{"id":476383,"date":"2022-05-23T10:45:00","date_gmt":"2022-05-23T08:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/uno-1-entrevista-com-anton-costas-por-jose-antonio-llorente\/"},"modified":"2022-05-25T15:32:30","modified_gmt":"2022-05-25T13:32:30","slug":"uno-1-entrevista-com-anton-costas-por-jose-antonio-llorente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/uno-1-entrevista-com-anton-costas-por-jose-antonio-llorente\/","title":{"rendered":"UNO +1 Entrevista com Ant\u00f3n Costas por Jos\u00e9 Antonio Llorente"},"content":{"rendered":"<p>Ant\u00f3n Costas (Vigo, 1949) \u00e9 um dos economistas espanh\u00f3is mais relevantes. \u00c9 autor de uma extensa obra dedicada \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica, \u00e0s reformas institucionais, aos processos de liberaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 conjuntura econ\u00f4mica e pol\u00edtica da Espanha e Europa, e \u00e9 catedr\u00e1tico de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica na Universidade de Barcelona. Mas tamb\u00e9m teve um papel importante como respons\u00e1vel de institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil \u2014foi presidente do Cercle d\u2019Economia\u2014 e de organismos oficiais: hoje \u00e9 presidente do Conselho Social e Econ\u00f4mico do Governo da Espanha.<\/p>\n<p>Nesta conversa repassamos algumas das quest\u00f5es que abordou em seu \u00faltimo livro, \u201cLabirintos da prosperidade\u201d: a rela\u00e7\u00e3o potencialmente criativa e beneficiosa entre o mercado e o Estado, a necessidade de ter boas empresas que criem bons empregos, a transforma\u00e7\u00e3o digital e ecol\u00f3gica sob o amparo dos fundos europeus e, por cima de tudo, os desafios de forjar uma economia inclusiva que ele descreve como \u201cum novo contrato social centrado nos bons empregos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nos \u00faltimos anos, alguns grupos sociais n\u00e3o somente perderam a prosperidade, mas que perderam as expectativas de voltar a encontr\u00e1-la.\u00a0\u00a0Em seu \u00faltimo livro, <\/strong><strong>\u201c<\/strong><strong>Labirintos da prosperidade\u201d, voc\u00ea falou de renovar o contrato social para voltar a encontrar essa prosperidade inclusiva. Que classe de contrato social necessitamos para reativar a economia de uma maneira justa?<\/strong><\/p>\n<p>Necessitamos um contrato social que combine de forma equilibrada uma economia vibrante e inovadora e uma sociedade justa. Para isso este contrato social deve estar centrado em criar bons empregos, para mais pessoas e em mais lugares do pa\u00eds. Do contr\u00e1rio, a falta de expectativas e oportunidades que muitas pessoas sofrem, especialmente em pequenas e m\u00e9dias cidades e no mundo rural, nos levar\u00e1 a uma sociedade muito conflitiva e a uma pol\u00edtica polarizada e autorit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A ideia de contrato social surge da resposta \u00e0 seguinte pergunta: que \u00e9 o que faz com que uma sociedade liberal, pluralista, com um sistema de economia de mercado que funcione harmoniosamente, que o crescimento se concilie com o progresso social e que a democracia evite cair na barb\u00e1rie? Isso n\u00e3o se consegue de forma autom\u00e1tica com a economia de mercado.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1ria uma \u201ccola\u201d social, um compromisso moral e pol\u00edtico daqueles que v\u00e3o bem com o sistema com aqueles que se arriscam a ficar para tr\u00e1s ou, em muitos casos, nas sarjetas da falta de emprego e de rendas para levar uma vida digna e educar a seus filhos.<\/p>\n<p>No passado essa cola foi o contrato social da p\u00f3s-guerra mundial, centrado na redistribui\u00e7\u00e3o e na constru\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas pilares do atual Estado do Bem-estar. Hoje, na medida em que a desigualdade e a pobreza v\u00eam principalmente da falta de emprego ou dos maus empregos, necessitamos um contrato social centrado na etapa da produ\u00e7\u00e3o, na qual se criam os empregos e se determinam os sal\u00e1rios. Tamb\u00e9m na etapa da pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, com uma boa educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o profissional dupla na qual as empresas t\u00eam uma responsabilidade fundamental e inilud\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Talvez outra das coisas que devemos renovar \u00e9 a vis\u00e3o em forma de dicotomia do estado e do mercado. Devemos imaginar novas formas de coopera\u00e7\u00e3o entre o estado e o mercado, entre o setor p\u00fablico e o privado. Como voc\u00ea v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Essa dicotomia \u00e9 manique\u00edsta e profundamente perturbadora. Em uma sociedade liberal, mercado e Estado n\u00e3o s\u00e3o mecanismos rivais, mas complementares. O desenvolvimento econ\u00f4mico moderno n\u00e3o pode ser explicado sem o jogo