{"id":477135,"date":"2014-11-20T14:03:10","date_gmt":"2014-11-20T13:03:10","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/veracruz-2014-e-a-estruturacao-cultural\/"},"modified":"2026-08-11T14:17:21","modified_gmt":"2026-08-11T12:17:21","slug":"veracruz-2014-e-a-estruturacao-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-pt\/ideas\/uno\/veracruz-2014-e-a-estruturacao-cultural\/","title":{"rendered":"Veracruz-2014 e a estrutura\u00e7\u00e3o cultural"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.pt\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/02_2.jpg\"><\/a>Em 2009, quando a crise econ\u00f4mica eclodiu com todo o seu potencial destrutivo, a Funda\u00e7\u00e3o Carolina publicou um livro especial, coordenado pelo ex-presidente do Governo espanhol, Felipe Gonz\u00e1lez, cuja mem\u00f3ria e conte\u00fado \u00e9 oportuno recuperar. Foi intitulado &#8220;Am\u00e9rica Latina 2020. Desafios diante da crise&#8221;. O elenco de ensa\u00edstas reunido pelo o ex-presidente Gonz\u00e1lez &#8211; autor de um s\u00e1bio pr\u00f3logo &#8211; \u00e9 impressionante. N\u00e3o s\u00f3 porque j\u00e1 ent\u00e3o a nova Secret\u00e1ria-Geral Ibero-americana, Rebeca Grysnpan, assinou um texto em que demonstrava seus conhecimentos e capacidades (&#8220;A desigualdade e o desafio do desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina e no Caribe&#8221;), mas porque, al\u00e9m de temas macroecon\u00f4micos, sociais e institucionais, a obra incorporava o tratamento dos grandes assuntos do conhecimento e da cultura como elementos da identidade diversa que estrutura as sociedades ib\u00e9ricas \u2013 Espanha e Portugal \u2013 e da Am\u00e9rica Latina, escrito por personalidades da mais alta qualifica\u00e7\u00e3o e prest\u00edgio.<\/p>\n<p>O falecido escritor Carlos Fuentes &#8211; um dos mais ilustres escritores em l\u00edngua espanhola dos \u00faltimos 50 anos &#8211; j\u00e1 assinalava a &#8220;educa\u00e7\u00e3o como a base do desenvolvimento&#8221;, mas o ex-presidente do Chile, Ricardo Lagos, acerta plenamente em seu trabalho intitulado &#8220;Ibero-americana: identidade para um mundo global&#8221;. Embora a cita\u00e7\u00e3o seja grande, vale a pena buscar uma reflex\u00e3o do pol\u00edtico chileno que deve marcar o futuro das rela\u00e7\u00f5es internas e s\u00f3lidas entre os pa\u00edses que se encontrar\u00e3o nas c\u00fapulas latino-americanas.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Lagos escreve com raz\u00e3o que a Am\u00e9rica Latina se expressa com mais for\u00e7a atrav\u00e9s da cultura que de qualquer outra forma. A Ibero-Am\u00e9rica deve ser um projeto cultural e idiom\u00e1tico ou n\u00e3o ser\u00e1.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ricardo Lagos escreveu em 2009 que &#8220;o que caracteriza o mundo latino-americano \u00e9 o mesmo que caracteriza a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica: essa capacidade de incluir e onde a diversidade \u00e9 o elemento base para a identidade, tanto na Am\u00e9rica Latina quanto na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Esta identidade, que se assenta em sua pr\u00f3pria diversidade, permite ent\u00e3o que possamos projetar-nos em um mundo que parece querer fragmentar-se a partir de diferentes identidades culturais (&#8230;)&#8221;. Esta identidade diversa a que referia-se Lagos \u201cpermite \u2013 dizia ele \u2013 nos aproximarmos de uma patrim\u00f4nio comum, uma cultura compartilhada, baseada na toler\u00e2ncia e no respeito \u00e0 identidade do outro&#8221; e sentenciava, &#8220;a Am\u00e9rica Latina se expressa com muito mais for\u00e7a na cultura do que em qualquer outra forma: pol\u00edtica, econ\u00f4mica ou social &#8220;.