{"id":476731,"date":"2013-08-14T17:50:43","date_gmt":"2013-08-14T15:50:43","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/e-a-etica-estupido\/"},"modified":"2026-08-13T13:51:57","modified_gmt":"2026-08-13T11:51:57","slug":"e-a-etica-estupido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-pt\/ideas\/uno\/e-a-etica-estupido\/","title":{"rendered":"\u00c9 a \u00e9tica, est\u00fapido!"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/etica.jpg\"><\/a><br \/>\nEsc\u00e2ndalos. Esc\u00e2ndalos e mais esc\u00e2ndalos. Voc\u00ea s\u00f3 precisa abrir as p\u00e1ginas dos jornais para encontrar um esc\u00e2ndalo ap\u00f3s o outro. N\u00e3o importa o pa\u00eds (da China aos Estados Unidos, passando pela Espanha, com escala na It\u00e1lia ou na Fran\u00e7a). N\u00e3o importa qual se\u00e7\u00e3o do jornal (economia, esportes, pol\u00edtica ou cultura). N\u00e3o importa a \u00e9poca (20 anos atr\u00e1s ou na semana passada). N\u00e3o importa: os esc\u00e2ndalos est\u00e3o a\u00ed e s\u00e3o manchete dia ap\u00f3s dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de se perguntar o porqu\u00ea. Ou talvez sim. Algum tempo atr\u00e1s li \u2013n\u00e3o me lembro onde\u2013 que, no final, todos os esc\u00e2ndalos tinham origens comuns: sexo ou cobi\u00e7a. E talvez, assistindo a filmes como \u201cInside Jobs\u201d \u2013uma dessas produ\u00e7\u00f5es essenciais para entender a crise econ\u00f4mica\u2013 \u00e9 poss\u00edvel que ambas as causas apare\u00e7am juntas de forma sistem\u00e1tica (Aviso desde j\u00e1: neste artigo eu me concentro exclusivamente na cobi\u00e7a).<\/p>\n<p>Para combater estes esc\u00e2ndalos, nos \u00faltimos dez ou quinze anos, surgiram nos cinco continentes, tanto no \u00e2mbito da sociedade civil como no mundo corporativo e institucional, um conjunto de medidas para estabelecer limites e linhas vermelhas para a cobi\u00e7a pura e simples.<br \/>\nVimos surgir leis de transpar\u00eancia e de governan\u00e7a corporativa. Assistimos a movimentos a favor da responsabilidade social e de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Vimos condena\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de todos os esc\u00e2ndalos. E at\u00e9 vimos funcion\u00e1rios p\u00fablicos incorporando ao seu sal\u00e1rio um b\u00f4nus especial por se comportar eticamente (como o caso da presidente do FMI).<\/p>\n<blockquote><p>Por que os esc\u00e2ndalos s\u00e3o manchete dia ap\u00f3s dia? N\u00e3o \u00e9 (apenas) um problema a ser corrigido com leis, movimentos ou declara\u00e7\u00f5es. Isto, no final das contas, trata-se de outra coisa: valores e, acima de tudo, a \u00e9tica<\/p><\/blockquote>\n<p>Vimos de tudo. Mas, no final das contas, n\u00e3o paramos de ler essas manchetes escandalosas. Por qu\u00ea? Por que nenhuma lei, nenhum movimento ou condena\u00e7\u00e3o social ou judicial rendeu os frutos desejados? Temo que a resposta n\u00e3o seja f\u00e1cil, mas me atrevo a especular. Acho que este n\u00e3o \u00e9 (apenas) um problema que se resolve com leis, movimentos ou declara\u00e7\u00f5es. Isto, no fundo, se trata de outra coisa: valores e, sobretudo, \u00e9tica. Parafraseando o Bill Clinton poder\u00edamos at\u00e9 dizer&#8230; \u201c\u00c9 a \u00e9tica, est\u00fapido!