{"id":487522,"date":"2026-10-22T09:08:23","date_gmt":"2026-10-22T07:08:23","guid":{"rendered":"https:\/\/llyc.global\/?p=487522"},"modified":"2026-10-22T09:08:43","modified_gmt":"2026-10-22T07:08:43","slug":"america-latina-da-inseguranca-a-integracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llyc.global\/pt-pt\/ideas\/uno\/america-latina-da-inseguranca-a-integracao\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina: da inseguran\u00e7a \u00e0 integra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A Am\u00e9rica Latina est\u00e1 a registar uma forte viragem para a direita pol\u00edtica. Ao mesmo tempo, intensifica-se a disputa entre os Estados Unidos e a China pelo acesso aos seus recursos e infraestruturas. A economia poderia prosperar gra\u00e7as \u00e0 abund\u00e2ncia de mat\u00e9rias-primas e energia, mas a inseguran\u00e7a continua a ser um pesado entrave. Talvez a receita para superar as enormes dificuldades seja uma maior integra\u00e7\u00e3o regional, para a qual a Europa poderia servir de modelo. Mas ser\u00e1 isto poss\u00edvel?<\/p>\n<p><b>Pablo Garc\u00eda\u2013Berdoy: <\/b>O objetivo de hoje \u00e9 potenciar a experi\u00eancia latino-americana e o conhecimento do panorama internacional de Roc\u00edo Mart\u00ednez-Sampere e Andrea Rizzi, a quem gostaria de apresentar, muito embora sejam j\u00e1 por todos amplamente conhecidos.<\/p>\n<p>Roc\u00edo Mart\u00ednez-Sampere foi deputada por Barcelona no <i>Parlament de Catalunya<\/i> pelo PSC entre 2006 e 2015. Exerceu durante mais de dez anos o cargo de diretora da Funda\u00e7\u00e3o Felipe Gonz\u00e1lez e \u00e9 hoje vice-presidente do respetivo Conselho de Curadores. \u00c9 licenciada em Economia pela Pompeu Fabra e tem um Mestrado em Economia e Governa\u00e7\u00e3o e Pol\u00edticas P\u00fablicas pela <i>London School of Economics<\/i>. Preside igualmente \u00e0 delega\u00e7\u00e3o espanhola das tert\u00falias hispano-brit\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Andrea Rizzi \u00e9 licenciado em Direito pela Sapienza de Roma e pela Universidade Livre de Bruxelas. Trabalha no <i>El Pa\u00eds<\/i> desde 2004, salvo erro, \u00e9 atualmente o respons\u00e1vel por Assuntos Globais e assina uma coluna semanal de opini\u00e3o que lemos com enorme interesse. Integra tamb\u00e9m o comit\u00e9 editorial do jornal e \u00e9 autor de uma <i>newsletter<\/i> semanal sobre geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Gostaria de come\u00e7ar por interpelar a Roc\u00edo, para depois abrirmos o di\u00e1logo, sobre a situa\u00e7\u00e3o geral na Am\u00e9rica Latina ap\u00f3s os \u00faltimos processos eleitorais e neste contexto geopol\u00edtico t\u00e3o din\u00e2mico em que nos encontramos.<\/p>\n<p><b>Roc\u00edo Mart\u00ednez-Sampere: <\/b>\u00c9 uma pergunta dif\u00edcil. Pode ser respondida por camadas, mas, se dermos uma primeira pincelada, o que estamos a observar \u00e9 que, nas \u00faltimas doze elei\u00e7\u00f5es, se verificou uma viragem total para governos de direita.<\/p>\n<p>Agora vamos assistir \u00e0 segunda volta no Brasil. Por\u00e9m, se se consolidar a vit\u00f3ria de Fl\u00e1vio Bolsonaro, teremos um continente que mudou por completo de sinal pol\u00edtico face \u00e0 vaga vermelha de h\u00e1 alguns anos. As exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o o Uruguai, Ar\u00e9valo na Guatemala \u2013 que tem elei\u00e7\u00f5es no pr\u00f3ximo ano \u2013 e o caso do M\u00e9xico, com Claudia Sheinbaum. N\u00e3o \u00e9 um problema por si s\u00f3, mas \u00e9-o no caso de alguns presidentes, como De la Espriella na Col\u00f4mbia ou o pr\u00f3prio Bolsonaro, que s\u00e3o figuras profundamente polarizadoras e cism\u00e1ticas. E isso surge em sociedades onde muitos dos seus antecessores tamb\u00e9m o tinham sido e nas quais, portanto, o sistema institucional e democr\u00e1tico entra em crise.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 complexo abordar a regi\u00e3o latino-americana em termos gen\u00e9ricos. Digo sempre em tom de brincadeira que a p\u00e1tria latino-americana existe na publicidade da Avianca e pouco mais. A integra\u00e7\u00e3o regional continua a ser uma tarefa pendente. Ainda assim, para manter esta pincelada sobre o conjunto da regi\u00e3o, digamos que subsistem grandes interroga\u00e7\u00f5es sobre a solidez institucional e a for\u00e7a democr\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 um exclusivo da Am\u00e9rica Latina; acontece tamb\u00e9m nos Estados Unidos ou na Europa. Mas, no caso latino-americano, pode afigurar-se mais relevante ou mais perigoso, se me permites o termo.<\/p>\n<p>Isto no plano pol\u00edtico. No plano econ\u00f3mico, n\u00e3o sou pessimista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 regi\u00e3o. Paradoxalmente, a Am\u00e9rica Latina \u00e9 uma geografia plenamente preparada para o s\u00e9culo XXI. \u00c9 uma regi\u00e3o dotada de recursos naturais, sobretudo minerais cruciais para todas as novas tecnologias. Tem energia, tem \u00e1gua, tem alimentos, tem uma popula\u00e7\u00e3o com acesso a forma\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tem conflitos \u2013 e sublinho que estamos a sintetizar a quest\u00e3o de forma algo simplificada \u2013 e situa-se geopoliticamente distante das zonas de conflito mundial. \u00c9 uma regi\u00e3o estrat\u00e9gica para o s\u00e9culo XXI e, por conseguinte, no plano econ\u00f3mico, n\u00e3o tem motivos para correr mal.<\/p>\n<p>Quem lhe est\u00e1 a dar aten\u00e7\u00e3o? Essa ser\u00e1, presumo, parte da nossa conversa. Os europeus continuam a investir mais do que a China na regi\u00e3o, embora n\u00e3o o pare\u00e7a, uma vez que a China investe com maior crit\u00e9rio estrat\u00e9gico. E, acima de tudo neste momento, o continente est\u00e1 fortemente condicionado pela influ\u00eancia dos Estados Unidos e da administra\u00e7\u00e3o Trump, que se est\u00e1 a converter numa esp\u00e9cie de nova Doutrina Monroe alaranjada.