{"id":475104,"date":"2017-03-27T13:39:04","date_gmt":"2017-03-27T11:39:04","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/comunicacao-jornalismo-e-fact-checking\/"},"modified":"2017-03-27T13:39:04","modified_gmt":"2017-03-27T11:39:04","slug":"comunicacao-jornalismo-e-fact-checking","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/comunicacao-jornalismo-e-fact-checking\/","title":{"rendered":"Comunica\u00e7\u00e3o, jornalismo e `fact-checking\u00b4"},"content":{"rendered":"<p>Desde agosto de 2016, antes que os debates presidenciais avan\u00e7assem durante a campanha norte-americana, at\u00e9 a v\u00e9spera da jornada eleitoral, as plataformas de verifica\u00e7\u00e3o atualmente em uso \u2013 chamadas de <em>fact-checking <\/em>\u2013 contabilizaram at\u00e9 217 falsidades nos discursos e interven\u00e7\u00f5es dos candidatos, 79% delas atribu\u00eddas a Donald Trump e 21%, a Hilary Clinton. A Unidade de Dados da <em>Univision Noticias<\/em>, em Miami, descobriu, uma semana antes da elei\u00e7\u00e3o presidencial, que para cada mentira da candidata democrata, o republicano divulgou quatro. Estes dados s\u00e3o apresentados de maneira sistem\u00e1tica e completa pelo jornalista Borja Echevarr\u00eda, na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o (janeiro de 2017) da <em>Cadernos de Jornalistas<\/em>. Este profissional \u00e9, atualmente, o diretor editorial da <em>Univisi\u00f3n Noticias Digital<\/em>, com sede no estado da Fl\u00f3rida, e tornou-se uma refer\u00eancia no mundo da comunica\u00e7\u00e3o e do jornalismo ao desempenhar uma atividade relativamente nova, a de combater as <em>fakes-news<\/em>, as verdades alternativas e as mentiras, todos estes conceitos abarcados no guarda-chuva sem\u00e2ntico da p\u00f3s-verdade: o <em>fact-cheking<\/em>, que seria o ant\u00eddoto contra a palavra \u2013 melhor qualific\u00e1-la como conceito \u2013, considerada pelo Dicion\u00e1rio Oxford a mais nova e utilizada express\u00e3o durante o ano passado.<\/p>\n<blockquote><p>A Unidade de Dados da <em>Univision Noticias<\/em>, em Miami, descobriu, uma semana antes da elei\u00e7\u00e3o presidencial, que para cada mentira da candidata democrata, o republicano divulgou quatro.<\/p><\/blockquote>\n<p>A p\u00f3s-verdade n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de mentira, mas &#8220;<em>descreve uma situa\u00e7\u00e3o na qual, durante a cria\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, os fatos objetivos t\u00eam menos influ\u00eancia do que os apelos \u00e0s emo\u00e7\u00f5es e \u00e0s cren\u00e7as pessoais<\/em>&#8220;. A p\u00f3s-verdade consiste na relativiza\u00e7\u00e3o da verdade, na banaliza\u00e7\u00e3o da objetividade dos dados e na supremacia do discurso emocional. Tampouco \u00e9 um fen\u00f4meno novo. Ralph Keyes j\u00e1 o citava, em 2004, no livro <em>Dishonesty and Deception in Contemparary Life<\/em>, como relata Luis Meyer na revista <em>Ethic, <\/em>na edi\u00e7\u00e3o de fevereiro deste ano (<em>N\u00e3o a chame de p\u00f3s-verdade, chame de p\u00f3s-jornalismo<\/em>). Seu colega, Eric Alterman, a descreveu, definitivamente, como a &#8220;arma pol\u00edtica da desinforma\u00e7\u00e3o&#8221;. O mesmo autor cita Noam Chomsky que, referindo-se \u00e0 palavra p\u00f3s-verdade, elaborou uma c\u00e9lebre lista: <em>10 Estrat\u00e9gias de Manipula\u00e7\u00e3o<\/em>, entre as quais se incluem t\u00e9cnicas para suavizar emotivamente as mensagens, com o prop\u00f3sito de causar uma esp\u00e9cie de curto-circuito no senso cr\u00edtico e anal\u00edtico dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<blockquote><p>A p\u00f3s-verdade consiste na relativiza\u00e7\u00e3o da verdade, na banaliza\u00e7\u00e3o da objetividade dos dados e na supremacia do discurso emotivo.