{"id":487104,"date":"2026-10-22T09:36:00","date_gmt":"2026-10-22T07:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/?p=487104"},"modified":"2026-10-22T10:07:25","modified_gmt":"2026-10-22T08:07:25","slug":"o-futuro-ainda-e-atlantico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-br\/ideas\/uno\/o-futuro-ainda-e-atlantico\/","title":{"rendered":"O Futuro Ainda \u00e9 Atl\u00e2ntico?"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>\u201cO futuro de Europa, Am\u00e9rica Latina e Estados Unidos n\u00e3o ser\u00e1 decidido pela hist\u00f3ria que compartilhamos, mas pela capacidade de construir juntos aquilo que ainda n\u00e3o existe.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Vivemos uma inflex\u00e3o hist\u00f3rica. <b>As certezas que, por d\u00e9cadas, orientaram decis\u00f5es internacionais perderam parte de sua capacidade explicativa<\/b>, enquanto novas vari\u00e1veis como seguran\u00e7a, resili\u00eancia, tecnologia, energia e poder passaram a condicionar Estados, mercados e sociedades.<\/p>\n<p>Depois da queda do Muro de Berlim, fomos educados a interpretar as rela\u00e7\u00f5es internacionais sobretudo pela l\u00f3gica econ\u00f4mica: produtividade, vantagens comparativas, efici\u00eancia log\u00edstica, pre\u00e7os. Essa l\u00f3gica permanece, mas j\u00e1 n\u00e3o basta.<b> A geopol\u00edtica voltou, e voltou para ficar.<\/b><\/p>\n<p>Hoje, decidir quem produz, quem exporta, quem compra e em quais condi\u00e7\u00f5es envolve cada vez mais considera\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a nacional, alinhamentos estrat\u00e9gicos e disputas de poder. Bens, capitais, tecnologias e cadeias produtivas deixaram de ser apenas ativos econ\u00f4micos: tornaram-se tamb\u00e9m instrumentos de press\u00e3o, barganha e, em alguns casos, coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 comum falar em transi\u00e7\u00e3o. Mas talvez estejamos diante de algo mais profundo: <b>a supera\u00e7\u00e3o de ciclos hist\u00f3ricos que estruturaram a ordem internacional por d\u00e9cadas, ou mesmo s\u00e9culos<\/b>. A era unipolar, consolidada ap\u00f3s 1991, d\u00e1 lugar a uma distribui\u00e7\u00e3o mais fragmentada de poder. O sistema financeiro ancorado no d\u00f3lar e no petr\u00f3leo enfrenta press\u00f5es associadas \u00e0 transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e \u00e0 busca por alternativas transacionais. A arquitetura multilateral constru\u00edda depois de 1945 sofre desgaste e perda de efetividade. E a pr\u00f3pria centralidade hist\u00f3rica do Ocidente, constru\u00edda ao longo de mais de quinhentos anos, encontra-se diante de um redimensionamento.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ambiente que o <b>Tri\u00e2ngulo Atl\u00e2ntico<\/b>, formado por Europa, Am\u00e9rica Latina e Estados Unidos, pode adquirir uma import\u00e2ncia renovada. N\u00e3o por nostalgia, nem apenas por afinidades hist\u00f3ricas e culturais, <b>mas porque seus interesses concretos convergem em \u00e1reas essenciais para a prosperidade.<\/b><\/p>\n<p>A comunidade empresarial percebeu isso antes dos Estados. No Brasil, empresas norte-americanas e europeias constru\u00edram, h\u00e1 d\u00e9cadas, presen\u00e7a profunda em setores que v\u00e3o muito al\u00e9m do com\u00e9rcio exterior. Est\u00e3o no sistema financeiro, na ind\u00fastria, nos servi\u00e7os, na infraestrutura e no agroalimentar. E ocorreu algo ainda mais interessante: muitas dessas companhias deixaram de ser simplesmente subsidi\u00e1rias estrangeiras. Incorporaram compet\u00eancias, talentos e cultura empresarial brasileiros, transformando sua presen\u00e7a local em plataformas competitivas para outros mercados.<\/p>\n<blockquote><p><strong>A integra\u00e7\u00e3o atl\u00e2ntica, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas uma rela\u00e7\u00e3o entre matrizes e filiais; \u00e9 um processo de cria\u00e7\u00e3o conjunta de valor.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o dos governos, contudo, ainda n\u00e3o acompanha plenamente essa realidade empresarial. H\u00e1 sinais importantes de prioriza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es transatl\u00e2nticas, mas os avan\u00e7os concretos continuam dif\u00edceis. O com\u00e9rcio \u00e9 talvez o melhor exemplo.<\/p>\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria do acordo comercial entre<b> Mercosul e Uni\u00e3o Europeia<\/b>, iniciada em maio passado, idealmente abre uma nova etapa de integra\u00e7\u00e3o, mas sua implementa\u00e7\u00e3o ainda exigir\u00e1 \u00e1rduo trabalho pol\u00edtico, regulat\u00f3rio e empresarial. O mesmo vale para o acordo <b>Mercosul-EFTA. <\/b>Esses instrumentos mostram que existe espa\u00e7o para aproximar mercados, mas tamb\u00e9m revelam quanto tempo e energia s\u00e3o necess\u00e1rios para transformar afinidade estrat\u00e9gica em acesso efetivo.