<\/p>\n<p>Com todo o impacto inerente, da Venezuela a Cuba, mas tamb\u00e9m em todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Central. Se a Europa n\u00e3o reagir e n\u00e3o assumir o papel pol\u00edtico e geopol\u00edtico que lhe cabe \u2013 designadamente pela m\u00e3o de Espanha, por ser estrategicamente a via mais inteligente e politicamente a mais correta \u2013, \u00e9 prov\u00e1vel que todas as oportunidades que se abrem para o s\u00e9culo XXI voltem a redundar em frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Pablo: <\/b>Andrea, a pincelada \u00e9 inevit\u00e1vel. Al\u00e9m disso, creio que as pinceladas s\u00e3o sempre \u00fateis, n\u00e3o \u00e9? Porque, quando se come\u00e7a a pintar um quadro, a prioridade \u00e9 definir o fundo. Come\u00e7a pelo teu fundo latino-americano.<\/p>\n<p><b>Andrea Rizzi: <\/b>Partilho da an\u00e1lise l\u00facida da Roc\u00edo e posso talvez complementar algumas dessas linhas mestras. Em primeiro lugar, no que toca \u00e0 dimens\u00e3o pol\u00edtica. A Roc\u00edo destacou esta expressiva viragem \u00e0 direita. Gostaria de sublinhar que, a meu ver, uma das raz\u00f5es subjacentes a este movimento reside na inseguran\u00e7a que se alastra pelo continente. \u00c9 o reflexo de um avan\u00e7o inquietante do crime organizado que, ali\u00e1s, pode vir a ter proje\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da regi\u00e3o, com capacidade para afetar a Europa e, em concreto, Espanha.<\/p>\n<p>Trata-se de um ponto que as autoridades europeias deviam ter no radar. Creio que a incapacidade da democracia, em tantos destes pa\u00edses, para dar resposta a este problema de seguran\u00e7a \u00e9 um dos fatores que explica esta viragem \u00e0 direita \u2013 extrema nalguns casos \u2013 e que aciona um mecanismo preocupante que nos deve obrigar a uma reflex\u00e3o coletiva, inclusive deste lado do Oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>E qual \u00e9 esse mecanismo? Julgo que Bukele o sintetiza perfeitamente. H\u00e1 um problema severo de viol\u00eancia e de inseguran\u00e7a em El Salvador. Os sucessivos governos foram incapazes de travar o problema. E, de repente, surge um l\u00edder que promete a resolu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o atrav\u00e9s de vias que, para o formular de modo diplom\u00e1tico, extravasam o quadro do Estado de direito tradicional. Acaba por enviar para a pris\u00e3o uma imensid\u00e3o de pessoas sem julgamento, sem <i>habeas corpus<\/i>, talvez apenas por terem uma tatuagem, e acaba por resolver, em certa medida, a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Deparamo-nos aqui, portanto, com um paradoxo importante que nos deve fazer refletir sobre determinados limites da capacidade operativa das democracias na atualidade.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>E sobre o desafio que, para todos os democratas de qualquer quadrante, prov\u00e9m de propostas populistas e extremistas que, no essencial, prometem ou chegam a facultar a sociedades civis saturadas, exaustas e descontentes solu\u00e7\u00f5es que desrespeitam as balizas do Estado de direito.<\/p>\n<p>Trump adota exatamente o mesmo padr\u00e3o face \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o ilegal origin\u00e1ria da Am\u00e9rica Latina. Implementa uma pol\u00edtica de quase terror com o ICE nas ruas dos Estados Unidos e assegura que ningu\u00e9m cruza a fronteira sul. Estar\u00e1 isto em harmonia com os nossos ideais de Estado de direito democr\u00e1tico? Temo que n\u00e3o, mas estamos perante um desafio de extrema gravidade que nos obriga a uma pondera\u00e7\u00e3o profunda.<\/p>\n<p>Isto no campo pol\u00edtico. No dom\u00ednio econ\u00f3mico, pretendia igualmente complementar a reflex\u00e3o da Roc\u00edo. Creio existir, de forma geral em toda a regi\u00e3o, um problema associado a uma certa estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o continente disp\u00f5e dos ativos que foram h\u00e1 pouco enunciados e que permitem encarar a evolu\u00e7\u00e3o com um cauteloso otimismo. Contudo, em simult\u00e2neo, ao analisar a trajet\u00f3ria, constata-se que quase nenhum destes pa\u00edses foi capaz de escapar \u00e0 armadilha do rendimento m\u00e9dio, o que provoca uma cont\u00ednua eros\u00e3o. Considero que isso tamb\u00e9m acarreta custos, visto que a perspetiva de progresso sustentado fica comprimida, o que fomenta expectativas frustradas; e \u00e9 sobre esse tabuleiro que a geopol\u00edtica se posiciona.<\/p>\n<p>E, neste ponto, procuro tamb\u00e9m aprofundar os argumentos da Roc\u00edo. Assistimos a uma viragem \u00e0 direita ou \u00e0 extrema-direita no continente, a um alinhamento pol\u00edtico evidente com uns Estados Unidos que imp\u00f5em essa doutrina. E em que se materializa este cen\u00e1rio? No facto de a regi\u00e3o estar a come\u00e7ar a interiorizar as linhas vermelhas norte-americanas.<\/p>\n<p>Linhas vermelhas que determinam que n\u00e3o s\u00e3o admiss\u00edveis investimentos em setores estrat\u00e9gicos com origem noutras geografias. Os Estados Unidos n\u00e3o v\u00e3o permitir que um pa\u00eds latino-americano contrate tecnologia sens\u00edvel a fornecedores chineses. N\u00e3o v\u00e3o tolerar que a China controle um porto, seja no Canal do Panam\u00e1, seja no Peru ou noutros pontos estrat\u00e9gicos. Os pa\u00edses est\u00e3o a aprender a lidar com esta nova linha vermelha e com este alinhamento com Washington. Quanto aos restantes intervenientes, europeus inclu\u00eddos, teremos de recalibrar a nossa rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luz dessa nova realidade.