{"id":477790,"date":"2016-09-06T10:12:52","date_gmt":"2016-09-06T08:12:52","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/patria-ou-morte-patria\/"},"modified":"2026-08-11T12:00:36","modified_gmt":"2026-08-11T10:00:36","slug":"patria-ou-morte-patria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-pt\/ideas\/uno\/patria-ou-morte-patria\/","title":{"rendered":"P\u00e1tria ou morte? P\u00e1tria"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/012_21.jpg\"><\/a><\/p>\n<p>S\u00e3o 11 da noite em Havana. O dia n\u00e3o foi propriamente de sonho para um turista que visita Cuba pela primeira vez, que andou meses poupando para l\u00e1 ir e tudo o que pedia era bom tempo. A chuva caiu copiosamente durante toda a tarde, e o mar do Caribe mais parecia o da Europa do Norte. Revolto, com vontade de engolir toda a terra que lhe aparecesse \u00e0 frente, indiferente aos turistas que atravessaram o Atl\u00e2ntico \u00e0 procura de uns dias de descanso. Depois do jantar restava-me o consolo das deusas de carne que me aguardavam no para\u00edso sob as estrelas. Os ingressos n\u00e3o foram f\u00e1ceis de arranjar, e o espet\u00e1culo no Tropicana, um dos cabar\u00e9s mais antigos e conhecidos de Havana, prometia ser inesquec\u00edvel. \u201cN\u00e3o h\u00e1 luz, o espet\u00e1culo desta noite foi cancelado\u201d, disseram-me \u00e0 entrada. A frente fria que chegara naquela tarde a Havana deixou meia cidade \u00e0s escuras. N\u00e3o era um furac\u00e3o, nem tampouco uma tempestade tropical, era apenas chuva e vento, mas foi o suficiente para provocar estragos numa rede el\u00e9trica fr\u00e1gil e numa cidade onde os geradores existem, mas ou n\u00e3o funcionam, ou n\u00e3o conseguem resolver tudo. Era o meu primeiro choque de realidade com o embargo que dura h\u00e1 d\u00e9cadas. Dei instru\u00e7\u00f5es ao taxista para dar meia volta e voltar para tr\u00e1s. Regresso ao hotel. Desisto. A minha noite acabava ali.<\/p>\n<blockquote><p>Um dos erros mais comuns na pol\u00edtica \u00e9 considerar que ela se basta a si pr\u00f3pria. Que a partir de um roteiro ideol\u00f3gico, seja ele qual for, se consegue construir um Estado<\/p><\/blockquote>\n<p>Lembrei-me daquela noite quando vi a fotografia do Air Force 1 chegar a Havana. A imagem \u00e9 not\u00e1vel, n\u00e3o pela beleza, mas pelo simbolismo que carrega. Tudo aquilo \u00e9 hist\u00f3ria. As casas de lata, os carros de museu, o emaranhado de cabos el\u00e9tricos espalhados de forma an\u00e1rquica pela cidade, as pessoas de olhos postos no c\u00e9u, o avi\u00e3o que traz um presidente dos EUA a Cuba, 88 anos depois. Os 150 quil\u00f4metros mais longos da hist\u00f3ria (\u00e9 a dist\u00e2ncia de Cuba aos EUA) tornaram-se, de repente, mais curtos. Mas, afinal, o que mudou? Por que tanto tempo? Tanto sofrimento? O que mudou no mundo, nos Estados Unidos e em Cuba para tudo se tornar aparentemente t\u00e3o simples? Mudaram os protagonistas da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Um dos erros mais comuns na pol\u00edtica \u00e9 considerar que ela se basta a si pr\u00f3pria. Que a partir de um roteiro ideol\u00f3gico, seja ele qual for, se consegue construir um Estado, independentemente das pessoas e dos protagonistas que est\u00e3o \u00e0 frente desse Estado. Que mais importante que as pessoas s\u00e3o os processos. Quem assim pensa tende a sonhar que um dia a hist\u00f3ria lhe dar\u00e1 raz\u00e3o. Que todos aqueles que discordam desse caminho s\u00e3o apenas limitados, perigosos reacion\u00e1rios que desejam o poder. Foi esse tipo de pensamento que levou a v\u00e1rios conflitos ao longo da hist\u00f3ria. Que provocou ang\u00fastia, sofrimento e morte. Que atrasou civiliza\u00e7\u00f5es, que empobreceu Estados e tornou o mundo mais desigual.<\/p>\n<blockquote><p><em>Patria ou muerte<\/em>. A frase fez hist\u00f3ria e ficou na hist\u00f3ria n\u00e3o como uma pergunta, mas como uma escolha que era dada aos cubanos<\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/www.revista-uno.