{"id":475154,"date":"2017-03-27T18:10:36","date_gmt":"2017-03-27T16:10:36","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/os-perigos-da-indiferenca-a-verdade\/"},"modified":"2026-08-06T15:32:59","modified_gmt":"2026-08-06T13:32:59","slug":"os-perigos-da-indiferenca-a-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/os-perigos-da-indiferenca-a-verdade\/","title":{"rendered":"Os perigos da indiferen\u00e7a \u00e0 verdade"},"content":{"rendered":"<p>Apelos emocionais e que mobilizam cren\u00e7as pessoais s\u00e3o mais eficazes para conquistar a opini\u00e3o p\u00fablica do que fatos objetivos. Este \u00e9 o significado de <em>post-truth <\/em>(<strong>p\u00f3s-verdade<\/strong>), a palavra emblem\u00e1tica do ano de 2016, de acordo com o Dicion\u00e1rio Oxford.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 realmente novo nesta defini\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O enfoque sobre as pessoas assimilarem conte\u00fados a partir de um processo de memoriza\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o seletivas, de acordo com seu repert\u00f3rio de convic\u00e7\u00f5es, est\u00e1 presente nas teorias de comunica\u00e7\u00e3o que buscaram, no s\u00e9culo passado, desvendar os caminhos da persuas\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise demonstrou o poder dos aspectos subjetivos e inconscientes nas a\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos. Mal-entendidos tamb\u00e9m s\u00e3o frequentes na trajet\u00f3ria cient\u00edfica de teorias pol\u00edticas, econ\u00f4micas, sociais e seu confronto com a realidade social repleta de releituras e reinterpreta\u00e7\u00f5es das certezas produzidas pelo conhecimento objetivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica brasileira, h\u00e1 uma antol\u00f3gica frase, cuja autoria \u00e9 atribu\u00edda a v\u00e1rias raposas mineiras (Ant\u00f4nio Carlos de Andrade, Jos\u00e9 Maria Alkmin, Gustavo Capanema, Tancredo Neves) que diz: \u201c<em>em pol\u00edtica, o que importa \u00e9 a vers\u00e3o, n\u00e3o o fato<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja exatamente uma nova descoberta, o conceito de <strong>p\u00f3s-verdade<\/strong> foi revigorado a partir da explos\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es geradas ou reproduzidas na <em>web<\/em>. O fen\u00f4meno produz sinais de alerta inquietantes. Nas m\u00eddias sociais, a aus\u00eancia de uma inst\u00e2ncia para estabelece filtros, separar o joio do trigo e colocar em perspectiva vis\u00f5es distintas, cria um quadro prop\u00edcio para n\u00e3o acreditar em nada do que o outro diz, e se agarrar em sua pr\u00f3pria convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>O conceito de p\u00f3s-verdade foi revigorado a partir da explos\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es geradas ou reproduzidas na <em>web.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>As novas tecnologias conectam n\u00facleos familiares, amigos, grupos de discuss\u00f5es. Neste territ\u00f3rio \u2013 em que<em> Facebook<\/em> e <em>Whatsapp <\/em>s\u00e3o os principais vetores \u2013 descobrimos cren\u00e7as, pensamentos e valores que referenciam pessoas e comunidades, sejam pr\u00f3ximas ou distantes, inclusive parentes long\u00ednquos. Estabelecemos cumplicidade e <em>memes <\/em>que esbanjam humor e irrever\u00eancia. Mas surpresas e decep\u00e7\u00f5es se materializam tamb\u00e9m neste espa\u00e7o. Discuss\u00f5es acirradas e \u00e1cidas s\u00e3o corriqueiras. La\u00e7os s\u00e3o desfeitos. S\u00f3 mesmo os esp\u00edritos pacientes e imbu\u00eddos de avan\u00e7ado grau de toler\u00e2ncia conseguem se deliciar. O irrevers\u00edvel contexto da <strong>p\u00f3s-verdade <\/strong>atropela um espa\u00e7o que poderia favorecer a conviv\u00eancia e o di\u00e1logo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na era da <strong>p\u00f3s-verdade<\/strong>, pr\u00f3diga de acontecimentos marcantes como a sa\u00edda da Gr\u00e3-Bretanha da Uni\u00e3o Europeia e a disputada campanha eleitoral norte-americana, fica claro que guerrilheiros