<\/p>\n<p><b>Roc\u00edo: <\/b>Creio que o Andrea apontou dois aspetos de enorme relev\u00e2ncia para o presente e para o futuro da regi\u00e3o. O primeiro \u00e9 o fen\u00f3meno Bukele. Ainda ontem estive a conversar sobre a Guatemala, que ter\u00e1 elei\u00e7\u00f5es dentro de um ano, e falaram-me de Neto Bran: o rei do TikTok, que se mascara de <i>Iron Man<\/i>, est\u00e1 a ganhar uma popularidade impressionante num curto espa\u00e7o de tempo e quer ser o Bukele da Guatemala.<\/p>\n<p>Uma das coisas que mais me surpreendeu na regi\u00e3o \u2013 e n\u00e3o se trata de algo recente, mas de h\u00e1 v\u00e1rios anos \u2013 \u00e9 que, a prop\u00f3sito de Bukele, que, como referiste, desconsidera o Estado de direito e o conjunto das conven\u00e7\u00f5es de direito internacional, as pessoas afirmam: \u00abPois, com certeza, mas Bukele alcan\u00e7ou algo crucial, porque a seguran\u00e7a \u00e9 um tema basilar que atravessa longitudinalmente todo o continente, at\u00e9 ao Chile\u00bb.<\/p>\n<p>No entanto, Bukele n\u00e3o constr\u00f3i a campanha nem vence a presid\u00eancia pela inseguran\u00e7a. Esse enfoque surge mais de dois anos depois. Vence as elei\u00e7\u00f5es sob a bandeira anticorrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E, durante tr\u00eas anos, n\u00e3o faz da seguran\u00e7a o tema central. At\u00e9 que come\u00e7a este fen\u00f3meno que mant\u00e9m a regi\u00e3o fascinada, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil replicar isso num pa\u00eds de maior complexidade do que El Salvador: circunscrever a agenda a um \u00fanico t\u00f3pico, ainda que seja a inseguran\u00e7a. Milei tentou essa via na Argentina e n\u00e3o est\u00e1 a ter \u00eaxito. Julgo que esta vaga de novos candidatos a que assistimos em quase todos os pa\u00edses decorre sobretudo da dimens\u00e3o comunicacional. E isso marcar\u00e1 decisivamente muitas campanhas e o pr\u00f3prio perfil dos aspirantes ao poder.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 simples que o fen\u00f3meno Bukele, em sentido pol\u00edtico estrito e focado na seguran\u00e7a, se repita noutras latitudes, o que poder\u00e1 vir a suscitar uma nova onda de insatisfa\u00e7\u00e3o e frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algo que tamb\u00e9m est\u00e1 por demonstrar. Porque, embora saiba que esta vis\u00e3o possa soar pouco apelativa, no fim de contas, quando os pol\u00edticos saem de cena, apenas as institui\u00e7\u00f5es permanecem. Gostaria que fosse poss\u00edvel erradicar a inseguran\u00e7a, at\u00e9 porque ela est\u00e1 na base de qualquer bem-estar c\u00edvico. Sem seguran\u00e7a, perde-se o ponto de partida para qualquer outro debate. \u00c9 a prioridade zero, o alicerce da pir\u00e2mide: a liberdade elementar de sair \u00e0 rua e de levar os filhos \u00e0 escola. Essa \u00e9 a base de tudo. E considero que dispomos de m\u00faltiplos exemplos onde esse objetivo foi alcan\u00e7ado no pleno respeito pelo Estado de direito e pelas conven\u00e7\u00f5es fundamentais de direitos humanos.<\/p>\n<p>Contudo, reitero, o rumo da regi\u00e3o n\u00e3o parece ser esse. H\u00e1 uma procura por figuras ao estilo de Bukele, mas n\u00e3o \u00e9 evidente que, mesmo com a transposi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Bukele para outro pa\u00eds \u2013 maior, mais heterog\u00e9neo e fragmentado nas suas clivagens, nas suas popula\u00e7\u00f5es e na sua coes\u00e3o territorial \u2013, o resultado viesse a ser id\u00eantico.<\/p>\n<p>J\u00e1 no plano econ\u00f3mico, concordo integralmente contigo. A regi\u00e3o re\u00fane as condi\u00e7\u00f5es de que fal\u00e1mos e beneficia de um inequ\u00edvoco <i>offshoring<\/i> por parte dos Estados Unidos. Estamos a abdicar de efici\u00eancia em troca de seguran\u00e7a nas nossas cadeias de valor.Mas a verdade \u00e9 que, se este processo n\u00e3o se traduzir em ganhos reais para as classes m\u00e9dias sob a forma de crescimento \u2013 e em muitos pa\u00edses isso est\u00e1 em causa \u2013, de pouco acabar\u00e1 por servir.<\/p>\n<p>Ou seja: \u00e9 imperativo combater a inseguran\u00e7a de forma eficaz, mas justa. E o crescimento econ\u00f3mico tem de gerar um impacto <i>per capita<\/i> que eleve o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o estes os dois grandes pontos de interroga\u00e7\u00e3o que hoje se colocam \u00e0 regi\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Pablo: <\/b>Gostaria de articular as vossas interven\u00e7\u00f5es com duas reflex\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o contradit\u00f3rias, mas tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o coincidentes.<\/p>\n<p>A primeira reside no facto de podermos considerar que a evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina \u00e9 aut\u00f3ctone. Isto \u00e9, existe um elemento end\u00f3geno e pr\u00f3prio, sem uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o direta com as quest\u00f5es de cariz geopol\u00edtico que se acumularam sobre as din\u00e2micas internas como, a t\u00edtulo de exemplo, a quest\u00e3o da seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Contudo, o elemento econ\u00f3mico \u2014 mais ainda do que o vetor geopol\u00edtico de Trump II \u2014 \u00e9 algo em gesta\u00e7\u00e3o h\u00e1 muitos anos e que assume um car\u00e1cter essencialmente geoecon\u00f3mico. Partilho convosco uma reflex\u00e3o de \u00e2mbito muito mais global: ao analisar a evolu\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses menos desenvolvidos, torna-se evidente que a \u00fanica via para superar est\u00e1dios inferiores de desenvolvimento passa pela industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outras palavras, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, \u00e9 muito dif\u00edcil para os pa\u00edses exportadores de mat\u00e9rias-primas gerar classes m\u00e9dias e estratos urbanos desenvolvidos sem uma estrutura industrial subjacente. E deparamo-nos hoje com uma industrializa\u00e7\u00e3o concentrada, no essencial, num \u00fanico pa\u00eds, que monopoliza os esfor\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o de bens manufaturados a ponto de deter mais de 40% da manufatura mundial.