{"id":478807,"date":"2022-05-23T10:45:00","date_gmt":"2022-05-23T08:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/ideas\/uno-1-entrevista-com-anton-costas-por-jose-antonio-llorente\/"},"modified":"2022-11-17T10:56:27","modified_gmt":"2022-11-17T09:56:27","slug":"uno-1-entrevista-com-anton-costas-por-jose-antonio-llorente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-pt\/ideas\/uno\/uno-1-entrevista-com-anton-costas-por-jose-antonio-llorente\/","title":{"rendered":"UNO +1 Entrevista com Ant\u00f3n Costas por Jos\u00e9 Antonio Llorente"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ant\u00f3n Costas (Vigo, 1949) \u00e9 um dos principais economistas espanh\u00f3is. \u00c9 autor de um amplo trabalho sobre pol\u00edtica econ\u00f3mica, reformas institucionais, processos de liberaliza\u00e7\u00e3o e situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e pol\u00edtica em Espanha e na Europa, e \u00e9 Professor Catedr\u00e1tico de Pol\u00edtica Econ\u00f3mica na Universidade de Barcelona. Mas tamb\u00e9m desempenhou um papel not\u00e1vel \u00e0 frente de institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil \u2014 foi presidente do Cercle d&#8217;Economia \u2014 e de organismos oficiais: hoje, \u00e9 presidente do Conselho Social e Econ\u00f3mico do Governo espanhol.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesta conversa, revisitamos algumas das quest\u00f5es que abordou no seu \u00faltimo livro, \u201cLaberintos de la prosperidad\u201d: a rela\u00e7\u00e3o potencialmente criativa e ben\u00e9fica entre o mercado e o Estado, a necessidade de ter boas empresas que criem bons empregos, a transforma\u00e7\u00e3o digital e ecol\u00f3gica sob a \u00e9gide dos fundos europeus e, sobretudo, os desafios de forjar uma economia inclusiva que ele descreve como \u201cum novo contrato social centrado nos bons empregos\u201d.<\/span><\/p>\n<p><b>Nos \u00faltimos anos, alguns grupos sociais n\u00e3o s\u00f3 perderam a prosperidade, como perderam as expetativas de a encontrar novamente.\u00a0\u00a0No seu \u00faltimo livro, \u201cLaberintos de la prosperidad\u201d, falou da renova\u00e7\u00e3o do contrato social para voltar a encontrar essa prosperidade inclusiva. Que tipo de contrato social \u00e9 necess\u00e1rio para reativar a economia de uma forma justa?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Precisamos de um contrato social que combine uma economia vibrante e inovadora e uma sociedade justa de forma equilibrada. Para isso, este contrato social deve centrar-se na cria\u00e7\u00e3o de bons empregos, para mais pessoas e em mais partes do pa\u00eds. Caso contr\u00e1rio, a falta de expetativas e oportunidades vividas por muitas pessoas, especialmente em cidades pequenas e m\u00e9dias e no mundo rural, levar\u00e1 a uma sociedade muito conflituosa e a uma pol\u00edtica polarizada e autorit\u00e1ria.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ideia de contrato social surgiu da resposta \u00e0 seguinte pergunta: O que \u00e9 que faz uma sociedade liberal e pluralista, com um sistema de economia de mercado a funcionar harmoniosamente, para que o crescimento se reconcilie com o progresso social e que a democracia evite cair na barb\u00e1rie? Isto n\u00e3o se consegue de forma autom\u00e1tica com a economia de mercado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 necess\u00e1ria uma \u201ccola\u201d social, um compromisso moral e pol\u00edtico de quem est\u00e1 bem dentro do sistema para com quem se arrisca a ficar para tr\u00e1s ou, em muitos casos, nas sarjetas da falta de emprego e de rendimentos para levar uma vida digna e educar os seus filhos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No passado, essa cola foi o contrato social