{"id":466283,"date":"2026-06-10T09:04:19","date_gmt":"2026-06-10T07:04:19","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/?p=466283"},"modified":"2026-06-10T09:04:45","modified_gmt":"2026-06-10T07:04:45","slug":"o-futuro-e-uma-conversa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-pt\/ideas\/uno\/o-futuro-e-uma-conversa\/","title":{"rendered":"O futuro \u00e9 uma conversa"},"content":{"rendered":"<p><strong>Philip Tetlock<\/strong> \u00e9 um psic\u00f3logo canadiano que, em 1987, fez uma pergunta que todos fazemos com frequ\u00eancia: at\u00e9 que ponto s\u00e3o fi\u00e1veis as previs\u00f5es dos especialistas? Para tentar responder, iniciou uma experi\u00eancia cient\u00edfica fascinante: durante 18 anos recolheu previs\u00f5es sobre o futuro pol\u00edtico e econ\u00f3mico; no final do processo, tinha 27.500 de quase 300 desses especialistas. Em 2005 olhou para tr\u00e1s, comparou as previs\u00f5es com os factos que ocorreram na realidade durante esse longo per\u00edodo e chegou a uma conclus\u00e3o: os especialistas falham bastante. Mas o resultado n\u00e3o o satisfez.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, decidiu levar a sua experi\u00eancia mais longe e chamou-lhe <strong>Projeto do Bom Crit\u00e9rio.<\/strong> Reuniu outros psic\u00f3logos e juntos contactaram 20.000 especialistas em quest\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f3micas, aos quais pediram que fizessem previs\u00f5es precisas \u2014 que deviam expressar atrav\u00e9s de uma percentagem de probabilidade \u2014 sobre quest\u00f5es muito concretas, como por exemplo: qual a probabilidade de um pa\u00eds concreto declarar fal\u00eancia? Ou de ocorrer um golpe de Estado noutro? A alguns desses especialistas deram instru\u00e7\u00f5es precisas sobre o que se esperava deles, e a outros n\u00e3o. Alguns especialistas fizeram as previs\u00f5es sozinhos; outros, em contrapartida, decidiram trabalhar em equipa, deliberar entre si e concertar as suas previs\u00f5es.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s anos de trabalho, Tetlock e a sua equipa chegaram a tr\u00eas conclus\u00f5es l\u00f3gicas e, ao mesmo tempo, fascinantes. Em primeiro lugar, as pessoas que recebiam uma certa forma\u00e7\u00e3o sobre a arte de fazer previs\u00f5es \u2014 sobre como neutralizar os seus enviesamentos ou como utilizar as percentagens de probabilidade, por exemplo \u2014 tendiam a acertar mais do que as que n\u00e3o a recebiam. Em segundo lugar, descobriram que h\u00e1 pessoas, que Tetlock chamou \u201csuperprevisores\u201d, que possuem uma capacidade extraordin\u00e1ria para acertar no que vai acontecer no futuro, e que t\u00eam uma taxa de acerto muito mais alta, e muito mais sustentada no tempo, do que os outros. <strong>Mas, em terceiro lugar, Tetlock e a sua equipa descobriram que, na hora de fazer previs\u00f5es, o trabalho em equipa funciona.<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>Junte pessoas com um certo talento para a previs\u00e3o, diga-lhes o que espera delas, convide-as a falar, a partilhar informa\u00e7\u00e3o e a discutir, e regra geral as suas previs\u00f5es ser\u00e3o muito melhores do que as de quem trabalha a s\u00f3s. O futuro, efetivamente, \u00e9 uma conversa.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<h3>O auge da prospetiva<\/h3>\n<p>&nbsp;<br \/>\nTetlock teve um enorme impacto no campo da prospetiva. Esta n\u00e3o \u00e9 uma disciplina nova. Mas nos anos setenta do s\u00e9culo passado, entendida como uma ferramenta ao servi\u00e7o das empresas e dos governos, tornou-se mais sistem\u00e1tica e ub\u00edqua, e incorporou elementos cient\u00edficos. Tanto o setor privado como o p\u00fablico queriam dispor de cen\u00e1rios futuros sobre quest\u00f5es como as reservas de combust\u00edveis f\u00f3sseis, as mudan\u00e7as nos estilos de vida e as prefer\u00eancias de consumo, ou a possibilidade de uma guerra nuclear entre as grandes pot\u00eancias da Guerra Fria. No entanto, nos anos posteriores \u00e0 queda do comunismo, devido em grande parte ao otimismo pol\u00edtico pr\u00f3prio da \u00e9poca, que dava como certa uma relativa estabilidade, o ramo dominante da prospetiva foi o econ\u00f3mico e centrou-se nos cen\u00e1rios macro, nas tend\u00eancias de mercado e no potencial impacto de ambos num setor ou numa marca em concreto.