<\/p>\n<p>Refiro-me \u00e0 China. A Europa enfrenta um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, \u00e0 semelhan\u00e7a do que sucedeu nos Estados Unidos. A China \u00e9 altamente competitiva \u2014 sem entrar na discuss\u00e3o sobre se as suas vantagens competitivas s\u00e3o leg\u00edtimas ou ileg\u00edtimas. N\u00e3o considerais que, neste debate global sobre a vertente econ\u00f3mica da Am\u00e9rica Latina, a palavra \u00abChina\u00bb deve estar omnipresente, n\u00e3o apenas sob o prisma do investimento chin\u00eas na regi\u00e3o, mas sobretudo com foco na desloca\u00e7\u00e3o de cariz quase hist\u00f3rico da produ\u00e7\u00e3o industrial a favor de Pequim?<\/p>\n<p><b>Andrea: <\/b>Sim, parece-me uma quest\u00e3o crucial e subscrevo-a na \u00edntegra. Considero que a China est\u00e1 a exercer um efeito de concentra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o transformadora mundial que prejudica profundamente os pa\u00edses empenhados em superar a armadilha do rendimento m\u00e9dio a que fiz alus\u00e3o h\u00e1 pouco. Trata-se de um problema de resolu\u00e7\u00e3o complexa, dado que a China apresenta, infelizmente, uma capacidade de resist\u00eancia extraordin\u00e1ria perante a press\u00e3o externa.<\/p>\n<p>N\u00f3s, europeus \u2014 munidos de um mercado interno incomparavelmente mais pr\u00f3spero e com maior capacidade negocial face ao contexto latino-americano \u2014, temos dificuldade em defender-nos desta concorr\u00eancia. Uma concorr\u00eancia que radica, por um lado, em aspetos admir\u00e1veis como a capacidade de planeamento, o empenho e o talento da sociedade chinesa; mas que contempla, por outro lado, pr\u00e1ticas profundamente reprov\u00e1veis, desde subs\u00eddios estatais ao financiamento de cr\u00e9dito a taxas inferiores \u00e0s de mercado ou \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o cambial, mecanismos que alavancam as exporta\u00e7\u00f5es chinesas. Falamos de uma sociedade com um consumo interno deprimido e sem hesita\u00e7\u00f5es em recorrer a exporta\u00e7\u00f5es em regime de <i>dumping<\/i> para esmagar os restantes intervenientes: tanto quem j\u00e1 possui tecido industrial, como a Europa, como quem procura trilhar caminho para se tornar concorrente, caso de certos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina ou de outras regi\u00f5es. Se n\u00f3s, europeus, com condi\u00e7\u00f5es superiores de resist\u00eancia, encontramos barreiras, a Am\u00e9rica Latina enfrenta uma assimetria ainda mais gravosa.<\/p>\n<p>A China disp\u00f5e de m\u00faltiplos instrumentos, entre os quais o controlo estrat\u00e9gico sobre mat\u00e9rias-primas e diversos fatores que dificultam a disputa. Assim, a rota da Am\u00e9rica Latina em dire\u00e7\u00e3o a uma via renovada e cont\u00ednua de progresso, capaz de incorporar contingentes populacionais alargados na classe m\u00e9dia de modo est\u00e1vel, perene e equilibrado, afigura-se bastante dif\u00edcil. As mat\u00e9rias-primas podem ajudar \u00e0 sustenta\u00e7\u00e3o e a manter o edif\u00edcio de p\u00e9. Contudo, concordo contigo, Pablo: n\u00e3o costumam constituir a f\u00f3rmula para edificar sociedades maduras, pr\u00f3speras e coesas.<\/p>\n<p>Introduzo aqui outro elemento de debate: creio que a Am\u00e9rica Latina retiraria enorme proveito de um refor\u00e7o da sua integra\u00e7\u00e3o interna. Existem mecanismos, com certeza. Temos o Mercosul \u2014 que, ali\u00e1s, celebrou finalmente um acordo com a Uni\u00e3o Europeia, com a expectativa de que venha a atingir o seu pleno potencial.<\/p>\n<p>Ainda assim, julgo que a regi\u00e3o teria todo o interesse em progredir em v\u00e1rios patamares de integra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos pecar por ingenuidade nem supor a cria\u00e7\u00e3o de uma UE latino-americana na pr\u00f3xima d\u00e9cada: tal cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel nem conceb\u00edvel. Todavia, existe margem para uma coopera\u00e7\u00e3o mais estreita que permita resistir ao embate de atores predat\u00f3rios desmedidos, como a China no plano fabril ou os Estados Unidos noutros quadrantes.<\/p>\n<p>Resistir e negociar em melhores condi\u00e7\u00f5es, com superior peso pol\u00edtico. Infelizmente, a minha perce\u00e7\u00e3o \u00e9 de que, a despeito de uma extraordin\u00e1ria converg\u00eancia ideol\u00f3gica \u00e0 direita, escasseiam premissas cred\u00edveis para potenciar um processo substantivo de integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se de for\u00e7as de direita soberanistas, receio eu, mais absorvidas por guerras culturais e medidas econ\u00f3micas de \u00edndole nacionalista, e indispon\u00edveis para a ced\u00eancia m\u00ednima de soberania que, no projeto europeu, permitiu robustecer a salvaguarda dos interesses comuns.<\/p>\n<p>N\u00e3o vejo essa predisposi\u00e7\u00e3o e isso constitui um pesado entrave. \u00c9 um dilema s\u00e9rio, pois uma din\u00e2mica integradora ao longo das pr\u00f3ximas duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas colocaria a regi\u00e3o em melhor posi\u00e7\u00e3o para prosperar neste ecossistema agressivo e extrativo, em que Trump interv\u00e9m para explorar o petr\u00f3leo da Venezuela e a China asfixia qualquer hip\u00f3tese de consolida\u00e7\u00e3o manufatureira, como bem apontas, Pablo.<\/p>\n<p><b>Pablo: <\/b>Qual \u00e9 a tua perspetiva, Roc\u00edo?