p\u00f3s-Guerra Mundial, centrado na redistribui\u00e7\u00e3o e na constru\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas pilares do atual Estado Social. Hoje em dia, na medida em que a desigualdade e a pobreza prov\u00eam principalmente da falta de empregos ou dos maus empregos, precisamos de um contrato social centrado na fase de produ\u00e7\u00e3o, onde os empregos s\u00e3o criados e os sal\u00e1rios s\u00e3o fixados. Tamb\u00e9m na fase de pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, com uma boa educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o profissional dupla na qual as empresas t\u00eam uma responsabilidade fundamental e incontorn\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p><b>Talvez outra das coisas que precisamos de renovar seja a vis\u00e3o dicotomizada do Estado e do mercado. Temos de imaginar novas formas de coopera\u00e7\u00e3o entre o Estado e o mercado, entre o setor p\u00fablico e o privado. Como v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa dicotomia \u00e9 manique\u00edsta e profundamente perturbadora. Numa sociedade liberal, o mercado e o Estado n\u00e3o s\u00e3o mecanismos rivais, mas complementares. O desenvolvimento econ\u00f3mico moderno n\u00e3o pode ser explicado sem a combina\u00e7\u00e3o de ambos. Mas n\u00e3o s\u00f3 com ambos. A prosperidade tem um terceiro pilar: a comunidade. Recentemente, Raghuran Rajan, um c\u00e9lebre economista da Universidade de Chicago e ex-presidente do Banco da \u00cdndia, publicou um livro no qual tenta explicar as causas do profundo mal-estar e polariza\u00e7\u00e3o existentes nos Estados Unidos. O pr\u00f3prio t\u00edtulo \u00e9 ilustrativo da tese que sustenta: \u201cThe Third Pilar. How Markets and the State Leave the Community Behind\u201d. Tamb\u00e9m em Espanha, ao longo dos \u00faltimos trinta anos, esquecemos aqueles que, por todo o pa\u00eds, foram prejudicados e relegados pelas consequ\u00eancias da desindustrializa\u00e7\u00e3o. Temos de devolver oportunidades e expetativas de progresso \u00e0s comunidades que vivem em pequenas e m\u00e9dias cidades e no mundo rural. Para isso, precisamos de pol\u00edticas industriais, de inova\u00e7\u00e3o e de desenvolvimento centradas nas comunidades. N\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, mas \u00e9 essencial se quisermos voltar a reconciliar crescimento com progresso social.<\/span><\/p>\n<blockquote><p>Numa sociedade liberal, o mercado e o Estado n\u00e3o s\u00e3o mecanismos rivais, mas complementares.<\/p><\/blockquote>\n<p><b>H\u00e1 tamb\u00e9m algumas ideias que, durante muito tempo, vimos como uma dicotomia e que certamente n\u00e3o o s\u00e3o: por um lado, a efici\u00eancia econ\u00f3mica. Por outro lado, a justi\u00e7a social. Agora, sabemos que ambas as coisas podem e devem andar de m\u00e3os dadas.<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ideia de que uma sociedade mais equitativa s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada \u00e0 custa da redu\u00e7\u00e3o da efici\u00eancia da economia \u00e9 outra dicotomia frequentemente utilizada no debate p\u00fablico e pol\u00edtico, que sabemos, agora, ser falsa. Quando tirei a minha Licenciatura na universidade, fui obrigado a ler e aprender sobre a chamada lei de Okun: um economista norte-americano muito preocupado com a desigualdade, mas que ficou surpreendido ao descobrir que os dados que conseguiu tratar nos anos 1970 mostravam que havia uma rela\u00e7\u00e3o inversa entre sociedade justa e efici\u00eancia econ\u00f3mica. \u00c9 a famosa imagem do bolo, quer para o repartir melhor sob pena de n\u00e3o crescer, quer para, mais tarde, ver como se reparte melhor. Agora, h\u00e1 pouco mais de cinco anos, utilizando os melhores dados e t\u00e9cnicas estat\u00edsticas que Okun p\u00f4de utilizar, sabemos que n\u00e3o \u00e9 o caso: uma sociedade mais justa leva a uma economia mais eficiente, inovadora e produtiva. Creio que \u00e9 uma verdadeira \u201cepifania\u201d, uma revela\u00e7\u00e3o muito importante e ainda pouco conhecida.