<\/p>\n<p>A exemplo do que acontece nas comunidades de pa\u00edses que falam ingl\u00eas ou franc\u00eas, Ricardo Lagos aponta para o centro do alvo: a conex\u00e3o da comunidade ibero-americana \u00e9 cultural ou n\u00e3o \u00e9. Nossa identidade \u00e9 a cultura diversificada que dispomos que, no entanto, prov\u00eam de um mesmo tipo sangu\u00edneo, o idioma \u2013 o espanhol e o portugu\u00eas -, atrav\u00e9s do qual veiculamos desejos, sentimentos, emo\u00e7\u00f5es, afinidades e o que \u00e9 substancial, a diversidade citada reiteradamente por Ricardo Lagos. De tal maneira que a comunidade ibero-americana encontra uma permanente e, al\u00e9m disso, crescente raz\u00e3o de ser no idioma, mais do que em fatores que, pela sua natureza, s\u00e3o mut\u00e1veis \u2013 dos ideol\u00f3gicos aos institucionais. T\u00e3o crescente que \u00e9 o intang\u00edvel o mais exportado nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas aos Estados Unidos da Am\u00e9rica, onde a comunidade hisp\u00e2nica, em alta, j\u00e1 adquire um protagonismo irrevers\u00edvel. Hoje o espanhol \u00e9 falado nas sociedades mais din\u00e2micas e com mais capacidade de desenvolvimento material e intelectual.<\/p>\n<blockquote><p>A exporta\u00e7\u00e3o mais decisiva da Ibero-Am\u00e9rica aos Estados Unidos tem sido, atrav\u00e9s das migra\u00e7\u00f5es, as comunidades hisp\u00e2nicas. O turismo cultural \u00e9 um ativo de grande valor agregado.<\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.pt\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/02.jpg\"><\/a>A constru\u00e7\u00e3o \u2013 amig\u00e1vel e aberta, mas s\u00f3lida e permanente &#8211; da Ibero-Am\u00e9rica depender\u00e1 do que os grandes encontros entre mandat\u00e1rios de seus pa\u00edses (Veracruz 2014) concordem em impulsionar quanto ao feito latino-americano, por meio de desenvolvimentos contempor\u00e2neos, mediante instrumentos intelig\u00edveis e atraentes para as novas gera\u00e7\u00f5es. E isso s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ado atrav\u00e9s da promo\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias culturais que v\u00e3o ganhando peso nas economias locais e na mundial Ibero-americana. Porque a cultura e o idioma s\u00e3o, al\u00e9m de intang\u00edveis, fontes de riqueza. O cinema, a edi\u00e7\u00e3o de livros, a m\u00fasica, as produ\u00e7\u00f5es de televis\u00e3o e r\u00e1dio, o teatro&#8230; todas as manifesta\u00e7\u00f5es culturais devem ser entendidas de uma forma dual: nos unem, nos identificam, mas tamb\u00e9m contribuem para o bem-estar material, porque implicam em investimento, postos de trabalho, pesquisa e criatividade. E, nesta \u00e1rea, n\u00e3o devemos esquecer que a sociedade do conhecimento imp\u00f5e o f\u00e1cil deslocamento de cidad\u00e3os \u00e1vidos por conhecimento, gerando assim a ind\u00fastria do turismo como um fator de aproxima\u00e7\u00e3o social, mas tamb\u00e9m de cria\u00e7\u00e3o de riqueza. Poucas iniciativas s\u00e3o materialmente mais pass\u00edveis de retribui\u00e7\u00e3o e gratificantes ao intelecto que o turismo cultural quanto a Ibero-Am\u00e9rica pode proporcionar em valor agregado.