<\/p>\n<p><b>Roc\u00edo: <\/b>Este ponto abordado pelo Andrea suscita-me enorme interesse, at\u00e9 porque subscrevo o essencial da an\u00e1lise. Gostaria, por\u00e9m, de colocar algumas interroga\u00e7\u00f5es. Embora n\u00e3o seja especialista na mat\u00e9ria, compreendo que o modelo de pol\u00edtica industrial da China \u2014 dirigista, assente na transfer\u00eancia de popula\u00e7\u00e3o rural para os centros urbanos e com forte investimento p\u00fablico, precisamente o modelo que a transformou na f\u00e1brica do mundo \u2014 est\u00e1 a entrar em fase de esgotamento.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa, de todo, o colapso da economia chinesa, nem implica a revers\u00e3o dos seus investimentos estrat\u00e9gicos em \u00c1frica ou na Am\u00e9rica Latina. Longe disso. Mas revela o desgaste do modelo e abre, no plano econ\u00f3mico, outras perspetivas.<\/p>\n<p>Um antigo diretor do <i>El Pa\u00eds Am\u00e9rica<\/i> partilhou comigo uma reflex\u00e3o que retenho com frequ\u00eancia pelo seu brilhantismo: a diferen\u00e7a entre Espanha e a Am\u00e9rica Latina \u00e9 que Espanha soube construir Estado e n\u00e3o soube construir na\u00e7\u00e3o; a Am\u00e9rica Latina soube construir na\u00e7\u00e3o e n\u00e3o soube construir Estado. \u00c9 uma s\u00edntese l\u00facida sobre a car\u00eancia estrutural de infraestruturas de toda a ordem na regi\u00e3o \u2014 n\u00e3o apenas redes rodovi\u00e1rias ou ferrovi\u00e1rias \u2014, as quais poderiam servir de alavanca transformadora.<\/p>\n<p>No contexto econ\u00f3mico atual, as fronteiras entre os setores prim\u00e1rio, secund\u00e1rio e terci\u00e1rio tornaram-se incomparavelmente mais fluidas e difusas face \u00e0s sinergias pr\u00e9vias \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Mantenho, por isso, a convic\u00e7\u00e3o de que, apesar de todos os entraves identificados, a regi\u00e3o disp\u00f5e de uma janela de oportunidade econ\u00f3mica. At\u00e9 porque a pandemia nos transmitiu a todos uma li\u00e7\u00e3o dura: a necessidade de reconfigura\u00e7\u00e3o das redes de abastecimento e de produ\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a Am\u00e9rica Latina beneficia da proximidade a uma superpot\u00eancia como os Estados Unidos \u2014 estatuto que estes e a China continuar\u00e3o a deter. Torna-se, assim, vi\u00e1vel relocalizar linhas de produ\u00e7\u00e3o por crit\u00e9rios de proximidade territorial, ao trocar a pura efici\u00eancia econ\u00f3mica de custos pela seguran\u00e7a estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>Os desafios s\u00e3o m\u00faltiplos. O Andrea sublinhou a integra\u00e7\u00e3o regional, que permanece um des\u00edgnio por cumprir. Tal como v\u00f3s, n\u00e3o transbordo otimismo. Em di\u00e1logo com interlocutores da regi\u00e3o, nota-se a consci\u00eancia da relev\u00e2ncia de um certo grau de integra\u00e7\u00e3o e da respetiva ced\u00eancia de soberania, a exemplo do percurso europeu, onde a integra\u00e7\u00e3o se consolidou \u00e0 margem das clivagens partid\u00e1rias. Um social-democrata espanhol articulava-se, porventura, melhor com um democrata-crist\u00e3o alem\u00e3o do que com um trabalhista brit\u00e2nico no que toca \u00e0 causa europeia. A l\u00f3gica da integra\u00e7\u00e3o \u00e9 vertical; a l\u00f3gica ideol\u00f3gica \u00e9 horizontal. E \u00e9 poss\u00edvel atuar em ambos os planos.<\/p>\n<p>A Europa assimilou bem este princ\u00edpio; a Am\u00e9rica Latina tem resistido a compreend\u00ea-lo. Escuto com frequ\u00eancia um argumento desconcertante por parte de vozes locais: \u00abV\u00f3s s\u00f3 conseguistes avan\u00e7ar porque enfrentastes o trauma da guerra\u00bb. A minha resposta \u00e9 invariavelmente: \u00abEstais a dizer-me que necessitais de um trauma para executar aquilo que quereis e sabeis indispens\u00e1vel fazer?\u00bb<\/p>\n<p>\u00c9 a fal\u00e1cia de que \u00e9 preciso tocar no fundo \u2014 a m\u00e1xima que um ministro do PP espanhol resumia como \u00abquanto pior, melhor\u00bb. N\u00e3o: quanto pior, pior.<\/p>\n<p>O caminho passa por melhorias graduais e estruturadas. Em termos econ\u00f3micos, a integra\u00e7\u00e3o funcionaria \u00e0 semelhan\u00e7a do per\u00edmetro europeu: conferiria seguran\u00e7a jur\u00eddica e credibilidade econ\u00f3mica, de modo a rentabilizar n\u00e3o s\u00f3 os recursos existentes, mas tamb\u00e9m as oportunidades decorrentes dos ajustamentos do novo Plano Quinquenal da economia chinesa.<\/p>\n<p><b>Pablo: <\/b>Do meu ponto de vista, o M\u00e9xico \u00e9 o pa\u00eds mais determinante sob esse prisma, fruto do potencial de gerar nova atividade econ\u00f3mica ao abrigo do dinamismo do vizinho a norte. \u00c9, ali\u00e1s, um dado que salta \u00e0 vista.<\/p>\n<p>Verificamos os seus \u00edndices de crescimento e a capacidade para estruturar uma economia industrializada com assinal\u00e1vel \u00eaxito em determinados setores. Contudo, persistem fragilidades institucionais e de seguran\u00e7a p\u00fablica, sem que se vislumbre o salto qualitativo que o consolide como o terceiro parceiro pleno de um bloco econ\u00f3mico que parece estar a desagregar-se face ao Canad\u00e1 e aos Estados Unidos. Nem se assiste \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de um ambiente social e pol\u00edtico pr\u00f3spero e inclusivo \u2014 sem recorrer ao termo \u00abest\u00e1vel\u00bb, que me agrada cada vez menos pela carga amb\u00edgua que encerra.<\/p>\n<p>Gostaria de vos consultar sobre como avaliam o caso mexicano: uma na\u00e7\u00e3o com tamanho potencial e talento comprovado, mas tolhida por d\u00e9fices expressivos que a mant\u00eam numa situa\u00e7\u00e3o de enorme vulnerabilidade.