combinado de ambos. Nem somente com ambos. A prosperidade tem um terceiro pilar: a comunidade. Recentemente, Raghuran Rajan, prestigiado economista da Universidade de Chicago e ex-presidente do Banco da \u00cdndia, publicou um livro no qual tenta explicar as causas do profundo mal-estar e polariza\u00e7\u00e3o existentes nos Estados Unidos. O pr\u00f3prio t\u00edtulo \u00e9 ilustrativo da tese que defende: \u201cThe Third Pilar. How Markets and the State Leave the Community Behind\u201d. Tamb\u00e9m na Espanha esquecemos nos \u00faltimos trinta anos daqueles que, ao longo do territ\u00f3rio, ficaram prejudicados e relegados pelas consequ\u00eancias da desindustrializa\u00e7\u00e3o. Temos que voltar a dar oportunidades e expectativas de progresso \u00e0s comunidades que vivem em pequenas e m\u00e9dias cidades e no mundo rural. Para isso, necessitamos de pol\u00edticas industriais, de inova\u00e7\u00e3o e de desenvolvimento baseadas nas comunidades. N\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, mas \u00e9 essencial se queremos voltar a reconciliar crescimento com progresso social.<\/p>\n<blockquote><p>Em uma sociedade liberal, o mercado e o Estado n\u00e3o s\u00e3o mecanismos rivais, mas complementares.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Tamb\u00e9m h\u00e1 outro par de ideias que durante muito tempo vimos como uma dicotomia e seguramente n\u00e3o \u00e9: por um lado, a efici\u00eancia econ\u00f4mica. Pelo outro lado, a justi\u00e7a social. Agora sabemos que ambas as coisas podem e devem ir de m\u00e3os dadas.<\/strong><\/p>\n<p>A ideia de que uma sociedade mais equitativa somente pode ser alcan\u00e7ada ao custo de reduzir a efici\u00eancia da economia \u00e9 outra dicotomia de uso frequente no debate p\u00fablico e pol\u00edtico, que agora sabemos que \u00e9 falsa. Quando estudei para o meu bacharelado na faculdade me fizeram ler e aprender a chamada lei de Okun: um economista norte-americano muito preocupado com a desigualdade que, no entanto, se encontrou com a surpresa de que os dados que p\u00f4de manejar nos anos setenta do s\u00e9culo passado diziam que havia uma rela\u00e7\u00e3o inversa entre sociedade justa e efici\u00eancia econ\u00f4mica. \u00c9 a famosa imagem do bolo, se repartir melhor sob o risco de n\u00e3o crescer, ou crescer para mais tarde ver como se reparte melhor. Agora, faz um poco mais de um lustro, utilizando melhores dados e t\u00e9cnicas estat\u00edsticas que as que p\u00f4de utilizar Okun, sabemos que n\u00e3o \u00e9 assim: uma sociedade mais justa cria bases para uma economia mais eficiente, inovadora e produtiva. Acredito que \u00e9 uma verdadeira \u201cepifania\u201d, uma revela\u00e7\u00e3o muito importante e ainda pouco conhecida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E uma parte do problema a solucionar \u00e9 o do emprego. A gera\u00e7\u00e3o de bons empregos por parte de boas empresas. Como conseguimos recuperar os bons empregos cuja aus\u00eancia \u00e9 uma das causas da sensa\u00e7\u00e3o de mal-estar que as partes relevantes da sociedade t\u00eam?<\/strong><\/p>\n<p>Comprometendo-nos com a cria\u00e7\u00e3o de bons empregos, para mais pessoas e em mais lugares do pa\u00eds. A pergunta \u00e9: Quem cria empregos? Em primeiro lugar, as boas empresas. Temos que promover e fomentar a exist\u00eancia de boas empresas. Para isso temos que fortalecer a capacidade inovadora e a produtividade do extenso tecido empresarial em muitos casos liliputianos e do setor terci\u00e1rio. Em segundo, a quantidade de emprego depende tamb\u00e9m de uma boa administra\u00e7\u00e3o da demanda agregada da economia, especialmente nas etapas de recess\u00e3o. Na recess\u00e3o de 2008 gerenciamos mal, com a chamada \u201causteridade\u201d, e o emprego e a atividade econ\u00f4mica se afundaram no po\u00e7o negro da depress\u00e3o durante cinco anos, algo inaudito. Na recess\u00e3o pand\u00eamica de 2020 gerenciamos bem, o emprego n\u00e3o despencou e a atividade econ\u00f4mica se recuperou rapidamente. Temos que tirar boas li\u00e7\u00f5es destas duas experi\u00eancias. Cada vez que nos \u00faltimos trinta anos gerenciamos mal as crises, e permitimos que as recess\u00f5es durassem muitos anos, acrescentamos uma camada mais de desemprego de longa dura\u00e7\u00e3o. Espero que agora tenhamos aprendido para n\u00e3o voltar a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Agora, ap\u00f3s a pandemia, entramos em uma fase que esperamos que seja de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, apesar de que a guerra da Ucr\u00e2nia a dificulte em grande medida. Mas, al\u00e9m disso, coincide com duas enormes transforma\u00e7\u00f5es: por um lado, a ecol\u00f3gica e, pelo outro, a digital. Que desafios e que possibilidades voc\u00ea v\u00ea nesse processo duplo?