{"id":475214,"date":"2017-07-05T12:19:55","date_gmt":"2017-07-05T10:19:55","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/trump-uma-duvidosa-prosperidade\/"},"modified":"2017-07-10T18:17:25","modified_gmt":"2017-07-10T16:17:25","slug":"trump-uma-duvidosa-prosperidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/trump-uma-duvidosa-prosperidade\/","title":{"rendered":"Trump: uma duvidosa prosperidade?"},"content":{"rendered":"<p>O triunfo eleitoral de Trump, em 8 de novembro de 2016, despertou, contra todos os progn\u00f3sticos, grandes expectativas no mundo econ\u00f4mico e empresarial estadunidense e foi celebrada pelas Bolsas com grandes valoriza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em meio a um otimismo generalizado e a um clima muito favor\u00e1vel \u00e0s propostas econ\u00f4micas do novo presidente, os investidores saudaram a &#8220;refla\u00e7\u00e3o&#8221; promovida por Trump como o in\u00edcio de uma &#8220;nova era&#8221; de prosperidade, semelhante \u00e0quela que, no in\u00edcio dos anos oitenta, trouxeram as pol\u00edticas de Reagan. O setor banc\u00e1rio, em particular, foi um dos maiores benefici\u00e1rios dessas altas das a\u00e7\u00f5es, favorecido pelas expectativas sobre as taxas de juros mais elevadas e por um maior dinamismo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Passados mais de cem dias desde que Trump tomou posse, essa euforia inicial se desvaneceu, em grande medida, ao se comprovar, uma vez mais, que uma coisa s\u00e3o as promessas eleitorais e outra s\u00e3o coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica. No entanto, o problema das medidas econ\u00f4micas que formam o n\u00facleo central do programa de Trump n\u00e3o \u00e9 o fato de que n\u00e3o ser\u00e3o cumpridas, mas, se atendidas, os efeitos muito negativos que estas poderiam ter para a economia, por n\u00e3o se adequarem ao mundo global do s\u00e9culo XXI. Por isso, o melhor que poderia acontecer \u00e9 que estas fossem se diluindo at\u00e9 cair no mais absoluto esquecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para ser justo, devo dizer que a linguagem \u201c<em>pro-business<\/em>&#8221; do novo presidente americano e suas iniciativas liberais, que tendem a eliminar a asfixiante burocracia e a regula\u00e7\u00e3o que as empresas sofrem hoje, s\u00e3o muito apreciadas. Devemos desejar sorte a Trump nesse esfor\u00e7o, que se chocar\u00e1 com o muro de interesses criado por diversas ag\u00eancias e \u00f3rg\u00e3os reguladores e por milhares de empregados, cuja \u00fanica raz\u00e3o de ser n\u00e3o \u00e9 a utilidade p\u00fablica, mas a defesa de seus pr\u00f3prios interesses, paralisando a livre iniciativa com um formalismo in\u00fatil e, \u00e0s vezes, beirando o rid\u00edculo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Esta n\u00e3o \u00e9 uma refla\u00e7\u00e3o \u201cglobal\u201d, e sim uma refla\u00e7\u00e3o exclusiva dos Estados Unidos e somente nos Estados Unidos, o que significa que \u00e9 protecionista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas feita essa ressalva, a realidade \u00e9 que o conjunto de propostas econ\u00f4micas de Trump simplesmente n\u00e3o vai na dire\u00e7\u00e3o certa. O eixo das propostas \u00e9 refla\u00e7\u00e3o fiscal, ou seja, estimular o crescimento econ\u00f4mico atrav\u00e9s de agressivos cortes de impostos e programas de investimento em infraestrutura. No entanto, n\u00e3o se trata de uma refla\u00e7\u00e3o &#8220;global&#8221;, mas de uma refla\u00e7\u00e3o estadunidense e apenas estadunidense, ou seja, protecionista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso cria tr\u00eas problemas. O primeiro \u00e9 que jogar mais gasolina em uma economia como a norte-americana, que est\u00e1 em pleno emprego (a taxa de desemprego \u00e9 de 4,5%) e cujo n\u00edvel de utiliza\u00e7\u00e3o da capacidade de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 muito alto, pode resultar em muito mais infla\u00e7\u00e3o do que crescimento, tornando as taxas de juros mais altas, em maior medida, do que o esperado. Ap\u00f3s oito anos de interven\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria massiva nas economias avan\u00e7adas e sendo os mercados de ativos viciados no &#8220;<em>easy money<\/em>&#8220;, um aumento nas taxas para al\u00e9m de um certo n\u00edvel causar\u00e1, sem d\u00favida, fortes turbul\u00eancias nos mercados, impactando a economia real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O segundo problema \u00e9 o d\u00f3lar. O programa de Trump, se for cumprido, tem um fort\u00edssimo impacto sobre o d\u00f3lar, em um mundo que est\u00e1 