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, contudo, com o regresso da instabilidade geopol\u00edtica, da fragmenta\u00e7\u00e3o e da polariza\u00e7\u00e3o, as empresas prestam cada vez mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 prospetiva pol\u00edtica. \u201cA volatilidade e a complexidade do ambiente geoecon\u00f3mico atual obrigam tanto a banca como o conjunto do tecido empresarial a refor\u00e7ar e a ampliar os \u00e2ngulos da an\u00e1lise prospetiva\u201d, diz Alicia Coronil Jonsson, economista-chefe do Singlar Bank e membro do Conselho Consultivo da LLYC. <strong>\u201cMovemo-nos num contexto caracterizado por uma combina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de mudan\u00e7as estruturais e novos paradigmas que definem uma nova era, na qual as regras de governa\u00e7\u00e3o global vigentes desde a II Guerra Mundial deixam de ter vig\u00eancia progressivamente\u201d.<\/strong> Por isso, utilizam-se cada vez mais as an\u00e1lises de risco pol\u00edtico, que medem o impacto que a conjuntura eleitoral, a sa\u00fade da coliga\u00e7\u00e3o de governo ou crises de car\u00e1ter ainda mais grave podem ter num investimento. \u201cTradicionalmente, as empresas avaliavam fundamentalmente os riscos macroecon\u00f3micos (ciclos, infla\u00e7\u00e3o, taxas de juro, procura), porque eram as principais vari\u00e1veis que afetavam a sua conta de resultados. No entanto, a crescente fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a polariza\u00e7\u00e3o social, as tens\u00f5es comerciais ou a desconfigura\u00e7\u00e3o da ordem mundial ampliaram o per\u00edmetro de vigil\u00e2ncia\u201d, diz Coronil Jonsson.<\/p>\n<p>Para tal, algumas empresas contam com departamentos pr\u00f3prios de prospetiva ou contratam os servi\u00e7os de consultoras que oferecem esta classe de servi\u00e7os. Em muitos casos, os riscos s\u00e3o avaliados atrav\u00e9s da an\u00e1lise de fontes abertas (factos e dados que s\u00e3o p\u00fablicos, mas que requerem interpreta\u00e7\u00e3o), ou atrav\u00e9s do contacto com insiders pol\u00edticos. Por vezes, essa prospetiva requer, de forma literal, uma conversa: o trato humano, entre quem decide e um especialista \u2014 ou preferencialmente um grupo de especialistas \u2014 \u00e9, por vezes, fundamental para que o primeiro tenha uma ideia real de quais s\u00e3o os cen\u00e1rios futuros mais prov\u00e1veis e como se cruzam com os seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u00a0\u201cN\u00e3o s\u00f3 \u00e9 preciso gerir riscos e detetar desafios, mas tamb\u00e9m identificar as oportunidades que um mundo em plena transforma\u00e7\u00e3o oferece\u201d, diz Coronil Jonsson.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Quando se trata de agregar muitas opini\u00f5es, como recomendava Tetlock, as sondagens continuam a ser uma ferramenta relativamente comum, embora no campo da prospetiva econ\u00f3mica e pol\u00edtica estas se realizem habitualmente entre especialistas e n\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o geral. Mas tamb\u00e9m surgem novas ferramentas para compreender e desenhar cen\u00e1rios futuros. Ultimamente ganharam mais import\u00e2ncia os mercados de previs\u00e3o que agregam as previs\u00f5es de centenas ou milhares de pessoas que apostam num evento concreto. \u201cAgregar as previs\u00f5es de muita gente bate sistematicamente a grande maioria das previs\u00f5es individuais. Mesmo quando usamos \u2018superpronosticadores\u2019\u201d, diz Kiko Llaneras, redator-chefe de narrativas visuais e dados do El Pa\u00eds, e autor do livro Piensa claro. Ocho reglas para descifrar el mundo y tener \u00e9xito en la era de los datos. \u201cA l\u00f3gica para que isto funcione \u00e9 intuitiva: cada pessoa tem informa\u00e7\u00e3o ligeiramente distinta e tamb\u00e9m enviesamentos distintos. Ao agregar as previs\u00f5es, a informa\u00e7\u00e3o combina-se e os enviesamentos suavizam-se. O resultado, em m\u00e9dia, s\u00e3o ju\u00edzos melhores do que os de quase todos.\u201d E em muitos casos, sobretudo nos \u00faltimos anos, traduzem-se numa cifra (ou call, no jarg\u00e3o do setor), que encapsula a probabilidade estimada de ocorr\u00eancia de um determinado evento. Isto aumenta a clareza da previs\u00e3o e pode ajudar em maior medida quem decide e deve optar entre v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es de investimento ou estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p>No entanto, o inusitado auge das redes sociais e a crescente influ\u00eancia da conversa digital permitiram a cria\u00e7\u00e3o de ferramentas que agregam uma quantidade ainda maior de opini\u00f5es. Estas n\u00e3o s\u00e3o de especialistas e, portanto, podem carecer da sua fiabilidade, mas s\u00e3o t\u00e3o massivas que d\u00e3o pistas reais sobre as ideias acerca do futuro que s\u00e3o maiorit\u00e1rias na sociedade, ou sobre grandes tend\u00eancias de consumo ou opini\u00e3o pol\u00edtica. Uma dessas ferramentas \u00e9 a Data Analytics Suite, da LLYC, que utiliza o Big Data e a Intelig\u00eancia Artificial para identificar os temas de conversa nas redes, que atores dominam essa conversa, que rela\u00e7\u00e3o mant\u00eam entre si, que volume tem a conversa e como e quando esta atinge picos ou gera mudan\u00e7as de opini\u00e3o. Trata-se de realidades que permitem adicionar uma nova camada ao exerc\u00edcio de prospetiva das empresas.