{"id":476918,"date":"2013-12-03T16:07:29","date_gmt":"2013-12-03T15:07:29","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/a-indefinicao-exterior-da-espanha\/"},"modified":"2026-08-11T14:41:34","modified_gmt":"2026-08-11T12:41:34","slug":"a-indefinicao-exterior-da-espanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-pt\/ideas\/uno\/a-indefinicao-exterior-da-espanha\/","title":{"rendered":"A indefini\u00e7\u00e3o exterior da Espanha"},"content":{"rendered":"<p>Seria muito dif\u00edcil tentar descrever quais s\u00e3o os vetores fundamentais da pol\u00edtica externa espanhola. Seguramente, porque n\u00e3o os tem. Um dos sintomas da crise institucional que a Espanha sofre, al\u00e9m da econ\u00f4mica, consiste na indefini\u00e7\u00e3o de como deve produzir sua proje\u00e7\u00e3o exterior, seu desconcerto na localiza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios de interesse rec\u00edproco com as diferentes regi\u00f5es do mundo e seu retraimento nas rela\u00e7\u00f5es internacionais. Para chegar a esta desalentadora conclus\u00e3o, embora realista, talvez seja preciso remontar ao enorme p\u00eandulo de posicionamento e aspira\u00e7\u00f5es dos primeiros anos deste s\u00e9culo. Passamos, quase sem solu\u00e7\u00e3o de continuidade, da C\u00fapula de A\u00e7ores, em 15 de mar\u00e7o de 2003, na qual Jos\u00e9 Mar\u00eda Aznar, com George Bush, Tony Blair e Dur\u00e3o Barroso, quis elevar a Espanha muito acima de suas possibilidades a envolvendo no conflito do Iraque, \u00e0 Alian\u00e7a de Civiliza\u00e7\u00f5es que Jos\u00e9 Luis Rodr\u00edguez Zapatero promoveu na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 21 de setembro de 2004, uma iniciativa reativa ao ferrenho alinhamento de seu antecessor com o ex-presidente americano.<\/p>\n<p>Entre uma pol\u00edtica e outra n\u00e3o havia coer\u00eancia alguma, fio que as vinculasse nem relato pol\u00edtico que as tornassem compat\u00edveis. Ambas eram extremas e artificiais e colocavam, no fundo e na forma, uma contradi\u00e7\u00e3o quase radical. E de ambas, hoje, nada resta. Se os substitutos de George Bush e Tony Blair, como o de Aznar, deixaram a proposta de A\u00e7ores no ba\u00fa das lembran\u00e7as, a alian\u00e7a proposta por Rodr\u00edguez Zapatero foi devorada, al\u00e9m da crise econ\u00f4mica, pelas enormes transforma\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses \u00e1rabes nas quais para nada pesou a tentativa de liga\u00e7\u00e3o Ocidente-Oriente que o ex-presidente socialista do governo espanhol pretendia.<\/p>\n<blockquote><p>A pol\u00edtica externa espanhola passou, sem solu\u00e7\u00e3o de continuidade e contraditoriamente, da C\u00fapula de A\u00e7ores \u00e0 Alian\u00e7a das Civiliza\u00e7\u00f5es<\/p><\/blockquote>\n<p>O papel da Espanha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina e \u00e0 Uni\u00e3o Europeia ficou em boa medida lastrado por esse movimento brusco e inintelig\u00edvel, que provocou no Velho Continente um indissimul\u00e1vel desconcerto e, na Am\u00e9rica Latina, surpresa diante do giro copernicano que a pol\u00edtica externa espanhola do PSOE protagonizou, que transitava desde uma estreita rela\u00e7\u00e3o com a Casa Branca a uma maior proximidade e entendimento com regimes populistas, de linha esquerdista. O resultado \u00e9 que, anos depois, e por causa da Grande Recess\u00e3o, por um lado, e pela crise institucional interna, por outro, a Espanha se encontra internacionalmente em um terreno de ningu\u00e9m. Sua prioridade absoluta neste tempo hist\u00f3rico consiste &#8211; com um resgate financeiro nas costas &#8211; em aplicar as receitas da Comiss\u00e3o Europeia, do Fundo Monet\u00e1rio Internacional e do Banco Central Europeu, o que desvia a energia espanhola para o exterior nos f\u00f3runs comunit\u00e1rios e na extenuante interlocu\u00e7\u00e3o com Bruxelas. O governo n\u00e3o parece ter neste momento urg\u00eancia em estabelecer prioridades de pol\u00edtica externa que v\u00e3o al\u00e9m de cumprir os crit\u00e9rios de estabilidade dos tratados da Uni\u00e3o Europeia e sair da profunda crise. Embora seja triste, \u00e9 preciso constatar: a desvaloriza\u00e7\u00e3o interna que a Espanha registra no \u00e2mbito econ\u00f4mico \u2013 \u00fanica maneira de reabilitar a competitividade nos mercados internacionais \u2013 se corresponde com outra de car\u00e1ter internacional.