<\/strong><\/p>\n<p>Ao coincidir com uma nova era de guerra e conflito geopol\u00edtico prolongado e de instabilidade nas cadeias globais de suprimentos e de forte altera\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os de mat\u00e9rias primas b\u00e1sicas, teremos que encontrar equil\u00edbrios adequados entre os processos de digitaliza\u00e7\u00e3o e descarboniza\u00e7\u00e3o e assegurar a continuidade da atividade econ\u00f4mica e o emprego.<\/p>\n<p>S\u00e3o momentos para recordar aquela cita\u00e7\u00e3o de San Agust\u00edn em suas \u201cConfiss\u00f5es\u201d quando pedia ao Senhor que \u201clhe concedesse a castidade, mas n\u00e3o agora mesmo\u201d. Com a descarboniza\u00e7\u00e3o vai suceder algo parecido.\u00a0 A ideia de uma digitaliza\u00e7\u00e3o e uma descarboniza\u00e7\u00e3o \u201cjusta\u201d \u00e9 potente, apesar de que n\u00e3o f\u00e1cil de conseguir. Torno a insistir na necessidade de pol\u00edticas centradas nos lugares que atendam especialmente os impactos territoriais da descarboniza\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o nos ocorra o que sucedeu com a desindustrializa\u00e7\u00e3o do final do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Com refer\u00eancia \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o, as novas tecnologias podem ser utilizadas para substituir empregos humanos ou para melhorar a capacidade de inova\u00e7\u00e3o e produtividade das pessoas. N\u00e3o h\u00e1 fatalismo nisso. Depende da orienta\u00e7\u00e3o que damos ao sentido da mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica. Na minha opini\u00e3o, o fundamental \u00e9 conseguir rapidamente a alfabetiza\u00e7\u00e3o digital b\u00e1sica do conjunto da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>A decis\u00e3o de criar os fundos europeus da &#8220;pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 um &#8220;momento hamiltoniano&#8221; para a UE.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Que opini\u00e3o voc\u00ea tem sobre a implementa\u00e7\u00e3o de ferramentas europeias que s\u00e3o uma novidade, como os fundos europeus? Acredita que sup\u00f5em a mostra de que aprendemos de li\u00e7\u00f5es passadas e de que podemos fazer as cosas de maneira mais imaginativa?<\/strong><\/p>\n<p>A decis\u00e3o de criar os fundos europeus \u201cNext Generation\u201d \u00e9 um \u201cmomento hamiltoniano\u201d da UE. Com esta express\u00e3o fa\u00e7o uma refer\u00eancia a Alexander Hamilton, primeiro secret\u00e1rio do Tesouro dos EUA no Governo de G. Washington, que conseguiu a comunitariza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida dos Estados depois da Guerra da Independ\u00eancia, a emiss\u00e3o da primeira d\u00edvida federal e a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas industriais, de inova\u00e7\u00e3o e desenvolvimento que forjaram essa grande na\u00e7\u00e3o que \u00e9 hoje Estados Unidos.<\/p>\n<p>Penso que os fundos Next Generation UE, a emiss\u00e3o de d\u00edvida europeia e as novas pol\u00edticas industriais e de inova\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gicas s\u00e3o esse \u201cmomento hamiltoniano\u201d da UE. Uma velha cita\u00e7\u00e3o m\u00e1xima cl\u00e1ssica disse que nunca h\u00e1 ventos favor\u00e1veis para o que n\u00e3o t\u00eam rumo. Os fundos \u201cNext Generation\u201d s\u00e3o um vento favor\u00e1vel extraordin\u00e1rio para a transforma\u00e7\u00e3o da economia privada e o setor p\u00fablico espanhol. Agora faz falta que definamos bem o rumo dessa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Chegando ao fim, a pergunta sempre \u00e9: como podemos utilizar a economia, as ideias econ\u00f4micas, as ferramentas que nos d\u00e1, para o bem comum?<\/strong><\/p>\n<p>Meus professoresna Faculdade, em particular os professores Fabi\u00e1n Estap\u00e9 e Ernest Lluch, me ensinaram que, bem utilizada, a economia \u00e9 uma alavanca extraordin\u00e1ria para o bem comum. Assim acredito. Os governos podem fazer muito e bem para o bem-estar das pessoas. E a combina\u00e7\u00e3o de uma economia din\u00e2mica e vibrante com uma sociedade justa \u00e9 a melhor combina\u00e7\u00e3o para voltar a civilizar o capitalismo, reconciliando-o com o progresso social e a democracia. \u00c9 uma grande tarefa pendente. E acredito que podemos faz\u00ea-lo. Como nossos pais e av\u00f3s fizeram depois da Grande Depress\u00e3o dos anos trinta e a Segunda Guerra Mundial: com um novo contrato social baseado agora nos bons empregos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3n Costas (Vigo, 1949) \u00e9 um dos economistas espanh\u00f3is mais relevantes. \u00c9 autor de uma extensa obra dedicada \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica, \u00e0s reformas institucionais, aos processos de liberaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 conjuntura econ\u00f4mica e pol\u00edtica da Espanha e Europa, e \u00e9 catedr\u00e1tico de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica na Universidade de Barcelona. 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