sua inten\u00e7\u00e3o ao Conselho Europeu\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito legislativo leva-nos a uma terceira conclus\u00e3o, j\u00e1 que produzir\u00e1 uma desagrega\u00e7\u00e3o de tal dimens\u00e3o, ap\u00f3s 43 anos de incorpora\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00e3o europeia ao ordenamento jur\u00eddico do Reino Unido, que n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil, em princ\u00edpio, abord\u00e1-la com garantia de \u00eaxito no intervalo dos dois anos inicialmente previstos pelo citado art. 50.<\/p>\n<p>A quarta conclus\u00e3o \u00e9 de car\u00e1ter econ\u00f4mico, j\u00e1 que se deve ter presente que a Uni\u00e3o Europeia \u00e9 o parceiro comercial mais importante do Reino Unido. 44% das exporta\u00e7\u00f5es brit\u00e2nicas t\u00eam como destino a Uni\u00e3o, representando o Mercado \u00danico Europeu um espa\u00e7o econ\u00f4mico e comercial de primeira ordem para a atividade das empresas brit\u00e2nicas. Por conseguinte, abandonar a UE afetar\u00e1 muito significativamente as empresas implantadas em territ\u00f3rio brit\u00e2nico, em geral de todos os setores de atividade e, muito em particular, as do setor financeiro pela relev\u00e2ncia da City em Londres. N\u00e3o \u00e9 conceb\u00edvel acordo algum entre o Reino Unido e a UE que se beneficie do acesso ao mercado interno europeu e exclua a obriga\u00e7\u00e3o de respeitar a liberdade de circula\u00e7\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>Una quinta conclus\u00e3o refere-se a que os acordos subscritos pela Uni\u00e3o Europeia, que regulam as rela\u00e7\u00f5es comerciais e de investimento de seus estados membros com terceiros pa\u00edses ou grupos de terceiros pa\u00edses, deixar\u00e3o de se aplicar ao Reino Unido, afetando, por tanto, claramente a sua capacidade produtiva e comercial.<\/p>\n<p>A sa\u00edda da UE, como sexta conclus\u00e3o, ter\u00e1 um claro impacto para o Reino Unido quanto \u00e0 estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a e, particularmente, \u00e0 a\u00e7\u00e3o contra o terrorismo e ao crime organizado, j\u00e1 que perder\u00e1 todas as medidas adotadas em mat\u00e9ria de justi\u00e7a e assuntos internos, inclusive dever\u00e1 abandonar a Europol.<\/p>\n<p>A retirada da UE oferece uma s\u00e9tima conclus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 delicada quest\u00e3o da coes\u00e3o interna territorial do Reino Unido. Sobretudo com a Esc\u00f3cia, que h\u00e1 menos de dois anos celebrou um referendo sobre sua independ\u00eancia, em cujo resultado influiu decisivamente a condi\u00e7\u00e3o de estado membro da UE do Reino Unido. Por outro lado, a Irlanda do Norte se encontrar\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o complicada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Irlanda, que continuar\u00e1 sendo membro da UE e, portanto, ter\u00e1 de impor controles na fronteira com a parte n\u00f3rdica do territ\u00f3rio insular. Igualmente, Gibraltar sofrer\u00e1 uma clara mudan\u00e7a como consequ\u00eancia de o Reino Unido deixar de ser membro da UE, j\u00e1 que voltar\u00e1 a ter uma situa\u00e7\u00e3o similar \u00e0 existente antes de a Espanha se tornar estado membro da UE e, por conseguinte, seus residentes perder\u00e3o os privil\u00e9gios de se locomover e se estabelecer na Espanha. A coes\u00e3o intergeracional, ap\u00f3s os resultados muito d\u00edspares do referendo entre cidad\u00e3os jovens e os de mais idade, tamb\u00e9m se ver\u00e1 afetada.<\/p>\n<blockquote><p>Com a sa\u00edda do Reino Unido, os cidad\u00e3os brit\u00e2nicos n\u00e3o ser\u00e3o mais nacionais de um estado membro. Portanto, nona conclus\u00e3o, deixar\u00e3o de ser cidad\u00e3os da Uni\u00e3o e os origin\u00e1rios dos outros 27 membros da UE deixar\u00e3o de s\u00ea-lo no Reino Unido, j\u00e1 que este ser\u00e1 um terceiro pa\u00eds.<\/p><\/blockquote>\n<p>Portanto, perder\u00e3o os benef\u00edcios associados \u00e0 cidadania europeia tais como o direito de viver, trabalhar e ter propriedades nos estados membros da UE; aposentar-se para viver em outro estado membro diferente do seu de origem; receber atendimento hospitalar, usando o Cart\u00e3o Europeu de Seguran\u00e7a de Doen\u00e7a conforme o Regulamento Europeu para a Coordena\u00e7\u00e3o dos Sistemas de Seguran\u00e7a Social; votar nas elei\u00e7\u00f5es locais de outros estados membros, etc.