-
TemáticasDemocraciaPolarizaçãoAssuntos Europeus
-
SetorAdministrações Públicas
-
PaísesGlobal
As regras que regularam o mundo nos últimos setenta anos estão em declínio. O ordenamento global baseado na multilateralidade e, desde a queda do Muro, na predominância dos Estados Unidos, desvanece-se. As rivalidades aumentam, a China luta pela hegemonia e prevalece a unilateralidade. Já quase nenhum cenário pode ser descartado.
Esta mudança é transcendental para as empresas que fazem parte da comunidade da LLYC. Os Estados Unidos, a Europa e a América Latina — as regiões onde opera a nossa empresa — assumem novos papéis e novas relações, gerando fortes tensões comerciais. Contudo, permanecem amplos espaços para a cooperação, a sinergia e os valores democráticos. Neste diálogo, ocorrido antes da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e da guerra com o Irão, mas que reflete todas as condições que lhes deram origem, Luisa García e Pol Morillas abordam a vertente geopolítica dos muitos desafios que nos esperam.
Luisa García (LG): Quando começámos a pensar em como queríamos assinalar o 30.º aniversário da LLYC, tínhamos claro que, embora estejamos muito orgulhosos do que conseguimos nestes anos, o nosso olhar dirige-se para o futuro. Por isso lançámos o programa Partners for What’s Next, com a ideia de estar perto dos clientes e colaboradores para entender os desafios que nos aguardam e poder acompanhá-los quando os enfrentarem. Nesse contexto, foi importante termos uma conversa sobre a nova ordem, ou desordem, mundial. E ninguém melhor do que Pol Morillas, autor do livro O Pátio dos Grandes. A Europa perante um mundo hostil, e diretor do CIDOB de Barcelona, um dos mais importantes think tanks de estudos internacionais da Europa.
Pol Morillas (PM): Muito obrigado por partilhares este tempo comigo e pelo convite para participar nas vossas conversas.
LG: Pol, vimos de um mundo marcado pelo multilateralismo, no qual instituições como o FMI, a ONU ou o Banco Mundial impulsionaram a globalização, o comércio e a cooperação. Porém, já sabemos que no futuro o mundo provavelmente deixará de reger-se por essa ordem.
PM: De facto, penso que assistimos agora a uma tendência para um mundo multipolar, em que não predomina um único país, os Estados Unidos, mas sim dois, China e Estados Unidos. As potências médias também querem participar na divisão do poder internacional. É mais multipolar mas, ao mesmo tempo, cada vez menos multilateral.
As instituições a que te referiste perdem relevância ao estruturar as relações. E essa multipolaridade sem multilateralismo gera um sentimento de desamparo. Pode reforçar-se o papel dos Estados, o das grandes potências, para que sejam ambas a liderar a estruturação das relações internacionais. Contudo, as crises que teremos de enfrentar — as climáticas, as associadas às regulações tecnológicas, a pandemia da covid-19 na sua altura ou outra semelhante — continuarão a ser crises transnacionais. Essa é a grande paradoxo que enfrentamos agora.
LG: A LLYC nasceu em Espanha e iniciou a sua expansão internacional há vinte e oito anos na América Latina. Queria perguntar-te pelo papel destas duas regiões, Europa e América Latina. São apenas espectadoras, são apenas moeda de troca na nova luta pelo poder?
PM: Penso que, nesta nova ordem internacional, a Europa e a América Latina partilham uma posição semelhante. A Europa sempre dependeu dos Estados Unidos para a sua segurança. A relação transatlântica é fundamental, também como polo de comércio internacional e centro da economia mundial no Atlântico. Agora a Europa questiona-se se, perante a crise nas relações transatlânticas com Trump, que também resulta da ascensão de novas potências, deve diversificar as suas alianças. E a América Latina encontra-se numa situação semelhante. Não pode depender apenas dos crescentes investimentos chineses. Precisa manter uma boa relação com a União Europeia — como vimos nas discussões sobre o Tratado União Europeia-Mercosul —, mas sem perder de vista os Estados Unidos, com quem sempre manteve uma relação muito próxima. A América Latina e a Europa partilham a sensação de terem de oscilar entre muitos atores ao mesmo tempo, porque o seu contexto, esse mundo mais multipolar, também mudou.
LG: Sim, Europa e América Latina têm de aprender a ser mais polígamas. Mas nesse poliamor partilhado, achas que há espaço para fortalecer a relação entre ambas? Mencionavas o acordo Mercosul-UE. A oportunidade e o movimento de reforço da América Latina e da União Europeia são reais ou continuam a ser uma enteléquia?
