{"id":478178,"date":"2018-09-10T15:00:24","date_gmt":"2018-09-10T13:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/a-intrusao-tecnologica\/"},"modified":"2018-09-11T09:47:23","modified_gmt":"2018-09-11T07:47:23","slug":"a-intrusao-tecnologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-pt\/ideas\/uno\/a-intrusao-tecnologica\/","title":{"rendered":"A intrus\u00e3o tecnol\u00f3gica"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 poucos anos, a maioria dos analistas tecnol\u00f3gicos e sociais comungavam a cren\u00e7a proferida por Al Gore, ex-candidato \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos, sobre o que representava a Internet: <em>&#8220;\u00c9 um novo meio de comunica\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel e uma grande esperan\u00e7a para a futura vitalidade da democracia&#8221;<\/em>. Atualmente, esses mesmos observadores creem em uma vis\u00e3o mais realista do que, at\u00e9 2017, o CEO do <em>Google<\/em>, Eric Schmidt, descreveu como Internet &#8211; &#8220;a maior experi\u00eancia de anarquia que j\u00e1 experimentamos&#8221;. Entre o otimismo de Gore e ceticismo preocupado de Schmidt, um reconhecimento mais realista deveria ser formulado, considerando a Internet como um enorme ve\u00edculo de conhecimento, que democratiza o saber, conecta cidad\u00e3os e as sociedades e pulveriza os conceitos de espa\u00e7o e tempo, enfatizando imediatamente tamb\u00e9m que a Internet carrega o que hoje denominamos vulnerabilidades e riscos, cuja capacidade de evitar e neutralizar devem surgir da pr\u00f3pria rede.<\/p>\n<p>A digitaliza\u00e7\u00e3o da economia, das rela\u00e7\u00f5es sociais, das comunica\u00e7\u00f5es, do conhecimento, do emprego e do trabalho&#8230; s\u00e3o conquistas extraordin\u00e1rias do nosso tempo, mas que implicam em riscos que devemos abordar, porque a tecnologia digital alcan\u00e7ou tal grau de expans\u00e3o, que tornou o mundo t\u00e3o dependente de seus ditames, a ponto de falarmos de uma intrus\u00e3o que est\u00e1 violando valores e princ\u00edpios necess\u00e1rios \u00e0 conviv\u00eancia, \u00e0 boa ordem da sociedade e \u00e0 sa\u00fade das pessoas. As vulnerabilidades verificadas com as novas tecnologias s\u00e3o, por assim dizer, de tr\u00eas ordens. A primeira, aquela que afeta os cidad\u00e3os em sua vida cotidiana; a segunda, que diz respeito \u00e0s sociedades dependentes da tecnologia da informa\u00e7\u00e3o; e a terceira, que impacta a pol\u00edtica e, principalmente, um aspecto inerente a ela: a pol\u00edtica de defesa.<\/p>\n<blockquote><p>A tecnologia digital alcan\u00e7ou tal grau de expans\u00e3o, a ponto de falarmos de uma intrus\u00e3o que est\u00e1 violando valores e princ\u00edpios necess\u00e1rios<\/p><\/blockquote>\n<p>Tecnicamente, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade ainda n\u00e3o reconhece que h\u00e1 um v\u00edcio digital afetando as pessoas. At\u00e9 o momento s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel falar, de acordo com a organiza\u00e7\u00e3o, de um uso excessivo da Internet. No entanto, existem evid\u00eancias suficientes para afirmar que n\u00e3o demorar\u00e1 muito para se descrever o uso intensivo de redes como um v\u00edcio que pode ser tratado por terapias psicol\u00f3gicas e, at\u00e9 mesmo, farmacol\u00f3gicas, visto que o uso de novas tecnologias gera ansiedade e at\u00e9 mesmo causa dist\u00farbios emocionais graves. O uso universal do telefone celular j\u00e1 \u00e9 um h\u00e1bito intergeracional, no qual toda uma heran\u00e7a pessoal de conhecimento e um substitutivo para a mem\u00f3ria \u00e9 armazenado.<\/p>\n<p>\u00c9 crescente e incessante o n\u00famero de aplicativos, o uso do celular como suporte substituto para a TV, como rel\u00f3gio, alarme, meio de comunica\u00e7\u00e3o de voz, artefato de socializa\u00e7\u00f5es das mais variadas naturezas por meio do WhatsApp, como um terceiro bra\u00e7o, quase f\u00edsico, dos indiv\u00edduos, causando um tipo de depend\u00eancia \u2013 seja ou n\u00e3o viciante &#8211; que modificou os comportamentos e introduziu outros padr\u00f5es de relacionamento e concep\u00e7\u00e3o de vida na sociedade. Da socializa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica surge outra vulnerabilidade muito grave, como se viu em mar\u00e7o deste ano: o vazamento de dados de at\u00e9 50 milh\u00f5es de usu\u00e1rios do Facebook. Um grande rev\u00e9s para a ciberseguran\u00e7a mundial, com consequ\u00eancias em diversas \u00e1reas, especialmente no \u00e2mbito da interfer\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<blockquote><p>As novas tecnologias t\u00eam sido parasitadas por vertentes criminosas, for\u00e7ando uma reformula\u00e7\u00e3o da prepara\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o das for\u00e7as policiais<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa depend\u00eancia digital est\u00e1 sendo explorada na perpetra\u00e7\u00e3o de novos tipos de delitos (cibercrime), alguns deles particularmente preocupantes, como \u00e9 o <em>cyberbullying<\/em>, que est\u00e1 se convertendo em uma esp\u00e9cie de praga, concorrendo com outras