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>E parte do problema a resolver \u00e9 o do emprego. A gera\u00e7\u00e3o de bons empregos por parte de boas empresas. Como conseguimos recuperar os bons empregos cuja aus\u00eancia \u00e9 uma das causas da sensa\u00e7\u00e3o de mal-estar sentida por partes significativas da sociedade?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Comprometendo-nos com a cria\u00e7\u00e3o de bons empregos, para mais pessoas e em mais lugares do pa\u00eds. A pergunta \u00e9: Quem cria emprego? Em primeiro lugar, as boas empresas. Temos de promover e incentivar a exist\u00eancia de boas empresas. Para isso, temos de refor\u00e7ar a capacidade inovadora e a produtividade do amplo tecido empresarial, em muitos casos, liliputiano, e do setor terci\u00e1rio. Em segundo lugar, a quantidade de emprego tamb\u00e9m depende de uma boa gest\u00e3o da procura agregada da economia, especialmente nas fases de recess\u00e3o. Na recess\u00e3o de 2008, gerimos mal, com a chamada \u201causteridade\u201d, e o emprego e a atividade econ\u00f3mica mergulharam no po\u00e7o negro da depress\u00e3o durante cinco anos, sem precedentes. Na recess\u00e3o pand\u00e9mica de 2020, gerimos bem, o emprego n\u00e3o entrou em colapso e a atividade econ\u00f3mica recuperou rapidamente. Temos de tirar boas li\u00e7\u00f5es destas duas experi\u00eancias. Cada vez que gerimos mal as crises nos \u00faltimos trinta anos, e permitimos que as recess\u00f5es durassem muitos anos, acrescent\u00e1mos mais uma camada de desemprego de longa dura\u00e7\u00e3o. Espero que, agora, tenhamos aprendido a n\u00e3o o voltar a fazer.<\/span><\/p>\n<p><b>Agora, ap\u00f3s a pandemia, estamos a entrar numa fase que esperamos que seja de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, mesmo que a guerra na Ucr\u00e2nia o dificulte em grande medida. Mas tamb\u00e9m coincide com duas enormes transforma\u00e7\u00f5es: por um lado, a ecol\u00f3gica e, por outro, a digital. Que desafios e possibilidades v\u00ea nesse duplo processo?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como isto coincide com uma nova era de guerra e com um prolongado conflito geopol\u00edtico e instabilidade nas cadeias de abastecimento globais e uma grave perturba\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os das mercadorias, teremos de encontrar solu\u00e7\u00f5es de compromisso adequadas entre os processos de digitaliza\u00e7\u00e3o e descarboniza\u00e7\u00e3o e assegurar a continuidade da atividade econ\u00f3mica e do emprego.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00e3o momentos para recordar aquela m\u00e1xima de Santo Agostinho nas suas \u201cConfiss\u00f5es\u201d quando pedia ao Senhor que \u201clhe concedesse a castidade, mas n\u00e3o j\u00e1\u201d. Com a descarboniza\u00e7\u00e3o, algo semelhante ir\u00e1 acontecer-nos.\u00a0 A ideia de uma digitaliza\u00e7\u00e3o e uma descarboniza\u00e7\u00e3o \u201cjusta\u201d \u00e9 poderosa, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de alcan\u00e7ar. Insisto mais uma vez na necessidade de pol\u00edticas centradas nos lugares que prestem especial aten\u00e7\u00e3o aos impactos territoriais da descarboniza\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o nos aconte\u00e7a o que aconteceu com a desindustrializa\u00e7\u00e3o do final do s\u00e9culo passado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No que respeita \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o, as