PM: A relação entre a América Latina e a Europa é muito desigual. Está marcada pela desconfiança, por vezes devido à herança do colonialismo. E isso afeta essa relação bilateral. Mas, se ampliarmos a perspetiva e virmos onde se situam as restantes potências internacionais, e olharmos para o futuro, para onde se dirigem estes dois continentes, certamente existe mais a uni-los do que a separá-los.
LG: Ultrapassar o passado e olhar para o futuro é fundamental. Tal como com o alargamento da União Europeia nos apercebemos da diversidade que é a Europa, não se pode pensar na América Latina como uma unidade. A relação da Europa com o México nada tem a ver com a sua relação com o Brasil, nem com a relação entre o México e o Brasil.
PM: Isso leva-nos a outra questão importante: a fragmentação dos sistemas políticos em muitas regiões do mundo. No caso da Europa, o que mais prejudica as suas relações com outros países, e com os Estados Unidos em particular, é a sua fragmentação interna. Viu-se, por exemplo, no acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos. Mostrou uma Europa disposta a ceder às exigências norte-americanas, que não quis jogar a sua carta mais valiosa: uma política comercial comum, a capacidade de atuar no âmbito económico e comercial a uma só voz. Algo que não existe na defesa ou na tecnologia. A Europa temia muito a fragmentação interna, o impacto que uma negociação contrária aos interesses dos Estados Unidos poderia gerar dentro da União Europeia. Muitas vezes não é tanto a União Europeia não dispor de ferramentas para atuar, ou falta de poder, pois tem, o problema é esse poder estar excessivamente fragmentado.
“Vivemos num mundo em que se conjugam os interesses nacionais das grandes potências, defendidos a todo o custo, e as interdependências que passam pelo funil da instrumentalização.”
Pol Morillas
LG: Novamente olhando para os eixos, falaste da política comercial e de segurança entre os Estados Unidos e a União Europeia. Que outros temas da política externa norte-americana consideras que vão marcar a agenda até às midterms, as eleições intercalares [Para além da intervenção na Venezuela e no Irão]?
PM: Na Administração republicana, e no próprio movimento MAGA, há um grande debate sobre a política externa do país e sobre dois preceitos fundamentais desta. Por um lado estão os que defendem que o foco deve ser nos próprios interesses dos Estados Unidos, e até na sua área de influência mais próxima. Assim assistimos às declarações de Trump sobre o Canadá, a Gronelândia ou o Panamá, como se esses países fossem o seu quintal, onde os Estados Unidos têm todo o poder. Este grupo prioriza a conceção da segurança. Nesta visão enquadram-se os ataques impunes a lanchas nas Caraíbas, sob o pretexto de que são narcolanchas e um problema para a segurança americana. [e que precedeu o rapto de Nicolás Maduro]
Outro grupo defende que não, que os Estados Unidos têm um rival fundamental para além do seu hemisfério ocidental e da sua envolvente próxima, que é a China. E que o foco da política externa norte-americana deve ser a confrontação ou competição com a China. Essas duas visões da política externa coexistem com outras que defendem que, para priorizar a China, importa deixar de intervir em cenários que não interessam, onde não querem projetar a sua política externa, seja o Médio Oriente, [embora o ataque ao Irão desminta esta versão] a Europa ou a Ucrânia.
LG: Trata-se, então, de estabelecer prioridades.
PM: Dificilmente descodificamos quais os objetivos da política externa de Trump. Ele provoca dúvida constante, muda frequentemente de opinião e tem posições variáveis sobre diversas questões. Especialmente sobre a China.
LG: A relação entre os Estados Unidos e a China está fortemente marcada pelo impacto da tecnologia na agenda geopolítica, desde as terras raras até à legislação da inteligência artificial. E em toda a cadeia há um impacto muito claro na área comercial. Identificámos ainda as mudanças climáticas ou as migrações. Quais destes temas vos ocuparão no CIDOB nos próximos meses ou anos?