manifesta\u00e7\u00f5es criminais especialmente s\u00f3rdidas, como a pornografia infantil, as redes de pedofilia, o tr\u00e1fico de subst\u00e2ncias proibidas e de pessoas&#8230; Em suma, as novas tecnologias t\u00eam sido parasitadas por vertentes criminosas, for\u00e7ando uma reformula\u00e7\u00e3o da prepara\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o das for\u00e7as policiais, que extraem das possibilidades tecnol\u00f3gicas vantagens para a investiga\u00e7\u00e3o de crimes e a pris\u00e3o de seus respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>A falsidade institucionalizada \u2013 segunda vulnerabilidade \u2013 \u00e9 denominada <em>fake news<\/em>, realidades alternativas e p\u00f3s-verdades: vers\u00f5es mentirosas de uma realidade dificilmente comprov\u00e1vel e que apela para as emo\u00e7\u00f5es e que constituem uma praga cujo cont\u00e1gio n\u00e3o seria poss\u00edvel sem as novas tecnologias. O problema da desinforma\u00e7\u00e3o e a distor\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 uma das vulnerabilidades mais evidentes propiciadas pelas novas tecnologias, sem que essas pr\u00f3prias solu\u00e7\u00f5es digitais tenham localizado solu\u00e7\u00f5es \u00f3bvias, al\u00e9m das plataformas de verifica\u00e7\u00e3o que est\u00e3o surgindo para lidar com esses excessos. O fato de muitos pol\u00edticos e l\u00edderes inescrupulosos utilizarem esses recursos falsos em suas campanhas ou para fortalecer suas decis\u00f5es diante da opini\u00e3o p\u00fablica, cria um novo paradigma para o exerc\u00edcio das lideran\u00e7as p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Pela primeira vez em muitos anos de hist\u00f3ria, o F\u00f3rum de Davos \u2013 que se re\u00fane anualmente na cidade su\u00ed\u00e7a, e cujos conte\u00fados vem sendo fundamentalmente financeiros \u2013 criou um Centro Global de Seguran\u00e7a para a Ciberseguran\u00e7a, em opera\u00e7\u00e3o desde mar\u00e7o do ano passado. Esta iniciativa foi precedida por um <em>Relat\u00f3rio de Risco Global<\/em> (2018), que aconselhava que a seguran\u00e7a de computadores fosse um dos temas centrais do evento porque &#8220;<em>os ataques cibern\u00e9ticos em todo o mundo s\u00e3o o risco que mais preocupa l\u00edderes empresariais das economias mais avan\u00e7adas<\/em>&#8220;. Especialistas do F\u00f3rum passaram um ano inteiro dedicados ao desenvolvimento de um manual de resili\u00eancia cibern\u00e9tica, no qual identificam 14 \u00e1reas onde pode haver coopera\u00e7\u00e3o entre os setores p\u00fablico e privado.<\/p>\n<p>J\u00e1 falamos sobre como as vulnerabilidades provocadas pelas novas tecnologias afetam a seguran\u00e7a de empresas e dos Estados, o que incorre na necessidade de uma estreita colabora\u00e7\u00e3o e uma revis\u00e3o cop\u00e9rnica dos instrumentos de garantia para os ativos digitais das companhias e para estabelecer os crit\u00e9rios de blindagem das medidas de seguran\u00e7a (defesa e resposta) dos Estados, frente aos inimigos externos. A possibilidade de hackear at\u00e9 os segredos mais \u00edntimos e estrat\u00e9gicos das grandes empresas (base de dados, f\u00f3rmula de produ\u00e7\u00e3o, redes de comercializa\u00e7\u00e3o, patentes) e dos Estados (ativos nucleares ofensivos e defensivos, linhas de investiga\u00e7\u00e3o sobre riscos b\u00e9licos, informa\u00e7\u00f5es classificadas sobre agentes hostis, resultados eleitorais) converteram-se em uma prioridade t\u00e1tica, estrat\u00e9gica, pol\u00edtica e empresarial sobre a qual ningu\u00e9m tem d\u00favidas. Na Espanha, devemos destacar com louvor os relat\u00f3rios mensais publicados em Madri pelo <em>The Cyber \u200b\u200bSecurity Think Tank<\/em>, veiculados a partir do Instituto <em>Elcano<\/em>, verdadeiramente l\u00edderes na an\u00e1lise de seguran\u00e7a e defesa no ciberespa\u00e7o.<\/p>\n<blockquote><p>As vulnerabilidades provocadas pelas novas tecnologias afetam a seguran\u00e7a de empresas e dos Estados, o que incorre na necessidade de uma estreita colabora\u00e7\u00e3o e uma revis\u00e3o cop\u00e9rnica dos instrumentos de garantia<\/p><\/blockquote>\n<p>De um modo geral, estas s\u00e3o as principais linhas de intrus\u00e3o tecnol\u00f3gica no nosso tempo. Trata-se de uma nova amea\u00e7a, como contrapartida de tantos benef\u00edcios proporcionados pelas novas tecnologias. Nunca houve um fen\u00f4meno hist\u00f3rico que tenha surgido sozinho e tenha sido totalmente ben\u00e9fico. Pelo contr\u00e1rio, todos t\u00eam seus benef\u00edcios e seus problemas. Agora estamos na luta para corrigir os excessos da digitaliza\u00e7\u00e3o, que incorrem em vulnerabilidades capazes de causar desastres reais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 poucos anos, a maioria dos analistas tecnol\u00f3gicos e sociais comungavam a cren\u00e7a proferida por Al Gore, ex-candidato \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos, sobre o que representava a Internet: &#8220;\u00c9 um novo meio de comunica\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel e uma grande esperan\u00e7a para a futura vitalidade da democracia&#8221;. 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