<\/p>\n<p>Ao ativar o artigo 50 do Tratado da Uni\u00e3o, em princ\u00edpio na primavera de 2017 e, portanto, come\u00e7ar a negociar o acordo de retirada, o Reino Unido ter\u00e1 iniciado a contagem regressiva para a desconex\u00e3o. A d\u00e9cima conclus\u00e3o \u00e9 a perda de sua capacidade de influ\u00eancia na Uni\u00e3o Europeia. Em sua condi\u00e7\u00e3o de membro em retirada, sua credibilidade tamb\u00e9m se ver\u00e1 muito diminu\u00edda.<\/p>\n<p>Neste salto para o desconhecido, a Uni\u00e3o Europeia deve ter a clarivid\u00eancia suficiente para reafirmar os princ\u00edpios e valores que t\u00eam permitido aos europeus desfrutar um modelo de conviv\u00eancia sem compara\u00e7\u00e3o no mundo, explicando melhor o custo da \u201cn\u00e3o Europa\u201d, ou seja, o da desuni\u00e3o, num mundo cada vez mais globalizado.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente esse contexto de desuni\u00e3o como o que enfrenta a Uni\u00e3o Europeia o que faz com que os desafios sejam ainda maiores e mais exigentes. Para ningu\u00e9m \u00e9 um mist\u00e9rio que o Brexit tenha gerado fortes efeitos sociais, pol\u00edticos, econ\u00f4micos e financeiros que podem ter uma primeira, uma segunda e at\u00e9 uma terceira derivada em fun\u00e7\u00e3o dos fatos. Entretanto, existe algo que n\u00e3o devemos perder de vista neste cen\u00e1rio de profundas transforma\u00e7\u00f5es \u2013 salto para o desconhecido inclu\u00eddo \u2013 e \u00e9 entender e assumir a origem de um fato como este: os cidad\u00e3os deram-se conta de que podem incidir em seu futuro e est\u00e3o se juntando para isso. Algo que para a classe empresarial parecia muito distante alguns anos atr\u00e1s, mas que cada vez come\u00e7a a ser mais recorrente e palp\u00e1vel na figura do empoderamento cidad\u00e3o e da colabora\u00e7\u00e3o para a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Brexit-02.jpg\"><\/a>Esse empoderamento que sem sombra de d\u00favida registrou um impacto internacional e onde a Am\u00e9rica Latina \u00e9 uma fiel prova disso, com casos como o referendo para a paz na Col\u00f4mbia, que registrou uma acachapante derrota para quem apoiava o processo de di\u00e1logo entre o governo desse pa\u00eds e as FARC. Em uma aprova\u00e7\u00e3o que se dava por certa. E no caso do Chile, com um fato mais pol\u00edtico mas n\u00e3o menos significativo como foram as recentes elei\u00e7\u00f5es municipais nesse pa\u00eds, que se conclu\u00edram com um n\u00edvel hist\u00f3rico de absten\u00e7\u00e3o e que muitos c\u00edrculos leram como uma puni\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os \u00e0 classe pol\u00edtica e a uma s\u00e9rie de m\u00e1s pr\u00e1ticas em que a classe empresarial n\u00e3o esteve alheia, como foi uma s\u00e9rie de esc\u00e2ndalos de maior ou menor amplitude e que tiveram rela\u00e7\u00e3o com um financiamento irregular da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Como seja, podemos ver que as pessoas decidiram manifestar-se e fazer valer sua voz. Acertada ou n\u00e3o, mas \u00e9 sua voz. Como um rastro de p\u00f3lvora, s\u00e3o v\u00e1rios os movimentos que se foram conformando em fun\u00e7\u00e3o de um \u201cesp\u00edrito Brexit\u201d na regi\u00e3o e que inclusive viram seu nascimento antes do mesmo fen\u00f4meno que os originou.<\/p>\n<p>Deve-se ter claro que o que come\u00e7ou como algo isolado ou com caracter\u00edsticas \u201cquase ex\u00f3ticas\u201d para a Am\u00e9rica Latina se foi transformando em uma tend\u00eancia que chegou para ficar. Exemplos? Os enormes protestos registrados no Brasil desde 2013 at\u00e9 in\u00edcio deste ano, os que foram mudando desde uma recusa a aumentos de tarifas nos sistemas de transporte p\u00fablico no in\u00edcio a marchas que podiam convocar 3 milh\u00f5es de pessoas \u2013 consideradas as maiores desde o retorno \u00e0 democracia ao pa\u00eds \u2013 e que eram claramente contra o Partido dos Trabalhadores (T), derivando na sa\u00edda de Dilma Rousseff da presid\u00eancia. Tampouco se devem esquecer os enormes protestos que j\u00e1 come\u00e7aram a registrar-se no Chile em 2006 pelo sistema de educa\u00e7\u00e3o, o qual teve importantes momentos de picos em anos posteriores para dar passagem \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o de um movimento conhecido como \u201cNo + AFP\u201d, no qual cidad\u00e3os enjoados se re\u00fanem para protestar e exigir mudan\u00e7as em um sistema de aposentadoria liderado pelas administradoras de fundos de pens\u00f5es (AFPs), no fim das contas o vil\u00e3o deste assunto.