{"id":478548,"date":"2023-07-04T19:12:10","date_gmt":"2023-07-04T17:12:10","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/de-parceiros-naturais-a-parceiros-preferenciais\/"},"modified":"2023-07-04T17:57:53","modified_gmt":"2023-07-04T15:57:53","slug":"de-parceiros-naturais-a-parceiros-preferenciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-pt\/ideas\/uno\/de-parceiros-naturais-a-parceiros-preferenciais\/","title":{"rendered":"De parceiros naturais a parceiros preferenciais"},"content":{"rendered":"<p>O ano de 2023 marcar\u00e1 um ponto de viragem nas rela\u00e7\u00f5es entre a UE e a Am\u00e9rica Latina e Cara\u00edbas. Na atual din\u00e2mica de inflex\u00e3o geopol\u00edtica mundial, na sequ\u00eancia dos efeitos da pandemia e da guerra de agress\u00e3o da R\u00fassia contra a Ucr\u00e2nia, todos n\u00f3s tivemos de recalibrar a nossa b\u00fassola estrat\u00e9gica. No caso da Am\u00e9rica Latina e das Cara\u00edbas (ALC), isso levou-nos, felizmente, e ap\u00f3s demasiados anos de uma certa in\u00e9rcia complacente, a elaborar um roteiro birregional acordado com os 33 membros da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), aprovado pelos ministros dos Neg\u00f3cios Estrangeiros em outubro do ano passado em Buenos Aires e que culminar\u00e1 na Cimeira UE-Celac de Chefes de Estado e de Governo, a 17 e 18 de julho em Bruxelas, a primeira desde 2015. <\/p>\n<p>No \u00e2mbito destes esfor\u00e7os, que designamos por &#8220;Rumo a 2023&#8221; (The Road to 2023), o Col\u00e9gio de Comiss\u00e1rios adotou, no passado dia 7 de junho, a nova Comunica\u00e7\u00e3o Conjunta do Alto Representante e da Comiss\u00e3o ao Parlamento e ao Conselho, que prop\u00f5e uma &#8220;Nova Agenda para as rela\u00e7\u00f5es entre a UE e a ALC&#8221;. Esta prop\u00f5e uma parceria estrat\u00e9gica modernizada e mais forte, atrav\u00e9s do refor\u00e7o do di\u00e1logo pol\u00edtico, do est\u00edmulo ao com\u00e9rcio e ao investimento e da promo\u00e7\u00e3o de sociedades mais sustent\u00e1veis, justas e interligadas atrav\u00e9s dos investimentos no \u00e2mbito do Global Gateway.<\/p>\n<p>No contexto de uma emerg\u00eancia clim\u00e1tica, e enquanto grande parte do mundo ainda est\u00e1 a recuperar dos efeitos devastadores da pandemia, as ondas de choque da guerra de agress\u00e3o da R\u00fassia contra a Ucr\u00e2nia atingem-nos a todos, amea\u00e7ando a seguran\u00e7a alimentar, as trocas comerciais e o fornecimento energ\u00e9tico \u00e0 escala mundial. Para n\u00e3o falar da vontade de corroer os valores democr\u00e1ticos e a ordem internacional baseada em regras e no respeito pela soberania dos Estados. <\/p>\n<blockquote><p>O que est\u00e1 em risco \u00e9 o nosso modelo de vida, baseado na democracia, nos direitos humanos, na prosperidade e no bem-estar atrav\u00e9s de um desenvolvimento sustent\u00e1vel e inclusivo<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma an\u00e1lise que se limite a considerar esta amea\u00e7a como um simples reordenamento dos equil\u00edbrios geopol\u00edticos entre as pot\u00eancias mundiais n\u00e3o ajuda os mais de mil milh\u00f5es de cidad\u00e3os da Am\u00e9rica Latina e das Cara\u00edbas e da Uni\u00e3o Europeia a terem plena consci\u00eancia do que est\u00e1 em jogo.  O que est\u00e1 em risco \u00e9 o nosso modelo de vida, baseado na democracia, nos direitos humanos, na prosperidade e no bem-estar atrav\u00e9s de um desenvolvimento sustent\u00e1vel e inclusivo, e uma ordem internacional, consagrada na Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, baseada em regras, na resolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de conflitos e no respeito pela soberania dos Estados. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso, nem \u00e9 a primeira vez na nossa hist\u00f3ria recente, que as manifesta\u00e7\u00f5es de descontentamento pol\u00edtico que afetam as sociedades democr\u00e1ticas de ambos os lados do Atl\u00e2ntico ocorrem em tempos de crise econ\u00f3mica, desigualdade social e incerteza geopol\u00edtica. Nem que certos intervenientes dediquem esfor\u00e7os e recursos consider\u00e1veis para promover uma narrativa que aprofunda a crise da democracia, apresentando-a como modelo separado, muito conscientes de que a voca\u00e7\u00e3o de universalidade dos direitos humanos e dos valores democr\u00e1ticos \u00e9 incompat\u00edvel com os sistemas totalit\u00e1rios.  <\/p>\n<p>O refor\u00e7o das rela\u00e7\u00f5es UE-ALC n\u00e3o \u00e9 apenas um assunto pendente com um aliado estrat\u00e9gico, mas uma necessidade imperiosa para a comunidade internacional enfrentar com \u00eaxito os tr\u00eas grandes desafios globais que marcar\u00e3o o s\u00e9culo XXI: as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e a inclus\u00e3o social. <\/p>\n<p>Um contrato social mais justo e sustent\u00e1vel \u00e9 essencial para defender a democracia e para garantir a prosperidade a longo prazo dos nossos cidad\u00e3os, com base numa transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e digital inclusiva, com justi\u00e7a social, sem deixar ningu\u00e9m para tr\u00e1s. <\/p>\n<blockquote><p>Dizemos frequentemente que ambas as regi\u00f5es s\u00e3o semelhantes em termos de valores, tradi\u00e7\u00e3o e cultura, e que partilham la\u00e7os estreitos em todos os dom\u00ednios. \u00c9 verdade, mas n\u00e3o \u00e9 suficiente<\/p><\/blockquote>\n<p>Dizemos frequentemente que ambas as regi\u00f5es s\u00e3o semelhantes em termos de valores, tradi\u00e7\u00e3o e cultura, e que partilham la\u00e7os estreitos em todos os dom\u00ednios. \u00c9 verdade, mas n\u00e3o \u00e9 suficiente. Num mundo onde uma pot\u00eancia autocr\u00e1tica amea\u00e7a usar armas nucleares, h\u00e1 pouco espa\u00e7o para romantismo ou complexos hist\u00f3ricos. A nossa parceria assenta em bases s\u00f3lidas e complementares, interesses concorrentes, desafios comuns e oportunidades partilhadas. A UE \u00e9 o terceiro maior destino das exporta\u00e7\u00f5es latino-americanas e o principal investidor na regi\u00e3o. Dispomos de uma das mais densas redes de acordos pol\u00edticos e comerciais com 31 pa\u00edses da regi\u00e3o. A UE \u00e9 tamb\u00e9m o maior contribuinte de ajuda ao desenvolvimento na regi\u00e3o. <\/p>\n<blockquote><p>Os grandes desafios globais que enfrentamos n\u00e3o podem ser resolvidos numa ou mais Cimeiras internacionais. \u00c9 necess\u00e1ria a participa\u00e7\u00e3o de todos os intervenientes da sociedade civil e do setor privado<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 uma pot\u00eancia ambiental global, que alberga mais de metade da biodiversidade mundial, e gera energia renov\u00e1vel que representa 33 % do fornecimento energ\u00e9tico, em compara\u00e7\u00e3o com uma m\u00e9dia global de apenas 13 %. Os nossos parceiros querem tirar partido das novas transi\u00e7\u00f5es para industrializar setores-chave e valorizar a sua capacidade produtiva. A ALC quer crescer, mas com maior igualdade e sustentabilidade. A UE, por seu lado, possui capacidade tecnol\u00f3gica e de investimento, mas tamb\u00e9m precisa de alian\u00e7as com parceiros fi\u00e1veis para diversificar as suas cadeias de fornecimento.<\/p>\n<p>A autonomia e a capacidade de influ\u00eancia num mundo multipolar s\u00e3o refor\u00e7ados pela geometria vari\u00e1vel das alian\u00e7as com parceiros estrat\u00e9gicos. A nossa parceria com a Am\u00e9rica Latina e as Cara\u00edbas deve tamb\u00e9m ser mais estrat\u00e9gica no dom\u00ednio multilateral e da seguran\u00e7a. Concordamos igualmente com a necessidade urgente de reformar a arquitetura do sistema multilateral e da seguran\u00e7a internacional, ultrapassando a l\u00f3gica ultrapassada dos &#8220;vencedores e vencidos&#8221; de h\u00e1 oitenta anos, para o tornar mais inclusivo, mais justo e mais democr\u00e1tico e, por conseguinte, mais eficaz.  Em suma, n\u00e3o se trata apenas de reconhecer que somos parceiros naturais, mas que temos de transformar a nossa parceria para nos tornarmos parceiros preferenciais. A import\u00e2ncia que a UE e a ALC atribuem \u00e0 justi\u00e7a social e a uma transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e digital justas distingue-nos claramente de outros intervenientes.<\/p>\n<p>A Cimeira n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesma, mas constituir\u00e1 um marco pol\u00edtico, reunindo os l\u00edderes de 60 Estados e da Uni\u00e3o Europeia em Bruxelas para um di\u00e1logo franco e inclusivo que lan\u00e7ar\u00e1 as bases de uma parceria estrat\u00e9gica birregional renovada durante os pr\u00f3ximos anos, incluindo uma maior regularidade nos nossos di\u00e1logos pol\u00edticos de alto n\u00edvel, bem como a cria\u00e7\u00e3o de um mecanismo de coordena\u00e7\u00e3o permanente. <\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que os grandes desafios globais que enfrentamos n\u00e3o podem ser resolvidos numa ou mais Cimeiras internacionais. \u00c9 necess\u00e1ria a participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 dos governos e das institui\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m de todos os intervenientes da sociedade civil e do setor privado. Os mais de 230 milh\u00f5es de jovens de ambos os lados do Atl\u00e2ntico t\u00eam muito a dizer na forma\u00e7\u00e3o desta comunidade transatl\u00e2ntica de cidad\u00e3os para ajudar a construir um mundo mais justo, sustent\u00e1vel e seguro. \u00c9 por isso que damos grande import\u00e2ncia ao f\u00f3rum da sociedade civil, juventude e governos locais e \u00e0 mesa redonda das empresas, que ter\u00e3o lugar em Bruxelas nos dias que antecedem a Cimeira.<\/p>\n<p>O potencial \u00e9 imenso, mas \u00e9 necess\u00e1ria vontade pol\u00edtica e mobiliza\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os para o desenvolver com determina\u00e7\u00e3o. Estamos empenhados numa parceria estrat\u00e9gica centrada nas pessoas, em benef\u00edcio dos nossos cidad\u00e3os de ambos os lados do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 2023 marcar\u00e1 um ponto de viragem nas rela\u00e7\u00f5es entre a UE e a Am\u00e9rica Latina e Cara\u00edbas. 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