{"id":476399,"date":"2022-05-23T10:50:44","date_gmt":"2022-05-23T08:50:44","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/qual-e-a-sua-missao\/"},"modified":"2022-05-25T15:29:14","modified_gmt":"2022-05-25T13:29:14","slug":"qual-e-a-sua-missao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/qual-e-a-sua-missao\/","title":{"rendered":"Qual \u00e9 a sua miss\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>A esta altura do s\u00e9culo XXI j\u00e1 sabemos algumas coisas. Especialmente, que vivemos em um mundo complexo, com din\u00e2micas carregadas de cisnes negros e problemas que ultrapassam os governos nacionais, mas que nem o mercado, nem o setor privado, s\u00e3o capazes de resolverem por si mesmos. A \u00fanica certeza que podemos esgrimir \u00e9 que quase tudo o que foi aprendido no s\u00e9culo XX ficou escanteado diante de evolu\u00e7\u00f5es sociais, tecnol\u00f3gicas e naturais que transcendem o conhecido.<\/p>\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a Intelig\u00eancia Artificial s\u00e3o tr\u00eas vetores de mudan\u00e7a suficientemente potentes por si mesmas. A sua interrela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 suficiente para explicar esta nova situa\u00e7\u00e3o na qual o velho n\u00e3o serve e o novo est\u00e1 nascendo. Nunca antes os seres humanos tiveram que enfrentar desafios t\u00e3o disruptivos e gerais que nos afetam diretamente como esp\u00e9cie at\u00e9 o ponto de fazer com que questionemos o pr\u00f3prio sentido de nosso ser. Frente a isso, as pol\u00edticas p\u00fablicas tradicionais ou o velho nacionalismo s\u00e3o in\u00f3cuos, por mais familiares que nos resultem: nem as pandemias, nem a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, nem a possibilidade real de uma migra\u00e7\u00e3o, nem a consci\u00eancia de que pode se superar a fome e a desigualdade extrema no mundo encaixam nos esquemas cl\u00e1ssicos de p\u00fablico\/privado. Diante destes problemas, nem o Estado \u00e9 o problema e o mercado a solu\u00e7\u00e3o, nem o contr\u00e1rio.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNunca como agora os seres humanos tiveram que enfrentar desafios t\u00e3o disruptivos e gerais que nos afetam diretamente como esp\u00e9cie at\u00e9 o ponto de fazer com que questionemos o pr\u00f3prio sentido de nosso ser\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Faz falta encontrar novos protagonistas e conceber novas formas de intervir no social capazes de enfrentar desafios que s\u00e3o, \u00e0s vezes e pela primeira vez, globais e transversais. Puramente, o \u00fanico plenamente resgat\u00e1vel da doutrina do s\u00e9culo XX seriam os direitos humanos proclamados pela ONU, aplicados at\u00e9 suas \u00faltimas consequ\u00eancias, em um momento em que a esp\u00e9cie humana se sobrep\u00f5e ao indiv\u00edduo como sujeito hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XXI iniciou sua viagem pela hist\u00f3ria empurrado por quatro ventos: a globaliza\u00e7\u00e3o como m\u00e9todo para entrela\u00e7ar os interesses das na\u00e7\u00f5es dando um fim \u00e0s guerras e \u00e0 pobreza; a digitaliza\u00e7\u00e3o como revolu\u00e7\u00e3o capaz de criar e consolidar um mundo \u00fanico gra\u00e7as ao empuxe unificador da mesma tecnologia; a desregula\u00e7\u00e3o, o mercado capaz de equilibrar-se por si mesmo, sem crise e a prefer\u00eancia pelo estado m\u00ednimo, como pe\u00e7as do edif\u00edcio social indutor do crescimento; e, por \u00faltimo, a convic\u00e7\u00e3o de que a luta contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica estava j\u00e1 sendo executada a partir da aprova\u00e7\u00e3o do Protocolo de Quioto de 1997 com o acordo de 81 pa\u00edses.<\/p>\n<p>Em apenas vinte anos, os quatro ventos se perderam. Foi da m\u00e3o, em 2008, de uma crise dos mercados financeiros desregulados da qual nos tirou o estado como resgatador; da tecnologia dos dados invasiva da privacidade e o capitalismo de vigil\u00e2ncia; do ressurgimento de dois blocos \u2013n\u00e3o somente tecnol\u00f3gicos, sen\u00e3o pol\u00edticos\u2014 em torno a Estados Unidos e China, com a incorpora\u00e7\u00e3o recente da R\u00fassia ap\u00f3s a guerra da Ucr\u00e2nia que provocou sua exclus\u00e3o do sistema econ\u00f4mico mundial e, finalmente, da constata\u00e7\u00e3o de que, apesar de declara\u00e7\u00f5es enf\u00e1ticas como o Acordo de Paris (2015) estamos longe de reduzir as emiss\u00f5es de CO2 ao n\u00edvel exigido, \u00e0 vez que se evidenciam v\u00ednculos entre a\u00e7\u00f5es humanas como o desmatamento e o surgimento de pandemias como a COVID, com maior probabilidade de que os v\u00edrus animais passem aos humanos.