<\/p>\n<p>Fazendo uma r\u00e1pida revis\u00e3o, vemos a Argentina, com enormes protestos e o fim do per\u00edodo de 12 anos de governos kirchneristas. O M\u00e9xico com grandes protestos com o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayontzinapa e a revela\u00e7\u00e3o de falhas importantes em desenvolvimento humano em certas \u00e1reas e setores desse pa\u00eds diante do sistem\u00e1tico sil\u00eancio das autoridades estatais e nacionais. A Venezuela, com um n\u00edvel importante de tens\u00e3o dado pela realiza\u00e7\u00e3o do referendo revocat\u00f3rio de seu atual mandat\u00e1rio, sem mencionar outros fatores anteriores que levaram a uma situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel e a um verdadeiro beco sem sa\u00edda. Todos os anteriores, bot\u00f5es de mostra da nova realidade que se instala em nossa regi\u00e3o e que at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s era algo totalmente alheio \u00e0 foto latino-americana.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 aconteceu com muitos, fatos regionais das envergaduras j\u00e1 assinaladas geram situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o acompanhadas de rea\u00e7\u00f5es fora de tempo e pouco conectadas com a realidade e que de uma ou outra forma foram envolvendo empresas e governos num estado de choque e paralisia do qual lhes est\u00e1 custando muito despertar.<\/p>\n<p>Obviamente, que situa\u00e7\u00f5es deste tipo cobrem excessiva viralidade e inusitada gravidade explica-se num clima como o atual, no qual<\/p>\n<blockquote><p>predominam uma profunda sensibilidade, um descontentamento crescente em amplas camadas da sociedade latino-americana<\/p><\/blockquote>\n<p>e uma crescente atividade dela, como podem ser os protestos j\u00e1 descritos e observados nestes \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>O fundamental na constru\u00e7\u00e3o de um novo trato e relato, num mundo de constantes mudan\u00e7as e transforma\u00e7\u00f5es, \u00e9 o novo desafio para os c\u00edrculos empresariais de ler corretamente o entorno, construir e gerir de maneira eficiente e eficaz sua reputa\u00e7\u00e3o. O anterior, como consequ\u00eancia da globaliza\u00e7\u00e3o, a explos\u00e3o dos meios informativos e socializa\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o junto com o avan\u00e7o das grandes economias emergentes, que acarretam, justamente, um empoderamento de uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o que at\u00e9 n\u00e3o muitos anos atr\u00e1s mal contava para a realidade de muitos pa\u00edses.<\/p>\n<p>E um ponto n\u00e3o menor em tudo isto \u00e9 a crise financeira global de 2007-2010, atribu\u00edda a esc\u00e2ndalos empresariais, cobi\u00e7as individuais e neglig\u00eancia dos reguladores. Isso afetou a percep\u00e7\u00e3o de boa parte da popula\u00e7\u00e3o sobre condutas empresariais pouco afortunadas, as que se viralizaram globalmente atrav\u00e9s de conte\u00fados massivos, como populares filmes sobre o tema do colapso de Wall Street e do desaparecimento de Lehman Brothers, entre outros. O anterior terminou por agu\u00e7ar um sentimento negativo para com uma classe empresarial indolente e despreocupada e sentou as bases de um esp\u00edrito Brexit que n\u00e3o perguntou a ningu\u00e9m quando podia entrar. E que n\u00e3o pretende abandonar a cena at\u00e9 n\u00e3o se sentir considerado nas decis\u00f5es que lhe competem. Mas com uma considera\u00e7\u00e3o real, n\u00e3o de uma maneira est\u00e9tica, mas sim \u00e9tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que no \u00faltimo 23 de junho se deu o referendo no Reino Unido sobre sua continuidade como membro da Uni\u00e3o Europeia (UE), transcorreu j\u00e1 tempo suficiente para se poderem extrair algumas conclus\u00f5es do seu resultado. 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