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 pol\u00edticas conjuntas para as ind\u00fastrias culturais? Lamentavelmente, n\u00e3o h\u00e1. Enquanto as amea\u00e7as \u00e0 sustentabilidade do patrim\u00f4nio cultural crescem (o fen\u00f4meno da pirataria digital est\u00e1 tornando deserta a m\u00fasica e o cinema, e o livro tamb\u00e9m come\u00e7a a ressentir-se) \u2013 ao contr\u00e1rio, parecem debilitar-se \u2013, n\u00e3o se fortalecem os fatores de prote\u00e7\u00e3o nem emergem as pol\u00edticas proativas. Os pa\u00edses mais desenvolvidos criaram fortes garantias aos direitos de seguran\u00e7a, direitos autorais e criadores na web. Estabeleceram crit\u00e9rios de compensa\u00e7\u00e3o equitativa por c\u00f3pia privada (que \u00e9 o que oferece valor adicional \u00e0 tecnologia de reprodu\u00e7\u00e3o e armazenamento de conte\u00fado) e permaneceram fieis, inclusive na crise, ao co-financiamento das express\u00f5es culturais mais caras, mas tamb\u00e9m mais importantes.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edticas conjuntas de prote\u00e7\u00e3o proativas a favor das ind\u00fastrias culturais. Apostemos nelas.<\/p><\/blockquote>\n<p>A Espanha seria um exemplo do colapso das ind\u00fastrias culturais: n\u00e3o h\u00e1 defesa eficiente dos direitos da propriedade intelectual diante da impunidade da pirataria; foi suprimida a regra digital, substitu\u00edda por um insuficiente limite or\u00e7ament\u00e1rio para compensar a c\u00f3pia privada; o IVA aumentou para 21% &#8211; o mais alto de toda a Europa -, foram reduzidos os subs\u00eddios, n\u00e3o h\u00e1 linhas de financiamento de cr\u00e9dito e a Lei do Mecenato, al\u00e9m de n\u00e3o ser aprovada, \u00e9 um projeto que est\u00e1 longe de competir com outros estados do entorno espanhol.<\/p>\n<p>\u00c9 dessas materialidades e intangibilidades que deveriam ser faladas, debatidas e acordadas nas C\u00fapulas Ibero-americanas \u2013 ainda que n\u00e3o unicamente &#8211; para fortalecer o v\u00ednculo comum de car\u00e1ter cultural e idiom\u00e1tico que d\u00e1 sentido \u00e0 coes\u00e3o <em>hispano-lusa<\/em>. O car\u00e1ter veicular, quase universal, que adquiriu o ingl\u00eas e o que isso deriva (poderosas ind\u00fastrias de cinema, televis\u00e3o, m\u00fasica&#8230;), n\u00e3o deveria conduzir \u00e0 desist\u00eancia, mas ao esfor\u00e7o, especialmente se considerarmos que as fortes migra\u00e7\u00f5es de pa\u00edses latino-americanos a outros que falam o ingl\u00eas, al\u00e9m da Alemanha e, em menor medida, a Fran\u00e7a, criaram grupos sociais com identidade de origem, que gostariam de manter seu idioma, h\u00e1bitos e costumes, e, consequentemente, suas idiossincrasias. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, a diverg\u00eancia terminar\u00e1 normal e estabelecer\u00e1 dist\u00e2ncias e diferen\u00e7as. O que comp\u00f5e a Ibero-Am\u00e9rica &#8211; como Ricardo Lagos escrevia &#8211; \u00e9 a cultura diversificada em um idioma comum. Apostemos nela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2009, quando a crise econ\u00f4mica eclodiu com todo o seu potencial destrutivo, a Funda\u00e7\u00e3o Carolina publicou um livro especial, coordenado pelo ex-presidente do Governo espanhol, Felipe Gonz\u00e1lez, cuja mem\u00f3ria e conte\u00fado \u00e9 oportuno recuperar. Foi intitulado &#8220;Am\u00e9rica Latina 2020. Desafios diante da crise&#8221;. 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