<\/p>\n<p><b>Andrea: <\/b>Diria que a avalia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da governa\u00e7\u00e3o de Sheinbaum se revela, at\u00e9 ao momento, relativamente positiva no que respeita \u00e0 gest\u00e3o das press\u00f5es oriundas do norte do Rio Bravo. Revelou pragmatismo para contornar um quadro complexo com danos mitigados, o que deve ser reconhecido como um avan\u00e7o favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, perante o peso das circunst\u00e2ncias, acompanho a tua leitura: o balan\u00e7o global do M\u00e9xico suscita grande desilus\u00e3o. Trata-se de um pa\u00eds ainda corro\u00eddo por uma crise de seguran\u00e7a end\u00e9mica sem cura \u00e0 vista e ref\u00e9m de tiques populistas herdados da administra\u00e7\u00e3o de AMLO, que considero desajustados em m\u00faltiplos aspetos.<\/p>\n<p>Veja-se a reforma judicial. Falou-se aqui de seguran\u00e7a jur\u00eddica: a reforma da justi\u00e7a promovida por AMLO no fecho do seu mandato n\u00e3o beneficiou o M\u00e9xico e considero que Sheinbaum permanece, em certa medida, ref\u00e9m dessa heran\u00e7a, mesmo que o seu antecessor mantenha uma postura discreta e de bastidores. \u00c9 percet\u00edvel que ele continua a exercer influ\u00eancia pol\u00edtica sobre o aparelho e as chefias, o que condiciona a margem de manobra da atual presidente.<\/p>\n<p>O panorama geral \u00e9 insatisfat\u00f3rio. Embora apresente alguma acelera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica pontual, o pa\u00eds opera manifestamente aqu\u00e9m das suas reais capacidades.<\/p>\n<p>\u00c9 uma sociedade detentora de um potencial imenso que teima em n\u00e3o florescer. Lamentavelmente, n\u00e3o vislumbro uma transi\u00e7\u00e3o iminente para uma a\u00e7\u00e3o governativa mais pragm\u00e1tica, eficiente e produtiva. Vejo os seus decisores excessivamente absorvidos pela conten\u00e7\u00e3o das vagas tempestuosas do norte e sem rumo no combate ao flagelo cr\u00f3nico do crime e da viol\u00eancia que consome o pa\u00eds h\u00e1 d\u00e9cadas. A minha constata\u00e7\u00e3o \u00e9 de profunda tristeza perante um povo admir\u00e1vel cujo valor permanece por concretizar em toda a sua plenitude.<\/p>\n<p><b>Pablo: <\/b>Qual \u00e9 a tua vis\u00e3o, Roc\u00edo?<\/p>\n<p><b>Roc\u00edo: <\/b>Falar do M\u00e9xico assemelha-se a falar do Brasil: s\u00e3o dois continentes em si mesmos e o tema justificaria uma sess\u00e3o exclusiva. O Andrea fez uma s\u00edntese certeira. \u00c9 um pa\u00eds com o qual tenho forte liga\u00e7\u00e3o afetiva, extraordin\u00e1rio em in\u00fameros dom\u00ednios e repleto de oportunidades, mas que avan\u00e7a a meio-g\u00e1s. As perspetivas de subida do PIB para o pr\u00f3ximo exerc\u00edcio dificilmente alcan\u00e7ar\u00e3o os 2%.<\/p>\n<p>Face ao seu potencial de partida, o desempenho deveria ser muito superior. Acresce o flagelo do crime organizado e da viol\u00eancia, intrinsecamente associado ao narcotr\u00e1fico, sem sinais de abrandamento \u2014 antes pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Constitui um desafio estrutural que, embora n\u00e3o se manifeste de forma homog\u00e9nea em todo o territ\u00f3rio, tem impacto devastador. Assiste-se ainda a uma crise de governa\u00e7\u00e3o institucional. Mencionaste a reforma judicial, mas o problema vai al\u00e9m: recordemo-nos dos debates em torno da eventual submiss\u00e3o acr\u00edtica de Sheinbaum \u00e0 linha de AMLO.<\/p>\n<p>A presidente ensaia distanciamentos pontuais, mas essa rota pode custar-lhe caro em termos de coes\u00e3o interna no seio do Morena. Resta acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o desse equil\u00edbrio. Ao trocar autonomia por crispa\u00e7\u00e3o interna, criam-se outros riscos; no palco pol\u00edtico, as escolhas raramente se resumem ao confronto linear entre o bem e o mal.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a presidente procure desvincular-se dessa tutela, o grupo afeto a AMLO criar\u00e1 inevitavelmente tens\u00f5es na disciplina partid\u00e1ria e junto dos governadores estaduais, num pa\u00eds de dimens\u00e3o continental e estrutura complexa.<\/p>\n<p>No campo econ\u00f3mico, regista-se que as camadas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza extrema registaram melhorias nos mandatos dos governos populares, tal como as elites econ\u00f3micas enriqueceram. Contudo, as classes m\u00e9dias sofreram um forte esmagamento financeiro e social.<\/p>\n<p>Este desequil\u00edbrio \u00e9 insustent\u00e1vel: sem a valoriza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua das classes m\u00e9dias, \u00e9 invi\u00e1vel erguer uma economia com crescimento s\u00f3lido. \u00c9 o que se verifica no M\u00e9xico, paralisado na agenda de reformas estruturais praticamente desde a d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>Uma paralisia de reformas estruturais que n\u00e3o \u00e9 exclusiva do M\u00e9xico \u2014 afeta igualmente v\u00e1rios parceiros europeus, agravada pela crise financeira de 2008, que travou reformas a despeito do discurso oficial. O M\u00e9xico faz-me lembrar um estudante com todos os predicados intelectuais para singrar, que diz aos pais: \u00abPassei de ano com nota m\u00ednima\u00bb. Passar n\u00e3o basta para quem parte com condi\u00e7\u00f5es para atingir a excel\u00eancia e tem obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o se resignar \u00e0 mediania.<\/p>\n<p><b>Pablo: <\/b>Quando se aborda a integra\u00e7\u00e3o europeia, recordo sempre o livro de Alan Milward, <i>The European Rescue of the Nation State<\/i>. Trata-se de uma tese muito aliciante e contraintuitiva: no fundo, perante a necessidade de implementar pol\u00edticas p\u00fablicas muito mais proativas no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, os Pais Fundadores recorreram ao mecanismo da integra\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pelo carv\u00e3o e pelo a\u00e7o, para viabilizar essas mesmas pol\u00edticas. Isoladamente, n\u00e3o dispunham de meios para controlar o carv\u00e3o da Ren\u00e2nia, nem de capacidade para expressar o seu peso econ\u00f3mico sem um mercado comum, entre outros fatores.