\u201d<\/p>\n<p>E esse \u00e9 o problema. O que \u00e9 a \u00e9tica. Falar de \u00e9tica nos leva a abordar uma daquelas grandes palavras, um conceito t\u00e3o amplo que \u00e9 muito dif\u00edcil de colocar-lhe um rosto e olhos. \u00c9tica \u00e9 dif\u00edcil de descrever, porque tem muitas facetas culturais, religiosas de valores ou cren\u00e7as. Mas acima de tudo, a \u00e9tica \u00e9 um conceito dif\u00edcil de gerir, porque qualquer pessoa que assume a gest\u00e3o dos assuntos p\u00fablicos de uma empresa pode pensar que \u201cao entrar nessa po\u00e7a\u201d, corre o risco de invadir o campo das cren\u00e7as individuais. Portanto, estamos diante de um problema: porque quando falamos de \u00e9tica \u00e9 f\u00e1cil confundir todos os n\u00edveis que implicam a uma pessoa (privado, p\u00fablico, institucional e, tamb\u00e9m, laboral).<\/p>\n<p>Mas o fato de ser um problema, n\u00e3o significa que n\u00e3o devemos agir. Cada um no seu \u00e2mbito pode \u201cdefinir\u201d e \u201cgerenciar\u201d os aspectos \u00e9ticos da sua atividade e, consequentemente, limitar a cobi\u00e7a, que \u00e9 o que geralmente est\u00e1 na origem de quase todos os debates \u00e9ticos.<\/p>\n<blockquote><p>A transpar\u00eancia \u00e9 capaz de explicar o que voc\u00ea faz, com argumentos e dados<\/p><\/blockquote>\n<p>O que pode ser feito desde o mundo empresarial para \u201cdefinir\u201d e \u201cgerenciar\u201d a \u00e9tica? O que pode ser feito para colocar um limite na cobi\u00e7a? Talvez as receitas abaixo n\u00e3o sejam nada de novo, mas \u00e9 que sobre este assunto est\u00e1 quase tudo j\u00e1 escrito&#8230; o problema \u00e9 que pouco se executa. Aqui est\u00e3o algumas:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/etica-full.jpg\"><\/a>Primeiro: Contar com um C\u00f3digo de \u00c9tica que defina quais s\u00e3o os principais crit\u00e9rios de comportamento de uma organiza\u00e7\u00e3o na sua rela\u00e7\u00e3o com clientes, colaboradores, acionistas, fornecedores, sociedade em geral, etc. Cuidado: n\u00e3o falamos de uma \u00e9tica gen\u00e9rica nem de umas cren\u00e7as espec\u00edficas. Nos referimos ao que em determinadas organiza\u00e7\u00f5es se entende por rela\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. At\u00e9 aqui, o usual. O que come\u00e7a a ser um pouco mais avan\u00e7ado \u00e9 que, como em qualquer Constitui\u00e7\u00e3o, o C\u00f3digo deve derivar de um quadro de pol\u00edticas e regulamentos internos para desenvolv\u00ea-lo e torn\u00e1-lo mais vis\u00edvel. Por exemplo, um c\u00f3digo pode proteger um \u201cprinc\u00edpio da igualdade\u201d no gen\u00e9rico, mas ser\u00e1 conveniente que a empresa adote uma pol\u00edtica abrangente sobre este assunto e regulamentos espec\u00edficos nos quais sejam inclu\u00eddos objetivos, indicadores, metas e datas relevantes.<\/p>\n<p>Segundo: Contar com uma Unidade de Gerenciamento do C\u00f3digo. \u201cImplantar um c\u00f3digo\u201d exige mais do que uma publica\u00e7\u00e3o ou um quadro regulamentar. Exige um \u00f3rg\u00e3o capaz de promover a cultura da \u00e9tica, de treinar aos funcion\u00e1rios em seus princ\u00edpios e valores, promover pol\u00edticas internas, decorrentes do C\u00f3digo; de canalizar d\u00favidas, sugest\u00f5es ou \u201capelos\u201d ao C\u00f3digo, e garantir o seu cumprimento em todos os n\u00edveis organizativos. Todas