<\/p>\n<p>Com os Estados Unidos, os \u00faltimos dois anos mostraram outra dimens\u00e3o do problema. <b>O chamado \u201ctarifa\u00e7o\u201d revelou como mecanismos comerciais podem ser utilizados tamb\u00e9m como instrumentos de press\u00e3o geopol\u00edtica<\/b>. A rea\u00e7\u00e3o de setores privados, sobretudo de empresas norte-americanas com interesses no Brasil, demonstrou, por outro lado, que a interdepend\u00eancia econ\u00f4mica pode funcionar como elemento de modera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que a <b>China precisa entrar na equa\u00e7\u00e3o<\/b>. N\u00e3o como uma amea\u00e7a ret\u00f3rica, mas como realidade econ\u00f4mica incontorn\u00e1vel.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Se os v\u00e9rtices do Tri\u00e2ngulo Atl\u00e2ntico permanecerem excessivamente fechados entre si, empresas e consumidores buscar\u00e3o, naturalmente, alternativas.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>O risco n\u00e3o \u00e9 simplesmente \u201cperder\u201d mercados para o Leste. \u00c9 deixar de construir, entre parceiros hist\u00f3ricos, as condi\u00e7\u00f5es de competitividade necess\u00e1rias para disputar o mundo que est\u00e1 emergindo.<\/p>\n<p>Os s\u00e9culos que unem Europa, Am\u00e9rica Latina e Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o um passe livre para que essa rela\u00e7\u00e3o seja tomada como garantida.<b> Hist\u00f3ria cria capital pol\u00edtico, mas n\u00e3o substitui estrat\u00e9gia. <\/b>E, se a oportunidade de integra\u00e7\u00e3o for desperdi\u00e7ada, os custos ser\u00e3o sentidos justamente onde mais importam: no acesso competitivo a alimentos, energia, infraestrutura e insumos cr\u00edticos, em um mundo marcado pela guerra na Europa, pela instabilidade no Oriente M\u00e9dio e pela vulnerabilidade das rotas de abastecimento.<\/p>\n<p>Para o setor privado, isso significa algo concreto: seguran\u00e7a jur\u00eddica, cadeias de suprimento diversificadas, regras previs\u00edveis e mercados abertos para permitir investimento de longo prazo.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Geopol\u00edtica, afinal, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assunto restrito \u00e0s chancelarias. Ela entrou no conselho de administra\u00e7\u00e3o, no planejamento industrial e nas decis\u00f5es de investimento.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>A pr\u00f3xima C\u00fapula Ibero-Americana, em Madri, oferece uma oportunidade para reafirmar a centralidade de nossa rela\u00e7\u00e3o. Mas reafirmar n\u00e3o basta. \u00c9 preciso transformar afinidade em arquitetura, discurso em instrumentos e proximidade hist\u00f3rica em vantagens concretas.<\/p>\n<p>Empresas, Parlamentos e sociedade civil t\u00eam papel decisivo nesse processo. <b>A integra\u00e7\u00e3o do Tri\u00e2ngulo Atl\u00e2ntico<\/b> n\u00e3o pode depender da fotografia de uma C\u00fapula ou do ciclo pol\u00edtico de um governo. <b>Precisa ser constru\u00edda como pol\u00edtica de Estado:<\/b> com mais com\u00e9rcio, mais investimento, maior previsibilidade regulat\u00f3ria e, sobretudo, um di\u00e1logo entre parceiros que se reconhe\u00e7am como iguais.<\/p>\n<p>Porque a alternativa n\u00e3o \u00e9 simplesmente escolher entre o Atl\u00e2ntico e o Leste. <b>A verdadeira escolha \u00e9 entre participar ativamente da constru\u00e7\u00e3o do novo sistema internacional ou adaptar-se a uma ordem desenhada por outros.<\/b> A realidade raramente espera que estejamos prontos para ela. Desta vez, talvez o maior ativo do Tri\u00e2ngulo Atl\u00e2ntico seja justamente a possibilidade de se preparar em conjunto. Se Europa, Am\u00e9rica Latina e Estados Unidos conseguirem transformar sua velha interdepend\u00eancia em uma renovada estrat\u00e9gia comum, poder\u00e3o n\u00e3o apenas preservar seu protagonismo: poder\u00e3o convert\u00ea-lo em uma nova fonte de prosperidade. <b>O futuro do Atl\u00e2ntico, afinal, n\u00e3o ser\u00e1 decidido pela hist\u00f3ria que nossos povos compartilham. Ser\u00e1 decidido pela capacidade de construirmos, juntos, aquilo que ainda n\u00e3o existe.<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO futuro de Europa, Am\u00e9rica Latina e Estados Unidos n\u00e3o ser\u00e1 decidido pela hist\u00f3ria que compartilhamos, mas pela capacidade de construir juntos aquilo que ainda n\u00e3o existe.\u201d Vivemos uma inflex\u00e3o hist\u00f3rica. 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