da \u201cverdade\u201d e guerrilheiros da \u201cmentira\u201d \u2013 ambos alternando posi\u00e7\u00f5es \u2013 prosperam em contextos altamente inflam\u00e1veis e radicalizados. A disputa entre aqueles que gritaram \u201c\u00e9 golpe\u201d e aqueles que gritaram \u201c\u00e9 constitucional\u201d, no Brasil, durante a queda de Dilma Rousseff, cristalizam a ideia de um mundo movido a paix\u00f5es e cren\u00e7as. Onde a verdade n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno remete \u00e0 pergunta de como o jornalismo, ou a imprensa, convive com os novos tempos, extremamente polarizados, al\u00e9m de caracterizados por audi\u00eancias fragmentadas e dispersas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio brasileiro pr\u00e9-<em>impeachment <\/em>da presidente Dilma Rousseff e a trajet\u00f3ria de Trump rumo ao cargo de presidente dos Estados Unidos \u2013 revelam realidades distintas nas quais o novelo controvertido da <strong>p\u00f3s-verdade<\/strong> envolveu fontes oficiais e a imprensa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Brasil, durante o processo de<em> impeachment<\/em> (fen\u00f4meno claramente recheado de <strong>verdades alternativas<\/strong>), as promessas de um futuro radiante, sobretudo na economia, alardeados pelos anti-dilmistas, foram endossadas com baixo grau de questionamento por significativa parte da m\u00eddia brasileira. A ent\u00e3o presidente pouco investiu nesta disputa de narrativas e suas rea\u00e7\u00f5es mais contundentes, no campo da comunica\u00e7\u00e3o, ocorreram somente no m\u00eas de mar\u00e7o de 2016, tr\u00eas meses ap\u00f3s o acolhimento do pedido de <em>impeachment<\/em> na C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se a ent\u00e3o presidente brasileira jamais colocou o dedo em riste em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 imprensa, postura oposta tem sido adotada pelo atual presidente norte-americano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos EUA, para sustentar sua narrativa, o candidato e hoje titular da Casa Branca disparou duras cr\u00edticas sobre o comportamento da imprensa. Trump, conhecido por disseminar cren\u00e7as e abordagens extremistas, utiliza amplamente as redes sociais, um ambiente onde a checagem tem crit\u00e9rios frouxos. E \u00e9 exatamente nas redes sociais que o presidente e seu n\u00facleo duro ecoam, aos quatro cantos, o que ele pr\u00f3prio dissemina como sua \u201cverdade\u201d: \u201ca imprensa \u00e9 mentirosa\u201d. As tens\u00f5es chegaram ao ponto de o pr\u00f3prio Trump declarar os jornalistas como as esp\u00e9cies mais desonestas do planeta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em ambos os casos, a disputa crucial \u00e9 quem tem poder para estabelecer a \u201cverdade\u201d numa era de <strong>(p\u00f3s) verdade<\/strong>. \u00c9 uma realidade na qual os emissores de not\u00edcias \u2013 na concep\u00e7\u00e3o de apurar, checar, ouvir diferentes vozes \u2013 n\u00e3o s\u00e3o mais facilmente identific\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os novos cap\u00edtulos na equa\u00e7\u00e3o comunicativa \u2013 Estado, Imprensa e Cidad\u00e3os \u2013, talvez sejam caracterizados pela apropria\u00e7\u00e3o do burburinho digital das redes sociais e de escancaradas lutas em torno da \u201cverdade\u201d (brigas com a imprensa).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o jornalismo, a <strong>p\u00f3s-verdade<\/strong> significa amea\u00e7a e oportunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em um primeiro momento, o jornalismo sai enfraquecido neste cen\u00e1rio no qual \u201ctodo mundo\u201d \u00e9 produtor de conte\u00fado e cujo imperativo \u00e9 compartilhar nas redes sociais imediatamente. Ler a \u00edntegra de um <em>post<\/em> raramente \u00e9 a pr\u00e1tica. Verificar a credibilidade da fonte, questionar o teor ou levantar d\u00favidas s\u00e3o comportamentos ignorados. O importante \u00e9 dar um clique e transmitir manchetes que, via de regra, apontam culpados, criam bodes expiat\u00f3rios e oferecem solu\u00e7\u00f5es rasas