essas coisas que ajudam a tornar vis\u00edvel e real uma \u201cbonita\u201d declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Terceiro: Influenciar o sistema de tomada de decis\u00f5es. Esta \u00e9 a parte mais complexa porque transcende a categoria de \u201ccumprir\u201d para subir ao n\u00edvel de \u201cviver\u201d. Viver um C\u00f3digo \u00c9tico n\u00e3o \u00e9 nada mais do que filtrar as decis\u00f5es atrav\u00e9s da peneira que representam os valores e princ\u00edpios da empresa. Algum tempo atr\u00e1s eu tive a sorte de assistir a uma apresenta\u00e7\u00e3o onde um respons\u00e1vel da Johnson &amp; Johnson comentou seu processo de decis\u00e3o com base em seu famoso \u201cCredo\u201d. Fiquei impressionado com a simplicidade de um processo que consistia em quatro fases: (1) \u201cReconhecer o desafio moral\u201d, detectando se h\u00e1 um conflito entre dois bens que devem ser protegidos, (2) \u201cEncontrar uma boa decis\u00e3o\u201d para o longo prazo; (3) \u201cTestar a decis\u00e3o provis\u00f3ria\u201d, perguntando como voc\u00ea explicaria a decis\u00e3o \u00e0 sua fam\u00edlia ou a um terceiro, e (4) \u201catuar com coragem\u201d, reduzindo suas expectativas, se necess\u00e1rio, ou assumindo as consequ\u00eancias de sua decis\u00e3o. Incrivelmente simples. Extraordinariamente \u00fatil. Mas isso requer muitos anos de trabalho: alguns especialistas acreditam que, pelo menos, 15 ou 20 anos de exerc\u00edcio cont\u00ednuo.<\/p>\n<blockquote><p>Ou colocamos limites \u00e0 cobi\u00e7a ou, finalmente, ela nos devorar\u00e1 e levar\u00e1 consigo o sistema de valores do mundo occidental<\/p><\/blockquote>\n<p>E quarto: ser transparente. H\u00e1 muito tempo eu ouvi que a transpar\u00eancia \u00e9 o melhor desinfetante para a corrup\u00e7\u00e3o. Transpar\u00eancia, longe do que muitos podem pensar, n\u00e3o consiste em publicar \u201curbi et orbi\u201d todas as contas, contratos, sistemas e dados de uma empresa. Isso mais do que transpar\u00eancia \u00e9 nudez. A transpar\u00eancia \u00e9 poder explicar aquilo que voc\u00ea faz, com argumentos e dados.<\/p>\n<p>Sou ciente que n\u00e3o ofere\u00e7o nada de novo. Que muitas ou todas as coisas \u00e0s quais me refiro neste artigo j\u00e1 s\u00e3o conhecidas. E que talvez tenha ca\u00eddo em muitos lugares comuns. Mas sei tamb\u00e9m que as consequ\u00eancias dos esc\u00e2ndalos est\u00e3o a\u00ed. Tamb\u00e9m estou ciente de que a vida n\u00e3o \u00e9 bin\u00e1ria (zeros e uns) e que nem tudo \u00e9 preto ou branco: h\u00e1 muitos tons de cinza em cada uma das decis\u00f5es que tomamos. E eu sei que, acima de tudo isso, ou colocamos limites \u00e0 cobi\u00e7a ou, finalmente, ela nos devorar\u00e1 e levar\u00e1 consigo o sistema de valores do mundo ocidental. E disto estou particularmente consciente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esc\u00e2ndalos. Esc\u00e2ndalos e mais esc\u00e2ndalos. Voc\u00ea s\u00f3 precisa abrir as p\u00e1ginas dos jornais para encontrar um esc\u00e2ndalo ap\u00f3s o outro. N\u00e3o importa o pa\u00eds (da China aos Estados Unidos, passando pela Espanha, com escala na It\u00e1lia ou na Fran\u00e7a). N\u00e3o importa qual se\u00e7\u00e3o do jornal (economia, esportes, pol\u00edtica ou cultura). 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