{"id":477935,"date":"2017-03-27T18:12:37","date_gmt":"2017-03-27T16:12:37","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/a-pos-verdade-entre-a-falsidade-e-o-engano\/"},"modified":"2017-03-27T14:22:54","modified_gmt":"2017-03-27T12:22:54","slug":"a-pos-verdade-entre-a-falsidade-e-o-engano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-pt\/ideas\/uno\/a-pos-verdade-entre-a-falsidade-e-o-engano\/","title":{"rendered":"A p\u00f3s-verdade: entre a falsidade e o engano"},"content":{"rendered":"<p>Que alcance discursivo cabe atribuir ao surgimento do termo &#8220;p\u00f3s-verdade&#8221; nos debates da atualidade? Ensaiar uma resposta, por mais aproximada que seja, requer transitar pelo territ\u00f3rio das nuances. Quanto a isso, conviria iniciar salientando que, aqueles que celebram a suposta novidade te\u00f3rica da p\u00f3s-verdade, na realidade sustentam que, tendo a no\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica da verdade se tornado obsoleta, segundo eles, esta levou consigo o que deveria ser considerada seu inevit\u00e1vel par: a mentira, que deixou de ser algo conden\u00e1vel per se, ao passar, tamb\u00e9m ela, a ser relativizada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pontua\u00e7\u00e3o resulta essencial n\u00e3o apenas para interpretar adequadamente os termos em discuss\u00e3o, mas tamb\u00e9m para entender, de maneira correta, o diferente eco que estes est\u00e3o promovendo no debate, como tal, dependendo do contexto em que eles surgem. Porque, come\u00e7ando pelo \u00faltimo, n\u00e3o \u00e9 por casualidade que onde o questionamento tenha causado mais alvoro\u00e7o sobre a verdade, tenha sido nos ambientes culturais norte-americanos, no qual, em raz\u00e3o do enorme peso que tenha tido, secularmente, a tradi\u00e7\u00e3o puritana (George Steiner deixou in\u00fameras p\u00e1ginas sobre o assunto em Paix\u00e3o Intacta), a mentira \u00e9 considerada algo, de qualquer ponto de vista, inaceit\u00e1vel, tanto no \u00e2mbito p\u00fablico quanto privado. Parece claro, no entanto, que em nossa cultura \u2013 cat\u00f3lica, para simplificar \u2013 n\u00e3o haja uma tend\u00eancia a considerar as coisas da mesma maneira. Assim, \u00e9 um fato que o mesmo comportamento \u2013 digamos, um engano no \u00e2mbito mais \u00edntimo \u2013, que no mundo anglo-sax\u00e3o que expulsa seu protagonista da vida p\u00fablica, entre n\u00f3s ele seja julgado com enorme benevol\u00eancia e receba uma reprova\u00e7\u00e3o social francamente inferior.<\/p>\n<blockquote><p>A mentira \u00e9 considerada algo, de qualquer ponto de vista, inaceit\u00e1vel, tanto no \u00e2mbito p\u00fablico quanto privado.<\/p><\/blockquote>\n<p>Agora sim, apontadas as diferen\u00e7as contextuais, conv\u00e9m entrar em um detalhe do conte\u00fado dos termos em disputa. Provavelmente, os apologistas da p\u00f3s-verdade tenham sido beneficiados, de maneira il\u00edcita, por um elemento cr\u00edtico que, adequadamente utilizado, n\u00e3o deveria gerar grandes problemas em n\u00f3s. A cr\u00edtica a determinados usos &#8220;r\u00edgidos&#8221; da verdade, sem d\u00favida, resultou saud\u00e1vel em muitos contextos. Assim, o que funciona no campo do conhecimento cient\u00edfico-positivo n\u00e3o pode ser transferido e, menos ainda, passado mecanicamente a quaisquer outras \u00e1reas. Afinal de contas, a Verdade \u2013 absoluta e com letra mai\u00fascula \u2013 h\u00e1 muito tempo foi identificada pelo dogmatismo. Frente a isso, absolutamente ningu\u00e9m coloca em discuss\u00e3o que \u2013 apenas para dar um exemplo \u2013, no \u00e2mbito da cultura resulta t\u00e3o inevit\u00e1vel quanto conveniente inserir a dose apropriada de relativismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas extrapolar esse necess\u00e1rio ponto de ceticismo antidogm\u00e1tico para convert\u00ea-lo em uma nega\u00e7\u00e3o absoluta da possibilidade de nos colocarmos de acordo sobre o que \u00e9 verdadeiro e o que n\u00e3o \u00e9, o que \u00e9 informa\u00e7\u00e3o