novas tecnologias podem ser utilizadas para substituir empregos humanos ou para melhorar a capacidade de inova\u00e7\u00e3o e produtividade das pessoas. N\u00e3o h\u00e1 nenhum fatalismo nisto. Depende da orienta\u00e7\u00e3o que dermos \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica. Na minha opini\u00e3o, o fundamental \u00e9 atingir rapidamente a alfabetiza\u00e7\u00e3o digital b\u00e1sica do conjunto da popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<blockquote><p>A decis\u00e3o de criar os fundos europeus &#8220;Next Generation&#8221; \u00e9 um &#8220;momento hamiltoniano&#8221; para a UE.<\/p><\/blockquote>\n<p><b>Qual a sua opini\u00e3o sobre a dissemina\u00e7\u00e3o de ferramentas europeias inovadoras, tais como os fundos europeus? Acha que mostram que aprendemos com li\u00e7\u00f5es passadas e que podemos fazer as coisas de uma forma mais imaginativa?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A decis\u00e3o de criar os fundos europeus \u201cNext Generation\u201d \u00e9 um \u201cmomento hamiltoniano\u201d da UE. Com esta express\u00e3o, refiro-me a Alexander Hamilton, o primeiro Secret\u00e1rio do Tesouro dos EUA na administra\u00e7\u00e3o de G. Washington, que conseguiu a comunitariza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida dos Estados ap\u00f3s a Guerra da Independ\u00eancia, a emiss\u00e3o da primeira d\u00edvida federal e a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas industriais, de inova\u00e7\u00e3o e desenvolvimento que forjaram a grande na\u00e7\u00e3o que os Estados Unidos s\u00e3o hoje.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Penso que os fundos Next Generation UE, a emiss\u00e3o de d\u00edvida europeia e as novas pol\u00edticas industriais e de inova\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gicas s\u00e3o esse \u201cmomento hamiltoniano\u201d da UE. Uma velha m\u00e1xima cl\u00e1ssica diz que nunca h\u00e1 ventos favor\u00e1veis para quem n\u00e3o tem rumo. Os fundos Next Generation s\u00e3o um extraordin\u00e1rio vento favor\u00e1vel para a transforma\u00e7\u00e3o da economia privada e do setor p\u00fablico espanhol. Agora, precisamos de definir bem o rumo dessa transforma\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>No final, a quest\u00e3o \u00e9 sempre: Como podemos utilizar a economia, as ideias econ\u00f3micas, as ferramentas que nos d\u00e1, para o bem comum?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os meus professores da Faculdade, em particular, os Professores Fabi\u00e1n Estap\u00e9 e Ernest Lluch, ensinaram-me que, devidamente utilizada, a economia \u00e9 uma alavanca extraordin\u00e1ria para o bem comum. Acredito que sim. Os governos podem fazer muito e bem ao bem-estar das pessoas. E a combina\u00e7\u00e3o de uma economia din\u00e2mica e vibrante com uma sociedade justa \u00e9 a melhor combina\u00e7\u00e3o para voltar a civilizar o capitalismo, reconciliando-o com o progresso social e a democracia. \u00c9 uma grande tarefa por fazer. E penso que o podemos fazer. Como os nossos pais e av\u00f3s fizeram ap\u00f3s a Grande Depress\u00e3o dos anos 1930 e a Segunda Guerra Mundial: com um novo contrato social agora centrado nos bons empregos. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3n Costas (Vigo, 1949) \u00e9 um dos principais economistas espanh\u00f3is. \u00c9 autor de um amplo trabalho sobre pol\u00edtica econ\u00f3mica, reformas institucionais, processos de liberaliza\u00e7\u00e3o e situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e pol\u00edtica em Espanha e na Europa, e \u00e9 Professor Catedr\u00e1tico de Pol\u00edtica Econ\u00f3mica na Universidade de Barcelona. 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