<\/p><\/blockquote>\n<p>A confus\u00e3o sobre a realidade, a gest\u00e3o de manobra conspirat\u00f3rias para incitar o receio ou a hostilidade de grupos sociais, a vitimiza\u00e7\u00e3o ou as mitomanias pol\u00edticas s\u00e3o instrumentos de persuas\u00e3o das massas que remontam \u00e0 antiguidade, mas que no s\u00e9culo XX causaram os piores desastres, sendo, dois deles, aut\u00eanticas falhas na hist\u00f3ria da humanidade: o nazismo e o estalinismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os Protocolos dos S\u00e1bios de Si\u00e3o<\/em>, uma f\u00e1bula contra o juda\u00edsmo, escrita durante o \u00faltimo per\u00edodo da R\u00fassia <em>czarista<\/em>, resultou em uma das alavancas mais fals\u00e1rias empregadas por Hitler para introduzir, no per\u00edodo entre guerras, o antissemitismo na Alemanha e em outros pa\u00edses europeus. Ainda estamos pagando por isso. Na realidade, todos os movimentos pol\u00edticos que refutam os dirigentes convencionais nas democracias liberais e representativas, lan\u00e7am m\u00e3o dos elementos mais sentimentais que racionais e n\u00e3o apenas se aproveitam do desconforto, mas contribuem decisivamente para cri\u00e1-lo e ampli\u00e1-lo. O populismo de hoje, e de sempre, maneja mais com as persuas\u00f5es emocionais do que com crit\u00e9rios de racionalidade e de veracidade. O rigor e o populismo s\u00e3o conceitos contradit\u00f3rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, houve um alinhamento de circunst\u00e2ncias que tem gerado uma preocupa\u00e7\u00e3o quase convulsiva: a verdade n\u00e3o tem \u00eaxito e as descri\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se ajustam a ela \u2013 ou mesmo que nem se aproximam \u2013 sim, vencem, e al\u00e9m disso, terminam impunes. Como afirma o escritor Adolfo Mu\u00f1oz (<em>El Pa\u00eds<\/em>, de 02 de fevereiro de 2017) &#8220;a mentira pol\u00edtica ganha porque tem as qualidades necess\u00e1rias para triunfar, convertendo-se no que Richard Dawkins chamou de \u201c<em>meme<\/em>&#8220;. O <em>meme<\/em> \u00e9 uma unidade de conhecimento viral, na vis\u00e3o deste autor, que se dispersa \u00e0 margem de seus atributos de veracidade. Vivemos no universo dos <em>memes <\/em>e necessitamos de crit\u00e9rios para distinguir o verdadeiro do falso, o seguro do prov\u00e1vel, o certo sobre o duvidoso. E nos fazemos perguntas cada vez mais angustiantes: seria o <em>Photoshop<\/em>, por exemplo, uma t\u00e9cnica da p\u00f3s-verdade? Seria a contextualiza\u00e7\u00e3o de um recurso falsificador? O insulto poderia ser considerado uma mera descri\u00e7\u00e3o? Os efeitos especiais no cinema ou as experi\u00eancias de realidade virtual, por exemplo, s\u00e3o um atentado \u00e0 integridade da verdade, tal como a temos entendido at\u00e9 agora?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o perguntas que v\u00eam \u00e0 mente. Porque as tend\u00eancias populistas exigem que o poder seja obtido como um fim em si mesmo, sem importar os m\u00e9todos. Os brit\u00e2nicos deixaram a Uni\u00e3o Europeia acreditando \u2013 ou aceitando como boas \u2013 as declara\u00e7\u00f5es falsas ou meramente prov\u00e1veis, e os norte-americanos deram cr\u00e9dito \u00e0s falsidades mais grosseiras, porque com elas \u2013 esta tese tamb\u00e9m \u00e9 mencionada por Luis Meyer \u2013, respondeu ao poder das classes dominantes, derrubando-as. Certamente, na pol\u00edtica, a mentira ou a meia-verdade sempre foram recursos manejados com desenvoltura, mas agora, a resposta ao <em>status quo<\/em> pol\u00edtico e econ\u00f4mico introduziu elementos sentimentais, emotivos, em suas falsas mensagens, enriquecendo-as de uma for\u00e7a arrasadora. O mestre destas novas t\u00e9cnicas \u00e9 o norte-americano Steve Bannon, atual diretor do portal de not\u00edcias <em>Breitbart News<\/em>, um porta-voz dos extremistas da <em>Alt-right<\/em>. Bannon \u00e9 o inspirador da ruptura do paradigma convencional que prevaleceu na pol\u00edtica norte-americana \u2013 ocidental \u2013 e que est\u00e1 construindo uma enorme bolha de tens\u00e3o e hostilidade, criando a energia que um pol\u00edtico como Trump necessita para tornar tudo