<\/p>\n<p>Contudo, a nova prospetiva, que utiliza esta classe de ferramentas e tamb\u00e9m os conhecimentos de previsores especialistas, e por vezes \u201csuperprevisores\u201d, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas uma ferramenta da empresa privada. Nos \u00faltimos anos, muitas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas tamb\u00e9m adotaram a prospetiva para antecipar cen\u00e1rios geopol\u00edticos, tend\u00eancias de consumo ou evolu\u00e7\u00f5es do clima ou da demografia. Desde 1997, o Gabinete do Diretor de Intelig\u00eancia Nacional, do governo dos Estados Unidos, publica de quatro em quatro anos um relat\u00f3rio no qual analisa as tend\u00eancias globais a longo prazo; a sua \u00faltima entrega, por exemplo, foca-se em 2040. Em 2020, a presid\u00eancia do Governo de Espanha criou o Gabinete Nacional de Prospetiva e Estrat\u00e9gia, que pretende antecipar cen\u00e1rios futuros para que a governa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e a sua legisla\u00e7\u00e3o estejam de acordo com as grandes tend\u00eancias. Um dos seus primeiros trabalhos foi o Espa\u00f1a 2050, que reuniu uma centena de acad\u00e9micos de distintas especialidades com o fim de fazer um exerc\u00edcio de \u201cprospetiva estrat\u00e9gica\u201d, nas palavras do pr\u00f3prio documento, para antecipar os desafios \u201csociais, econ\u00f3micos e ambientais\u201d que Espanha enfrentar\u00e1, dizia, \u201cnas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas\u201d e poder antecipar-se a eles. Em v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos, como o Chile, fala-se cada vez com mais intensidade da prospetiva, ou da \u201cgoverna\u00e7\u00e3o antecipat\u00f3ria\u201d, como ferramenta que os Governos deveriam adotar.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<h3>Reduzir a incerteza<\/h3>\n<p>&nbsp;<br \/>\nA prospetiva n\u00e3o \u00e9 uma arte de adivinha\u00e7\u00e3o. Como diz Coronil Jonsson, o seu objetivo \u00e9 prever cen\u00e1rios m\u00faltiplos, \u201cn\u00e3o como previs\u00f5es mas como ferramentas para compreender poss\u00edveis trajet\u00f3rias e preparar respostas \u00e1geis\u201d. A \u00fanica forma honesta de fazer prospetiva, acrescenta Llaneras, \u201c\u00e9 dizer coisas do tipo: \u2018vejo uma probabilidade de 20% de que o PIB se contraia em 2026\u2019 ou \u2018o candidato X ganhar\u00e1 as elei\u00e7\u00f5es com uma probabilidade de 87%\u2019\u201d. Tudo o que n\u00e3o seja isso, diz, pode levar-nos a prever com um excesso de seguran\u00e7a ou a renunciar a fazer previs\u00f5es. Do que se trata, em suma, \u00e9 de reduzir a incerteza, n\u00e3o de adivinhar o futuro; de delimitar os cen\u00e1rios poss\u00edveis, n\u00e3o de saber exatamente qual se produzir\u00e1. De somar ferramentas tecnol\u00f3gicas, estat\u00edsticas e metodol\u00f3gicas para espreitar, num momento de incerteza, o que vir\u00e1. E assim poder contribuir para lhe impor o nosso selo.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Para entender o futuro, para reduzir a incerteza e para contribuir para moldar as grandes tend\u00eancias do futuro \u00e9 necess\u00e1rio agregar muitas vozes.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 muitas maneiras de o fazer. Mas a de Tetlock n\u00e3o s\u00f3 parece intuitiva, como se demonstrou cientificamente que \u00e9 a melhor: <strong>reunir pessoas com talento, dar-lhes uma metodologia clara para que compensem os seus enviesamentos e pensem em termos de probabilidade, pedir-lhes claramente o que precisamos e p\u00f4-las a conversar.<\/strong> \u00c9 a receita para aumentar as probabilidades de sucesso. E \u00e9, em certo sentido, o que pretende a conversa para o futuro que a LLYC prop\u00f5e.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Philip Tetlock \u00e9 um psic\u00f3logo canadiano que, em 1987, fez uma pergunta que todos fazemos com frequ\u00eancia: at\u00e9 que ponto s\u00e3o fi\u00e1veis as previs\u00f5es dos especialistas? 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