endividado em d\u00f3lares. H\u00e1 oito trilh\u00f5es e meio de d\u00edvidas em d\u00f3lares, de n\u00e3o residentes nos EUA, e um forte aumento criaria problemas n\u00e3o apenas para a economia norte-americana, mas tamb\u00e9m para v\u00e1rias entidades banc\u00e1rias, sobretudo as asi\u00e1ticas e algumas economias emergentes, com elevados passivos em d\u00f3lares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em terceiro lugar est\u00e1 o problema dos emergentes. Trump tem criado a sua refla\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas \u00e0 margem, mas tamb\u00e9m contra os emergentes. Seu &#8220;<em> America first<\/em>&#8221; e o seu enfrentamento com economias como a China ou o M\u00e9xico poderiam, talvez, serem v\u00e1lidos nos tempos de Reagan, quando o PIB dos pa\u00edses emergentes era inferior a 40% do PIB mundial e o do EUA era de 25%. Mas hoje, emergentes representam mais de 60% da economia global \u2013 e continuam crescendo \u2013, enquanto o PIB norte-americano chega a pouco mais de 16%. H\u00e1 duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas se dizia que &#8220;<em>se a Am\u00e9rica vai bem, o mundo vai bem<\/em>&#8220;, mas a realidade hoje \u00e9 que, se o mundo n\u00e3o est\u00e1 indo bem, a Am\u00e9rica n\u00e3o pode ir bem. Essa \u00e9 a economia global do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por tudo o que foi exposto, \u00e9 muito duvidoso que Trump chegue a cumprir o seu programa, mas \u00e9 ainda mais duvidoso que, se o cumprir, venha uma \u00e9poca de prosperidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde abril as Bolsas americanas t\u00eam moderado a euforia com a qual receberam Trump e alguns indicadores, como o futuro de petr\u00f3leo ou as taxas de juros no longo prazo, n\u00e3o parecem antecipar um forte crescimento econ\u00f4mico. O chamado &#8220;Trump<em> trade<\/em>&#8221; perdeu for\u00e7a e, de alguma forma, h\u00e1 um sentimento de volta ao mundo &#8220;pr\u00e9 Trump\u201d. Um mundo de crescimento econ\u00f4mico positivo, mas baixo (o PIB norte-americano cresceu apenas 0,7% no primeiro trimestre), no qual a infla\u00e7\u00e3o e as taxas de juros podem apontar alguma coisa, mas n\u00e3o muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 muito improv\u00e1vel que o programa de Trump seja conclu\u00eddo, mas \u00e9 ainda mais improv\u00e1vel que, se conclu\u00eddo, esse programa traga uma fase de prosperidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>Neste novo cen\u00e1rio, as bolsas europeias, que haviam sido deixadas para tr\u00e1s, est\u00e3o se comportando melhor do que as americanas, ao perceberem um maior crescimento na zona do euro e por terem se afastado da incerteza pol\u00edtica na Fran\u00e7a. O temor da defla\u00e7\u00e3o, que era o tema dominante no in\u00edcio do ano passado, levou a uma expectativa de crescimento \u00e0quela, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, deprimida economia da zona euro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais uma vez, como t\u00eam acontecido com frequ\u00eancia nos \u00faltimos anos, a economia e os mercados financeiros enfrentam o dilema de estarmos no limiar de uma etapa de forte crescimento (o famoso &#8220;<em> escape velocity<\/em>&#8220;), como antecipam as Bolsas, ou ao contr\u00e1rio, t\u00eam raz\u00e3o os mercados de t\u00edtulos e de mat\u00e9rias-primas ao apontar, como diria o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, para um crescimento med\u00edocre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O tempo dir\u00e1 qual dos dois pontos de vista est\u00e1 correto, mas se olharmos para tr\u00e1s, a hist\u00f3ria nos ensina que os mercados de t\u00edtulos t\u00eam sido, geralmente, melhores profetizadores do que o mercado de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O triunfo eleitoral de Trump, em 8 de novembro de 2016, despertou, contra todos os progn\u00f3sticos, grandes expectativas no mundo econ\u00f4mico e empresarial estadunidense e foi celebrada pelas Bolsas com grandes valoriza\u00e7\u00f5es. &nbsp; Em meio a um otimismo generalizado e a um clima muito favor\u00e1vel \u00e0s propostas econ\u00f4micas do novo presidente, os investidores saudaram a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[87],"class_list":["post-475214","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ideas"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v24.7 (Yoast SEO v27.7) - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-premium-wordpress\/ -->\n<title>Trump: uma duvidosa prosperidade? 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