imprevis\u00edvel e confundir a cultura p\u00fablica dos sistemas pol\u00edticos das democracias mais desenvolvidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A p\u00f3s-verdade n\u00e3o \u00e9 apenas uma pr\u00e1tica que se desenvolve no campo da pol\u00edtica. \u00c9 feita tamb\u00e9m, de forma perigosa e arbitr\u00e1ria, no \u00e2mbito da publicidade e no campo empresarial A comunica\u00e7\u00e3o de grandes empresas \u2013 especialmente dos setores estrat\u00e9gicos como o da energia e o financeiro \u2013 deve rever seus protocolos de atua\u00e7\u00e3o: sua comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve consistir apenas \u2013 qui\u00e7\u00e1, principalmente \u2013 em transmitir conhecimentos, mas em desarmar mentiras, vers\u00f5es alternativas, rumores e, em algumas ocasi\u00f5es, falsidades abertas. A pol\u00edtica e os neg\u00f3cios perderam \u2013 na realidade, toda a sociedade perdeu \u2013 um mecanismo de defesa diante da p\u00f3s-verdade: a intermedia\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica. Algumas reflex\u00f5es mais atentas a respeito disso foram elaboradas por Katharine Viner, e publicada no <em>The Guardian<\/em>, em 12 de julho de 2016, com o t\u00edtulo <em>&#8220;O que \u00e9 a verdade?<\/em> <em>Reflex\u00f5es sobre o estado do atual jornalismo<\/em>&#8220;. Esta ensa\u00edsta afirma que a transi\u00e7\u00e3o do papel para os meios digitais nunca foi apenas uma quest\u00e3o tecnol\u00f3gica. E explica: foi essencialmente uma quest\u00e3o da perda da deontologia profissional, da desist\u00eancia do relato da verdade, da aceita\u00e7\u00e3o da mentira e dos rumores no circuito informativo. A tecnologia, com o arrasamento da intermedia\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, desmoralizou o relato jornal\u00edstico, fulminando os atributos que asseguravam um papel social de controle e fidelidade da verdade.<\/p>\n<blockquote><p>A p\u00f3s-verdade n\u00e3o \u00e9 apenas uma pr\u00e1tica que se desenvolve no campo da pol\u00edtica. \u00c9 feita tamb\u00e9m, de forma perigosa e arbitr\u00e1ria, no \u00e2mbito da publicidade e no campo empresarial.<\/p><\/blockquote>\n<p>A nova comunica\u00e7\u00e3o e o novo jornalismo devem concentrar-se, de agora em diante, n\u00e3o tanto em contar \u2013 isto j\u00e1 o fazem os cidad\u00e3os, por conta pr\u00f3pria, por meio do enorme card\u00e1pio de tecnologias digitais \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o \u2013 mas em verificar, em realizar o <em>fact-checking <\/em>de maneira sistem\u00e1tica, por meio de muitas plataformas que j\u00e1 existem (dezenas nos Estados Unidos). Borja Echevarr\u00eda recorda que uma das mais recentes pesquisas da Gallup aponta para uma cifra surpreendente sobre os<em> mass media<\/em>: apenas 32% dos entrevistados mant\u00eam sua confian\u00e7a nestes. A \u00fanica maneira de conceber o jornalismo e a comunica\u00e7\u00e3o corporativa consiste em fazer uso da verifica\u00e7\u00e3o dos dados, das teses dos discursos e da proatividade informativa para detectar as falsidades e destru\u00ed-las, destituindo as inverdades de qualquer reputa\u00e7\u00e3o. Ou seja, o jornalismo, por um lado, e a comunica\u00e7\u00e3o deontol\u00f3gica, por outro, devem voltar a resgatar o relato veross\u00edmil, conter o sentimentalismo, apaziguar e moldar os piores instintos e proclamar a superioridade da intelig\u00eancia sobre a visceralidade. Este \u00e9 o <em>fact-checking<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde agosto de 2016, antes que os debates presidenciais avan\u00e7assem durante a campanha norte-americana, at\u00e9 a v\u00e9spera da jornada eleitoral, as plataformas de verifica\u00e7\u00e3o atualmente em uso \u2013 chamadas de fact-checking \u2013 contabilizaram at\u00e9 217 falsidades nos discursos e interven\u00e7\u00f5es dos candidatos, 79% delas atribu\u00eddas a Donald Trump e 21%, a Hilary Clinton. 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