e o que \u00e9 mera opini\u00e3o, o que \u00e9 descri\u00e7\u00e3o fiel e o que \u00e9 mera interpreta\u00e7\u00e3o, constitui uma fal\u00e1cia inaceit\u00e1vel, de qualquer ponto de vista. Uma fal\u00e1cia que se baseia em uma confus\u00e3o, a de pensar que, na esfera cient\u00edfica, a parceira da verdade \u00e9 a mentira quando, na realidade, este lugar \u00e9 ocupado pela falsidade. Os &#8220;erros&#8221; da esfera cient\u00edfica n\u00e3o s\u00e3o mentiras, mas inverdades e, deste modo, ningu\u00e9m pode colocar em causa a sua qualidade como tal \u2013 ou ser\u00e1 que algu\u00e9m consideraria uma p\u00f3s-verdade merit\u00f3ria o questionamento da lei dos corpos em queda? Por outro lado, as mentiras residem no \u00e2mbito humano e se op\u00f5em \u00e0 sinceridade. Se tiv\u00e9ssemos que dizer isso de uma maneira firme, dir\u00edamos que &#8220;algo&#8221; \u00e9 falso, enquanto &#8220;algu\u00e9m&#8221; diz uma mentira. Formulando isto ainda mais sistematicamente: mentira \u00e9 esse erro que depende do interlocutor \u2013 n\u00e3o se mente sem querer.<\/p>\n<blockquote><p>Uma fal\u00e1cia que se baseia em uma confus\u00e3o, a de pensar que, na esfera cient\u00edfica, a parceira da verdade \u00e9 a mentira quando, na realidade, este lugar \u00e9 ocupado pela falsidade.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o nos privemos de colocar exemplos: os dados utilizados antes do referendo dos partid\u00e1rios do Brexit para convencer aos cidad\u00e3os brit\u00e2nicos sobre a conveni\u00eancia de deixar a UE eram, em si mesmos, falsos e, al\u00e9m disso, mentira, a partir do momento em que foram divulgados pelos primeiros, sabendo de sua falsidade. Referir-se aos mesmos, em termos de p\u00f3s-verdade n\u00e3o deixa de ser mais uma forma de fazer rodeios, se me permitem usar uma express\u00e3o coloquial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo, conv\u00e9m rejeitar um desenho que n\u00e3o deixe mais op\u00e7\u00f5es do que o de levantar a quest\u00e3o a partir da vis\u00e3o cient\u00edfica, ou talvez da moral \u2013 um t\u00e3o inquestion\u00e1vel, o outro t\u00e3o escorregadio. Diante de tal dilema, talvez resulte conveniente introduzir a hip\u00f3tese de que o \u00faltimo valor a se defender n\u00e3o seja a verdade nem a sinceridade; o \u00faltimo valor deve ser a comunica\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico, dentro da perspectiva de debater, democraticamente, aquilo que conv\u00e9m a todos. Neste horizonte, \u00e9 preciso enquadrar quaisquer propostas te\u00f3rico-pol\u00edticas, incluindo a p\u00f3s-verdade. Por isso, vale a pena tentar atinar para uma formula\u00e7\u00e3o mais ponderada poss\u00edvel, que evite nos fazer ser arrastados por conclus\u00f5es, muitas vezes confusas, dicotomias como as que temos comentado at\u00e9 agora \u2013 para n\u00e3o mencionar o mais que recente conceito dos alternative facts, cunhado por Kellyanne Conway, conselheira-s\u00eanior do executivo da presid\u00eancia de Donald Trump.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Qui\u00e7\u00e1 o fato de colocar as coisas em termos de p\u00f3s-verdade, longe de esclarecer qualquer coisa, cumpra com as resson\u00e2ncias provocadoras \u2013 metade do caminho entre a epistemologia e a moral \u2013, na fun\u00e7\u00e3o de desviar nossa aten\u00e7\u00e3o sobre aquilo que mais importa, que n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o o imperativo com qual deveria ser regido o debate p\u00fablico. Deixe-me dizer assim para concluir: n\u00e3o deveria resultar admiss\u00edvel, sob nenhum conceito, e de nenhuma forma, na esfera p\u00fablica, enganar aos cidad\u00e3os.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que alcance discursivo cabe atribuir ao surgimento do termo &#8220;p\u00f3s-verdade&#8221; nos debates da atualidade? Ensaiar uma resposta, por mais aproximada que seja, requer transitar pelo territ\u00f3rio das nuances. 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