<\/p>\n<blockquote><p>O processo de marginaliza\u00e7\u00e3o exterior do Estado espanhol foi substitu\u00eddo pela vitalidade da internacionaliza\u00e7\u00e3o das grandes empresas espanholas<\/p><\/blockquote>\n<p>A Espanha, em consequ\u00eancia, n\u00e3o est\u00e1, nem \u00e9 esperada, at\u00e9 que se refa\u00e7a internamente de sua crise de identidade institucional e supere a forte s\u00edndrome depressiva econ\u00f4mica da qual sofre hoje. As energias nacionais, sugadas pelas urg\u00eancias da crise, n\u00e3o seguiram o vertiginoso ritmo de transforma\u00e7\u00f5es em determinadas \u00e1reas do planeta, especialmente em Am\u00e9rica Latina e \u00c1sia. Na comunidade de na\u00e7\u00f5es hisp\u00e2nicas &#8211; al\u00e9m do Brasil -, houve realinhamentos determinantes que obrigar\u00e3o a Espanha a estabelecer pol\u00edticas de rela\u00e7\u00e3o muito distantes da estandardiza\u00e7\u00e3o tradicional, e atrav\u00e9s delas &#8211; talvez com uma maior liga\u00e7\u00e3o com a Alian\u00e7a do Pac\u00edfico &#8211; ensaiar um novo modelo de liga\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-culturais com a \u00c1sia. Neste sentido, o ensaio de Josep Piqu\u00e9, ex-ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores com Jos\u00e9 Mar\u00eda Aznar, que vinha da atividade privada e que voltou a ela, intitulado \u201c<em>Cambio de era. <\/em><em>Un mundo en movimiento: de Norte a Sur y de Este a Oeste<\/em>\u201d (\u201cMudan\u00e7a de era. Um mundo em movimento: do Norte ao Sul e de Leste a Oeste\u201d, em portugu\u00eas) \u00e9 o texto mais l\u00facido e compreensivo de aonde a Espanha deve ir em um futuro imediato.<\/p>\n<p>Por sorte, o processo de marginaliza\u00e7\u00e3o internacional do Estado espanhol foi substitu\u00eddo pela vitalidade da internacionaliza\u00e7\u00e3o das grandes empresas espanholas. Na Am\u00e9rica Latina, a bancariza\u00e7\u00e3o do subcontinente parece uma miss\u00e3o para as grandes entidades financeiras espanholas por causa de seu conhecimento dos mercados do subcontinente e determinadas identidades muito indicadas neste setor, como o idioma. Al\u00e9m disso, as grandes infraestruturas de companhias espanholas competitivas marcam a presen\u00e7a espanhola na regi\u00e3o altamente valorizada e, claro, menos conflituosa que as que operam no setor energ\u00e9tico que registram dificuldades de ordens muito diferentes. No entanto, as ind\u00fastrias culturais, mais dependentes do apoio p\u00fablico, est\u00e3o muito abaixo das expectativas geradas por uma comunidade idiom\u00e1tica de quase 500 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>O potencial empresarial espanhol j\u00e1 internacionalizado requer um amparo efetivo do Estado mediante pol\u00edticas bilaterais e multilaterais que agora n\u00e3o s\u00e3o suficientemente efetivas. Mais ainda, pode se dizer que nos grandes conflitos nos pa\u00edses com uma situa\u00e7\u00e3o de mercado mais inst\u00e1vel, nos \u00e2mbitos pol\u00edtico e jur\u00eddico, as empresas espanholas n\u00e3o receberam a necess\u00e1ria cobertura. N\u00e3o tanto por falta de vontade do governo de Madri quanto por sua indefini\u00e7\u00e3o no modo de estar e de se comportar em uma Am\u00e9rica Latina que, como escreveu Jos\u00e9 Antonio Llorente (Suplemento Neg\u00f3cios &#8211; El Pa\u00eds de 13 de outubro de 2013), est\u00e1 agora fragmentada, em blocos com interesses e prop\u00f3sitos n\u00e3o sincronizados. Neste novo cen\u00e1rio, a Espanha parece desorientada e n\u00e3o extrai das diferentes C\u00fapulas Ibero-americanas um relevante know how para reformular seu posicionamento latino-americano.<\/p>\n<p>O realinhamento das rela\u00e7\u00f5es com a Am\u00e9rica Latina, a localiza\u00e7\u00e3o de um canal de conex\u00e3o com a \u00c1sia e a recupera\u00e7\u00e3o do papel europeu anterior \u00e0 crise s\u00e3o, definitivamente, os tr\u00eas grandes desafios da pol\u00edtica externa espanhola porque nessas \u00e1reas territoriais, culturais e econ\u00f4micas se elucidam os interesses de nosso pa\u00eds que deve reavaliar tamb\u00e9m seu papel com os estados do norte da \u00c1frica. A Espanha est\u00e1 em um stand by pol\u00edtico e institucional que repercute sobre sua pol\u00edtica externa, que neste momento protagoniza o grande fen\u00f4meno da internacionaliza\u00e7\u00e3o de nossas grandes empresas. Quando se observar em perspectiva estes anos, reconheceremos nesse pioneirismo empresarial, nesse empurr\u00e3o empreendedor o grande ativo destes tr\u00eas \u00faltimos anos e dos \u00faltimos cinco anos porque substituiu, ao contr\u00e1rio de outras \u00e9pocas hist\u00f3ricas, a fraqueza estatal e a desorienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. De uma Espanha que tem potencial para sair e faz\u00ea-lo com a recupera\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica externa que ser\u00e1 mais sofisticada, complexa e multilateral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seria muito dif\u00edcil tentar descrever quais s\u00e3o os vetores fundamentais da pol\u00edtica externa espanhola. Seguramente, porque n\u00e3o os tem. 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