PM: Em muitos destes domínios prevalece a lógica com que iniciámos esta conversa. A das interdependências que ainda existem, essa transnacionalidade dos fenómenos que afeta o comércio, as alterações climáticas, as migrações ou a tecnologia. Todas estas questões são, necessariamente, transnacionais. No entanto, o que rege as relações é a instrumentalização desses temas de acordo com os interesses das nações. No comércio vê-se isso claramente. Os Estados Unidos e a China não deixaram de comerciar; pelo contrário, continuam sujeitos a grandes interdependências comerciais. O que sucede? Essas interdependências são instrumentalizadas e usadas como arma de pressão geopolítica contra o outro. Isso é evidente nas terras raras, com a limitação da exportação de semicondutores, chips e tecnologia avançada dos Estados Unidos para a China, especialmente os de uso dual, isto é, civil e militar.
Nas migrações, vemos frequentemente que muitos países também as instrumentalizam como arma de desestabilização contra terceiros países. Aconteceu, por exemplo, quando a Rússia deixou passar livremente refugiados de vários países, como o Afeganistão, para a Finlândia e outros países fronteiriços, como mecanismo de pressão ou desestabilização. No fundo, as migrações também são interdependências ou fenómenos transnacionais que os Estados instrumentalizam. E quanto à tecnologia, já referimos elementos essenciais como os chips, os semicondutores ou as terras raras, componentes necessários para tecnologias avançadas e também instrumentalizados. Vivemos num mundo onde se conjugam os interesses nacionais das grandes potências, defendidos intransigentemente e cada vez com menos reservas, e as interdependências que passam por esse funil de instrumentalização.
LG: E o que podem fazer as empresas para entender, antecipar e operar melhor nesse mundo? Por vezes os prazos são muito curtos. Por exemplo, a agilidade para adaptar cadeias de abastecimento perante mudanças de tarifas é um caso evidente. Que boas práticas podem ajudar a desenvolver essas competências nem sempre tão avançadas nas empresas?
PM: Em primeiro lugar, importa inverter o binómio mercado-geopolítica. O que vemos agora é que muitas vezes a geopolítica condiciona as relações comerciais e os principais parceiros com quem se pretendem relações comerciais fluidas e intensas. Se antes se acreditava que a geopolítica suavizaria o seu impacto graças às forças do mercado, hoje vemos o contrário. A geopolítica endurece as relações de mercado e, por conseguinte, as empresas devem incorporar este fator, anteriormente considerado um aspeto não mercantil ou secundário, no balanço de resultados. Agora tem impacto primário e deve estar no centro da análise dos fatores de mercado. Esta é a grande mudança de paradigma: vimos de um mundo globalizado, sem barreiras e com cadeias de valor globais sem restrições, mas cada vez mais a preeminência desse poder do Estado nas relações geopolíticas e até na intervenção em indústrias e empresas críticas é o novo normal.
LG: Creio que fizemos uma boa viagem, porque falámos primeiro do novo cenário de multipolaridade, dos blocos e de como estes se adaptam à nova situação, combinando política interna e externa de forma indissociável. Referiste também como, na política entre países ou blocos, alguns grandes temas são instrumentalizados. E terminamos com a proposta de mudar a nossa perspetiva empresarial, pois neste novo contexto a geopolítica terá um impacto muito mais direto e provavelmente mais rápido, devendo antecipar-nos e contar com conhecimento interno que nos permita, pelo menos, desenhar cenários. Falámos da Europa, da China, da América Latina, dos Estados Unidos, mencionámos migração, tecnologia. Há algo que no CIDOB considerem que não está a receber a devida atenção?
PM: Existem dois temas. O primeiro, que impacta diretamente na forma de relação política e social nas nossas sociedades, é o futuro da democracia. Ou seja, até que ponto, e particularmente na Europa, aquilo que foram valores inquestionáveis permanecem como mecanismo de governação desejado. Hoje é necessário demonstrar mais do que nunca que essas ideias continuam válidas, porque há outras forças que apontam noutro sentido e as põem em causa. E noutro domínio, há um aspeto que não mencionámos e é fundamental para a Europa e para Espanha em particular: África. A Europa não só careceu de visão estratégica ao definir a relação que queria com os seus vizinhos do sul da União Europeia, mas também relativamente a muitos fenómenos de segurança, crises climáticas, migrações, refugiados, tráficos ilícitos. Muitos destes problemas têm origem na África subsaariana, ou no Sahel em particular. A Europa deve deixar de virar costas ao continente africano e perceber que o mar Mediterrâneo é mais um lago do que um mar.
“É preciso inverter o binómio mercado-geopolítica. A geopolítica recrudesce as relações de mercado e, por isso, as empresas devem incorporar este fator na sua conta de resultados.”
Pol Morillas