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/012_11.jpg\"><\/a>No caso de Cuba n\u00e3o h\u00e1 inocentes. Se a luta de um povo pela soberania \u00e9 t\u00e3o leg\u00edtima quanto a luta pela vida, a arrog\u00e2ncia de quem se acha dono da verdade, persegue, prende e mata o pensamento livre, pode destruir por completo qualquer vit\u00f3ria. Mesmo que seja uma vit\u00f3ria contra a ditadura. Foi o que aconteceu em Cuba. A troca de um ditador por outro. Mas h\u00e1 outro tipo de arrog\u00e2ncia. A de quem julga que o poder econ\u00f4mico \u00e9 um cheque em branco na pol\u00edtica, interna e externa. A arrog\u00e2ncia da chantagem, do bloqueio, da press\u00e3o, a arrog\u00e2ncia de querer obrigar um povo a sublevar-se. A arrog\u00e2ncia de um Estado (os EUA) que se aliou a Fulgencio Batista, um ditador de quem o mundo j\u00e1 quase n\u00e3o se lembra, mas os cubanos nunca esquecer\u00e3o. O que mudou em Cuba, o que mudou nos Estados Unidos foram os protagonistas.<\/p>\n<p>O processo n\u00e3o foi, n\u00e3o \u00e9 e n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil. Basta pensar que em 1977 Jimmy Carter deu o primeiro passo, retomando as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, ainda que de forma muito limitada, e foram precisos mais 37 anos para chegarmos a 2014 e ouvirmos Barack Obama anunciar a reabertura do di\u00e1logo diplom\u00e1tico entre os dois pa\u00edses, que permitiu, entre outras coisas, o retorno dos voos regulares entre Cuba e os EUA. Fam\u00edlias reencontraram-se, abra\u00e7aram-se e beijaram-se. Pessoas, como n\u00f3s, que nunca foram como n\u00f3s. Pr\u00f3ximo ao fim do mandato, Barack Obama quis deixar mais uma marca na hist\u00f3ria, indiferente ao que o Senado americano pensa, consciente de que a hist\u00f3ria \u00e9 isso mesmo, hist\u00f3ria. N\u00e3o pode ser apagada, n\u00e3o deve ser ignorada, mas tem sempre uma p\u00e1gina em branco \u00e0 espera de que algu\u00e9m escreva mais alguma coisa. Por outro lado, em Cuba, h\u00e1 um Castro que \u00e9 diferente do irm\u00e3o. Muito diferente? O suficiente para que um presidente americano possa visitar o pa\u00eds 88 anos depois, e a embaixada possa voltar a abrir portas. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa. O amargo na boca que Fidel Castro n\u00e3o conseguiu, nem quis, disfar\u00e7ar depois de ter visto Obama ao lado do irm\u00e3o prova isso mesmo. \u201cN\u00f3s n\u00e3o precisamos que o imp\u00e9rio nos d\u00ea nada\u201d, escreveu o ex-presidente cubano no Granma, o jornal oficial do partido comunista cubano.<\/p>\n<p><em>Patria ou muerte<\/em>. A frase fez hist\u00f3ria e ficou na hist\u00f3ria n\u00e3o como uma pergunta, mas como uma escolha que era dada aos cubanos. Ou somos livres ou mais vale que a morte nos leve. Os cubanos fizeram a escolha certa, mas foram enganados. Escolheram a p\u00e1tria, mas nunca foram verdadeiramente livres. Houve quem quisesse continuar essa luta pela liberdade, e quem o tenha feito com bravura, sem medo da morte mesmo que fosse esse o pre\u00e7o a pagar. <em>Patria ou muerte<\/em>? Acrescentemos-lhe um ponto de interroga\u00e7\u00e3o para que, perante a pergunta, possamos encontrar a resposta certa. Para que, perante as novas circunst\u00e2ncias, possamos finalmente trazer Cuba para o s\u00e9culo 21 e acabar com o gelo de uma guerra que h\u00e1 muito deixou de fazer sentido. <em>Patria ou muerte? Patria<\/em>. Porque a morte s\u00f3 faz sentido quando acaba a esperan\u00e7a e n\u00e3o h\u00e1 alternativa. Porque, em democracia, h\u00e1 sempre alternativa, e a esperan\u00e7a n\u00e3o tem prazo de validade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o 11 da noite em Havana. O dia n\u00e3o foi propriamente de sonho para um turista que visita Cuba pela primeira vez, que andou meses poupando para l\u00e1 ir e tudo o que pedia era bom tempo. 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