para temas complexos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas em um segundo momento, com tantas informa\u00e7\u00f5es desencontradas, espera-se o triunfo da apura\u00e7\u00e3o rigorosa sobre as inconsist\u00eancias do relato. O exerc\u00edcio trivial de checar a veracidade da informa\u00e7\u00e3o \u2013 na concep\u00e7\u00e3o do jornalismo, como um bem social e servi\u00e7o ao p\u00fablico \u2013 poder\u00e1 restaurar o papel do jornalismo como fonte confi\u00e1vel de informa\u00e7\u00e3o, mesmo que em um modelo adaptado aos novos tempos, em que a multiplica\u00e7\u00e3o e emiss\u00e3o dos fatos estejam sob a \u00e9gide das novas redes. O desafio determinante \u00e9 a capacidade do jornalismo de enfraquecer os construtores interessados em meias-verdades ou falsidades inteiras.<\/p>\n<blockquote><p>O desafio determinante \u00e9 a capacidade do jornalismo de enfraquecer os construtores interessados em meias-verdades ou falsidades inteiras.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para o jornalismo retomar seu referencial de verdade circunstancial \u00e9 necess\u00e1rio investimento, inova\u00e7\u00e3o, equipes estruturadas. O quadro atual \u00e9 de uma ind\u00fastria em crise financeira e de identidade, cuja redu\u00e7\u00e3o de custos se faz \u00e0s custas de demiss\u00f5es que fragilizam as esperan\u00e7as do surgimento de combatentes da p\u00f3s-verdade. Ao contr\u00e1rio, o que assistimos hoje, inclusive no notici\u00e1rio televisivo, \u00e9 um jornalismo debilitado que acaba por jogar mais gasolina no territ\u00f3rio incendiado das paix\u00f5es e cren\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seja como for, o momento de separar o joio do trigo abre a oportunidade de desmontar ardis de <em>spin doctores, <\/em>ou de interesses pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos, dispersos no anonimato das redes. Existem atores \u00e1vidos para estimular cren\u00e7as radicais, cultivar preconceitos e posi\u00e7\u00f5es extremas que s\u00e3o abra\u00e7adas com fervor, principalmente nas redes, onde os <em>haters, trollers, <\/em>portais <em>fakes<\/em> ou p\u00e1ginas especializadas em boatos, se proliferam. Sem falar que muitos ainda gozam do anonimato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas conjunturas polarizadas, quando a maioria da sociedade fica \u00e0 merc\u00ea de agentes, cuja habilidade \u00e9 criar cortinas de fuma\u00e7a e manipular informa\u00e7\u00f5es, vale pensar em mecanismos de prote\u00e7\u00e3o social. \u00c9 necess\u00e1rio avan\u00e7ar em regula\u00e7\u00f5es que possam punir os inventores de mentiras e meias-verdades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apresentar convic\u00e7\u00f5es com base em desinforma\u00e7\u00f5es pode ser compreens\u00edvel, mas oferece riscos. Quando ningu\u00e9m acredita mais que exista uma verdade, ou algo aproximado, quando o que vale \u00e9 simplesmente acreditar na sua pr\u00f3pria raz\u00e3o, parece que a verdade est\u00e1 sendo abolida ou expulsa da conviv\u00eancia social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias sociais deste contexto s\u00e3o inquietantes. Na pol\u00edtica, o enfraquecimento da no\u00e7\u00e3o e do valor da verdade \u00e9 um perigo para a sociedade. O roteiro previs\u00edvel aponta para o acirramento da intoler\u00e2ncia e para o est\u00edmulo ao totalitarismo.<\/p>\n<p>A <strong>p\u00f3s-verdade<\/strong> pode custar caro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA:<\/p>\n<p>ALMEIDA, Rodrigo de. <em>\u00c0 sombra do poder: bastidores da crise que derrubou Dilma Rousseff. <\/em>S\u00e3o Paulo: Leya, 2016<\/p>\n<p>GIANNETTI, Eduardo. <em>O Mercado das Cren\u00e7as. <\/em>S\u00e3o Paulo, Cia. das Letras, 2003.<\/p>\n<p>MARCONDES. Ciro. <em>Sociedade Tecnol\u00f3gica. <\/em>S\u00e3o Paulo, Scipione. 1994.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apelos emocionais e que mobilizam cren\u00e7as pessoais s\u00e3o mais eficazes para conquistar a opini\u00e3o p\u00fablica do que fatos objetivos. 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