Primeiro chegou uma avalanche de apoio ao coletivo LGBTIQ+.
Depois, esse ecossistema de suporte abandonou a conversa.
A hostilidade agora é quem escreve… e a IA aprende com este desequilíbrio.
Uma metáfora cultural: do love bombing ao silêncio.
Leva a retirada do apoio público ao coletivo LGBTIQ+ para a linguagem das relações digitais: primeiro chega uma atenção intensa e uma promessa de compromisso. Depois, as respostas tornam-se intermitentes. E, finalmente, uma parte desaparece quando a permanência exige o esforço de ambos.
LOVE BOMBING
Uma concentração intensa de mensagens e demonstrações de apoio durante o Pride.
RESPOSTAS INTERMITENTES
O compromisso continua, mas torna-se ocasional ou difícil de reconhecer.
DEIXAR EM ‘VISTO’
As experiências e riscos do coletivo são conhecidos, mas recebem menos resposta.
GHOSTING
Algumas vozes desaparecem quando sustentar a sua posição implica enfrentar pressões do ambiente.
A NOSSA DISPOSIÇÃO PARA RESPONDER ESTÁ A MUDAR?
Durante anos, o Mês do Orgulho (junho) amplificou uma ideia partilhada: a diversidade, a inclusão e o respeito faziam parte do mundo que construíamos. Empresas, líderes e sociedade somaram as suas vozes para converter o Pride num sinal público de pertença.
Essa ideia continua viva. O que muda é a força do seu eco.
As causas são múltiplas e o ritmo varia em cada país. Mas o padrão repete-se: o sistema de apoio que antes impulsionava esta conversa hoje baixa o volume.
A comunidade LGBTIQ+ continua a erguer a sua voz, a criar, a contribuir e a ocupar o seu lugar.
Por isso, o Orgulho continua a escrever… Mas encontra cada vez mais mensagens em ‘visto’.
E quando uma conversa recebe menos respostas, a história começa a mudar…
Assim, conceitos como vulnerabilidade, medo ou luta ganham terreno face a autonomia, ambição, trabalho ou futuro. A inteligência artificial já reflete esta fratura: ao serem-lhe apresentadas situações quotidianas, tende a associar o coletivo à fragilidade, enquanto vincula com maior frequência a agência e o sucesso às identidades cisgénero heterossexuais
Claro que não o faz por vontade própria. Aprende com os relatos que lhe deixamos disponíveis. E se a informação sobre diversidade diminui, a máquina pode manter o coletivo visível e, ao mesmo tempo, representá-lo a partir de um horizonte cada vez mais limitado.
ISTO É RAINBOW GHOSTING
Uma investigação sobre a evolução do recuo no apoio público à diversidade, e como esta mudança silenciosa molda as representações da principal ferramenta que definirá o nosso futuro: a IA.
Analisamos esta transformação para fornecer dados, contexto e critérios que ajudem a identificar como esta perda de intensidade tem impacto nas identidades atuais e a antecipar um risco: que os algoritmos acabem por codificar a exclusão do futuro.
Deixar uma mensagem em ‘visto’ não significa que a conversa tenha terminado. Traduz-se em como o que deixamos de contar hoje tem impacto no relato que o futuro encontrará.
Por isso, nós decidimos deixar a conversa aberta e continuar a responder…
ALGUNS DADOS POR TRÁS DO GHOSTING
A cobertura sobre diversidade desce a um ritmo próximo de 10% por trimestre nos últimos três anos…
O discurso de ódio cresceu em 8 de cada 10 países analisados, com um aumento médio de 38% face aos quatro anos anteriores.
19,1% dos ataques vinculam o coletivo a um suposto impacto negativo sobre a educação.
O ÓDIO ESTÁ A ESCREVER…
Imagina um chat de grupo: durante o Pride há notificações infinitas e promessas de apoio, mas se o contexto pressiona contra, as vozes inclusivas abandonam o teclado.
O ecrã não congela. O indicador superior avisa que mais alguém está a escrever… é o ódio.
Ceder este terreno muda as regras do jogo. Essa hostilidade que ocupa o vazio converte-se no novo input com o qual os algoritmos estão a aprender a interpretar o nosso futuro.
A MÁQUINA TAMBÉM ESTÁ A ESCREVER…
A IA replica o viés: Ao diminuir a representação diversa, a máquina projeta um horizonte muito mais estreito e limitante para o coletivo.
Dados de um futuro desigual:
- +72% das respostas para perfis LGBTIQ+ centram-se na proteção, em procurar respeito e em gerir medos.
- Em contrapartida, +140% das respostas aos perfis cisgénero heterossexuais falam de autonomia, trabalho e ambição.
O viés definitivo está nos futuros tão distintos que a inteligência artificial imagina para cada pessoa.
Quando o Pride terminar,
quem continuará a responder com convicção?