<\/p>\n<p>Necessitamos de um novo paradigma que permita entender o que acontece e, sobretudo, um novo esquema de atua\u00e7\u00e3o social que seja eficaz na hora de enfrentar-lhe quando se romperam as rela\u00e7\u00f5es tradicionais entre p\u00fablico e privado, individual e coletivo. Os m\u00e9todos atuais de gerenciamento s\u00e3o inadequados para abordar os desafios do s\u00e9culo XXI. Dois exemplos servir\u00e3o para evidenciar este ponto.<\/p>\n<p>Por um lado, o desafio \u00e0 esp\u00e9cie humana apresentado pelas possibilidades abertas pela Intelig\u00eancia Artificial n\u00e3o cabe nos esquemas cl\u00e1ssicos de estado-empresas porque vai al\u00e9m dos objetivos e fun\u00e7\u00f5es conhecidas de ambos os agentes. Se as empresas est\u00e3o derivando de o acionista como \u00fanico objetivo ao capitalismo de stakeholders, os estados devem modernizar suas estruturas e fun\u00e7\u00f5es para se encaixarem \u00e0s novas responsabilidades exigidas.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cSe os governos estabelecem normas e procedimentos para separar os res\u00edduos e o lixo, mas cada um de n\u00f3s, individualmente, n\u00e3o o fazemos em nossa casa, de pouco servir\u00e1\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por outro lado, se os governos estabelecem normas e procedimentos para separar os res\u00edduos e o lixo, mas cada um de n\u00f3s, individualmente, n\u00e3o o fazemos em nossa casa, de pouco servir\u00e1. Assim, as responsabilidades p\u00fablico\/privadas e individual\/coletivas, t\u00eam que ser integradas de maneira diferente frente aos novos desafios e tanto os governos como as empresas devem revisar seu prop\u00f3sito e sua governan\u00e7a corporativa.<\/p>\n<p>E ali \u00e9 onde ganha todo o sentido a nova proposta da Uni\u00e3o Europeia, inspirada na professora Mariana Mazzucato, de ordenar as prioridades coletivas e organizar as estrat\u00e9gias e os recursos empregados entorno ao conceito de \u201cMiss\u00f5es\u201d que p\u00f5e fim, de maneira brilhante, ao cl\u00e1ssico de \u201cAssuntos P\u00fablicos\u201d como o espa\u00e7o tradicional para organizar as rela\u00e7\u00f5es entre o p\u00fablico e o privado. Hoje, tanto o p\u00fablico como o privado s\u00e3o responsabilidade de todos, porque ningu\u00e9m, por si s\u00f3, \u00e9 capaz de enfrenta-lo. Isso foi visto com a pandemia que lan\u00e7aram a coopera\u00e7\u00e3o entre governos e empresas a uns n\u00edveis desconhecidos, ao mesmo tempo em que se pedia, al\u00e9m das normas (restri\u00e7\u00f5es), \u00e0 responsabilidade individual para cumpri-las.<\/p>\n<p>O grande descobrimento pol\u00edtico do s\u00e9culo XXI est\u00e1 sendo que o valor social surge da intera\u00e7\u00e3o entre os setores p\u00fablico e privado e a sociedade civil, gerenciados de maneira diferente, com prop\u00f3sitos compat\u00edveis e criando conjuntamente benef\u00edcios m\u00fatuos. Segundo define a Comiss\u00e3o Europeia, as miss\u00f5es s\u00e3o um instrumento novo e ambicioso que partem da ideia de que os desafios complexos exigem ativar esfor\u00e7os coordenados entre governos, assim como entre governos e empresas e indiv\u00edduos, em torno a objetivos claros, capazes de mobilizar os recursos necess\u00e1rios para transformar a sociedade.<\/p>\n<p>Organizar o gerenciamento do social em torno do conceito de miss\u00f5es exige mudan\u00e7as importantes na maneira de gerenciar o p\u00fablico e o privado, assim como suas rela\u00e7\u00f5es tradicionais para entrar em uma nova din\u00e2mica al\u00e9m dos velhos conceitos e atua\u00e7\u00f5es de lobby ou de assuntos p\u00fablicos. Surge um novo espa\u00e7o de interrela\u00e7\u00e3o para governos, empresas e sociedade civil, onde devem cooperar em lugar de confrontar, como era tradicional.<\/p>\n<p>Quem assume facilitar este encontro, com o enfoque de \u201cmiss\u00e3o\u201d, prestar\u00e1 um grande servi\u00e7o \u00e0 coletividade. Um \u00e0 altura do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A esta altura do s\u00e9culo XXI j\u00e1 sabemos algumas coisas. Especialmente, que vivemos em um mundo complexo, com din\u00e2micas carregadas de cisnes negros e problemas que ultrapassam os governos nacionais, mas que nem o mercado, nem o setor privado, s\u00e3o capazes de resolverem por si mesmos. 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