<\/p>\n<p>Perante este cen\u00e1rio, imp\u00f5e-se a quest\u00e3o de saber se a constru\u00e7\u00e3o ou a debilidade do Estado na Am\u00e9rica Latina \u2014 o ponto de converg\u00eancia de todos os diagn\u00f3sticos \u2014 n\u00e3o seria o verdadeiro motivo, e n\u00e3o a guerra, pelo qual a regi\u00e3o se deveria integrar. Ou seja: perante a debilidade evidente dos Estados, imp\u00f5e-se a integra\u00e7\u00e3o para colmatar fragilidades estruturais, sobretudo em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a. E aqui surge um ponto de extrema delicadeza: como pode o M\u00e9xico ultrapassar este impasse da inseguran\u00e7a quando confrontado a norte com um mercado gigantesco ou transatl\u00e2ntico, sem que as suas for\u00e7as de seguran\u00e7a ou institui\u00e7\u00f5es disponham de capacidade aut\u00f3noma para enfrentar semelhante desafio?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Lembram-se com clareza a internacionaliza\u00e7\u00e3o ou a delega\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a na Col\u00f4mbia, bem como outros epis\u00f3dios ao longo da hist\u00f3ria, que tamb\u00e9m n\u00e3o resultaram.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cQuando se aborda a integra\u00e7\u00e3o europeia, (&#8230;) no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, recorreram ao mecanismo da integra\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pelo carv\u00e3o e pelo a\u00e7o, para viabilizar essas mesmas pol\u00edticas.\u201d<\/strong><br \/>\nPablo Garc\u00eda-Berdoy<\/p><\/blockquote>\n<p><b>Roc\u00edo: <\/b>Tocaste no ponto central. \u00c9 exatamente a ideia que referi h\u00e1 pouco, partilhada por aquele diretor do <i>El Pa\u00eds<\/i>: n\u00e3o souberam construir Estado, mas souberam construir na\u00e7\u00e3o; por essa raz\u00e3o, a integra\u00e7\u00e3o \u00e9 um <i>dossier<\/i> t\u00e3o complexo, na medida em que implica ceder soberania. Trata-se de uma mat\u00e9ria altamente delicada na regi\u00e3o. Da\u00ed a aus\u00eancia de avan\u00e7os na integra\u00e7\u00e3o, mesmo a n\u00edvel tem\u00e1tico. \u00c9 evidente que uma integra\u00e7\u00e3o supranacional permite concretizar iniciativas de execu\u00e7\u00e3o muito mais dif\u00edcil caso o per\u00edmetro se limite ao quadro nacional \u2014 onde tudo se torna mais cism\u00e1tico e de curto alcance, agravado pela polariza\u00e7\u00e3o a que hoje assistimos em todo o mundo ocidental. A integra\u00e7\u00e3o constitui, portanto, uma solu\u00e7\u00e3o. Sejamos realistas: n\u00e3o a vislumbro no horizonte. Oxal\u00e1 me engane.<\/p>\n<p>Agora, ser\u00e1 vi\u00e1vel resolver a inseguran\u00e7a?<\/p>\n<p>Quando vejo discursos que prometem resolver desafios complexos com uma receita m\u00e1gica e de um dia para o outro&#8230; Isso n\u00e3o vai acontecer. Contudo, \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7ar a disciplinar a situa\u00e7\u00e3o mediante o compromisso s\u00e9rio de governos que continuam a dispor de instrumentos de autoridade coesos e das equipas adequadas. A inseguran\u00e7a n\u00e3o se resolve em dois dias, nem seguramente em dois anos, mas \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7ar a disciplin\u00e1-la. E, a partir do momento em que se inicia esse processo de disciplina, passa-se o mesmo que com a corrup\u00e7\u00e3o: n\u00e3o se erradicam cleptocracias da noite para o dia, mas cria-se m\u00e9todo e, por conseguinte, delineia-se um horizonte de resolu\u00e7\u00e3o para estes problemas.<\/p>\n<p><b>Pablo: <\/b>Porque n\u00e3o equacion\u00e1mos, de forma refletida e proativa, que um dos organismos multilaterais verdadeiramente em falta na Am\u00e9rica Latina \u2014 dotado de meios e de boa governa\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o continental de seguran\u00e7a? Inclusive com a participa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos. Como veem esta hip\u00f3tese?<\/p>\n<p><b>Andrea: <\/b>Parece-me inteiramente pertinente, at\u00e9 porque o problema assume uma dimens\u00e3o cada vez mais transnacional. Os bandos criminosos fixam bases operacionais em novos territ\u00f3rios. Cidades outrora seguras enfrentam uma escalada r\u00e1pida e tornam-se, de forma s\u00fabita, hiperviolentas. H\u00e1 uma clara proje\u00e7\u00e3o regional que exige, com urg\u00eancia, coopera\u00e7\u00e3o policial para enfrentar a mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Penso, por isso, que tocas numa quest\u00e3o fulcral. Apesar de n\u00e3o ser especialista na mat\u00e9ria, creio que \u00e9 vi\u00e1vel sugerir uma abordagem a duas velocidades. A primeira prende-se com o caminho que apontas: um aumento da efic\u00e1cia da a\u00e7\u00e3o policial, o que exige, for\u00e7osamente, uma coordena\u00e7\u00e3o transnacional de base regional.<\/p>\n<p>Existem organismos mundiais, mas a Interpol n\u00e3o tem a mesma natureza nem assegura id\u00eantica efic\u00e1cia: a estrutura tem de assentar numa base regional. Em segundo lugar, julgo que a resposta \u00e0 inseguran\u00e7a e ao crime na Am\u00e9rica Latina requer tamb\u00e9m medidas ao n\u00edvel do desenvolvimento, da coes\u00e3o social, da educa\u00e7\u00e3o, dos sistemas e culturas e, como j\u00e1 sublinh\u00e1mos por diversas vezes, da efic\u00e1cia institucional global. Salta \u00e0 vista que estas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o prosperam apenas por falhas pontuais nos sistemas de seguran\u00e7a, mas gra\u00e7as a um caldo de cultura geral de vulnerabilidades no qual o crime organizado encontra terreno f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que a integra\u00e7\u00e3o volta a ser a resposta: ela \u00e9 a chave para que a regi\u00e3o alcance um patamar superior de prosperidade, no sentido que apontei anteriormente, enquanto capacidade de negociar perante estes grandes predadores, para al\u00e9m das vantagens pr\u00e1ticas inerentes a uma realidade partilhada.<\/p>\n<p>Constatamos isso na Europa: a conclus\u00e3o cabal do mercado comum constituiria, por si s\u00f3, uma enorme mais-valia. O mesmo se aplica ao continente americano. Esse progresso contribuiria para secar o p\u00e2ntano onde o crime prolifera.<\/p>\n<p><b>Pablo: <\/b>Qual \u00e9 a tua perspetiva, Roc\u00edo?<\/p>\n<p><b>Roc\u00edo: <\/b>Subscrevo inteiramente: primeiro, a seguran\u00e7a; a longo prazo, maior prosperidade. A Uni\u00e3o Europeia de hoje nasceu como Comunidade Europeia do Carv\u00e3o e do A\u00e7o em torno de dois temas cr\u00edticos que tinham arrastado os europeus para confrontos devastadores. Esses temas foram retirados da disputa pol\u00edtica e elevados a outro patamar. No caso das Am\u00e9ricas, seria poss\u00edvel pensar noutros dois eixos. Considero que o segundo deveria incidir na energia, muito embora reconhe\u00e7a que os interesses nacionais a\u00ed seriam de extrema complexidade.<\/p>\n<p>Contudo, seria perfeitamente conceb\u00edvel instituir uma comunidade americana de seguran\u00e7a a par de outro dossi\u00ea setorial. Concordo com o horizonte tra\u00e7ado pelo Andrea: uma integra\u00e7\u00e3o que viabilize a prosperidade, sem a qual estes problemas n\u00e3o encontrar\u00e3o uma resposta sustent\u00e1vel no tempo.<\/p>\n<p>Mas pode come\u00e7ar-se com uma comunidade americana de seguran\u00e7a. Onde se tra\u00e7a a fronteira? Com a inclus\u00e3o dos Estados Unidos, dificilmente o projeto suscitaria credibilidade: tem de partir de uma proposta aut\u00f3noma dos pa\u00edses da regi\u00e3o. Fixaria, por isso, a fronteira at\u00e9 ao M\u00e9xico, com todas as dificuldades associadas: a defini\u00e7\u00e3o da sede, a lideran\u00e7a institucional&#8230;<\/p>\n<p>Mas constituiria um ponto de partida, o embri\u00e3o de uma futura integra\u00e7\u00e3o. Porque n\u00e3o? Afinal, na Europa o processo come\u00e7ou exatamente assim.<\/p>\n<p><b>Pablo: <\/b>Restam-nos cinco minutos. Gostaria de abordar o papel da Europa, tema ainda por explorar. Em concreto: que papel podemos desempenhar?<\/p>\n<p><b>Andrea: <\/b>Creio que temos um papel a desempenhar em duas frentes. A primeira passa por capitalizar a conjuntura ditada pelo intervencionismo norte-americano e pelos constrangimentos da\u00ed decorrentes para determinados investimentos da China, de modo a posicionar-nos como um parceiro alheio a l\u00f3gicas predat\u00f3rias. Um parceiro fi\u00e1vel, de longo prazo, com presen\u00e7a consolidada na regi\u00e3o, ainda que por vezes menos vis\u00edvel do que a pegada chinesa ou o atual protagonismo ruidoso de Washington. Importa afirmarmo-nos como um parceiro econ\u00f3mico cred\u00edvel, n\u00e3o intrusivo e com vis\u00e3o de futuro.<\/p>\n<p>Trata-se de um caminho com todo o sentido. Demos passos com o Mercosul, mas vislumbro outros vetores de investimento. No plano financeiro e de mercados de capitais, por exemplo, o CAF \u2014 Banco de Desenvolvimento da Am\u00e9rica Latina e das Cara\u00edbas \u2014 beneficiaria de um refor\u00e7o, e a Europa tem aqui a oportunidade de equacionar modelos de coopera\u00e7\u00e3o com a institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Num segundo plano, de teor estritamente geopol\u00edtico: num momento de amea\u00e7a ao direito internacional, tanto latino-americanos como europeus t\u00eam todo o interesse em defender e salvaguardar quadros institucionais internacionais e normas partilhadas. \u00c9 um territ\u00f3rio de coopera\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel. Cabe \u00e0 Europa procurar sintonias com a Am\u00e9rica Latina, mesmo perante pontuais diverg\u00eancias ideol\u00f3gicas, em nome de um des\u00edgnio comum.<\/p>\n<p><b>Roc\u00edo: <\/b>Concordo a 100%. Em termos econ\u00f3micos, faz todo o sentido. Quanto ao Mercosul, foram necess\u00e1rios 26 anos para o concretizar, o que \u00e9 inaceit\u00e1vel. Sobretudo porque a Europa tem todo o interesse numa alian\u00e7a pol\u00edtico-institucional s\u00f3lida com a Am\u00e9rica Latina \u2014 tal como com o Canad\u00e1, mas com particular urg\u00eancia com a Am\u00e9rica Latina \u2014 para se posicionar na nova desordem geopol\u00edtica dos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Para isso, importa deixar de proclamar a inten\u00e7\u00e3o de ser uma ponte e passar, em definitivo, a cruzar a margem. <\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Basta analisar as declara\u00e7\u00f5es dos dois \u00faltimos chefes de governo em Espanha, Mariano Rajoy e Pedro S\u00e1nchez, e as a\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica externa encetadas: \u00e9 evidente que a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o constitui uma prioridade. E cabe \u00e0 Europa avan\u00e7ar neste des\u00edgnio, conduzida pela m\u00e3o de Espanha.<\/p>\n<p><b>Pablo: <\/b>Em \u00faltima an\u00e1lise, falta-nos passar a a\u00e7\u00f5es concretas. Convoco-vos, por isso, para um pr\u00f3ximo epis\u00f3dio do <i>podcast<\/i> da UNO para debatermos as rela\u00e7\u00f5es entre Espanha e a Am\u00e9rica Latina. Porque \u00e9 uma conversa que j\u00e1 \u00e9 inevit\u00e1vel ap\u00f3s tanta neglig\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Am\u00e9rica Latina est\u00e1 a registar uma forte viragem para a direita pol\u00edtica. Ao mesmo tempo, intensifica-se a disputa entre os Estados Unidos e a China pelo acesso aos seus recursos e infraestruturas. A economia poderia prosperar gra\u00e7as \u00e0 abund\u00e2ncia de mat\u00e9rias-primas e energia, mas a inseguran\u00e7a continua a ser um pesado entrave. 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