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“O futuro de Europa, América Latina e Estados Unidos não será decidido pela história que compartilhamos, mas pela capacidade de construir juntos aquilo que ainda não existe.”
Vivemos uma inflexão histórica. As certezas que, por décadas, orientaram decisões internacionais perderam parte de sua capacidade explicativa, enquanto novas variáveis como segurança, resiliência, tecnologia, energia e poder passaram a condicionar Estados, mercados e sociedades.
Depois da queda do Muro de Berlim, fomos educados a interpretar as relações internacionais sobretudo pela lógica econômica: produtividade, vantagens comparativas, eficiência logística, preços. Essa lógica permanece, mas já não basta. A geopolítica voltou, e voltou para ficar.
Hoje, decidir quem produz, quem exporta, quem compra e em quais condições envolve cada vez mais considerações de segurança nacional, alinhamentos estratégicos e disputas de poder. Bens, capitais, tecnologias e cadeias produtivas deixaram de ser apenas ativos econômicos: tornaram-se também instrumentos de pressão, barganha e, em alguns casos, coerção.
É comum falar em transição. Mas talvez estejamos diante de algo mais profundo: a superação de ciclos históricos que estruturaram a ordem internacional por décadas, ou mesmo séculos. A era unipolar, consolidada após 1991, dá lugar a uma distribuição mais fragmentada de poder. O sistema financeiro ancorado no dólar e no petróleo enfrenta pressões associadas à transição energética e à busca por alternativas transacionais. A arquitetura multilateral construída depois de 1945 sofre desgaste e perda de efetividade. E a própria centralidade histórica do Ocidente, construída ao longo de mais de quinhentos anos, encontra-se diante de um redimensionamento.
É nesse ambiente que o Triângulo Atlântico, formado por Europa, América Latina e Estados Unidos, pode adquirir uma importância renovada. Não por nostalgia, nem apenas por afinidades históricas e culturais, mas porque seus interesses concretos convergem em áreas essenciais para a prosperidade.
A comunidade empresarial percebeu isso antes dos Estados. No Brasil, empresas norte-americanas e europeias construíram, há décadas, presença profunda em setores que vão muito além do comércio exterior. Estão no sistema financeiro, na indústria, nos serviços, na infraestrutura e no agroalimentar. E ocorreu algo ainda mais interessante: muitas dessas companhias deixaram de ser simplesmente subsidiárias estrangeiras. Incorporaram competências, talentos e cultura empresarial brasileiros, transformando sua presença local em plataformas competitivas para outros mercados.
A integração atlântica, nesse sentido, não é apenas uma relação entre matrizes e filiais; é um processo de criação conjunta de valor.
A atuação dos governos, contudo, ainda não acompanha plenamente essa realidade empresarial. Há sinais importantes de priorização das relações transatlânticas, mas os avanços concretos continuam difíceis. O comércio é talvez o melhor exemplo.
A aplicação provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, iniciada em maio passado, idealmente abre uma nova etapa de integração, mas sua implementação ainda exigirá árduo trabalho político, regulatório e empresarial. O mesmo vale para o acordo Mercosul-EFTA. Esses instrumentos mostram que existe espaço para aproximar mercados, mas também revelam quanto tempo e energia são necessários para transformar afinidade estratégica em acesso efetivo.
Com os Estados Unidos, os últimos dois anos mostraram outra dimensão do problema. O chamado “tarifaço” revelou como mecanismos comerciais podem ser utilizados também como instrumentos de pressão geopolítica. A reação de setores privados, sobretudo de empresas norte-americanas com interesses no Brasil, demonstrou, por outro lado, que a interdependência econômica pode funcionar como elemento de moderação.
É aqui que a China precisa entrar na equação. Não como uma ameaça retórica, mas como realidade econômica incontornável.
Se os vértices do Triângulo Atlântico permanecerem excessivamente fechados entre si, empresas e consumidores buscarão, naturalmente, alternativas.
O risco não é simplesmente “perder” mercados para o Leste. É deixar de construir, entre parceiros históricos, as condições de competitividade necessárias para disputar o mundo que está emergindo.
Os séculos que unem Europa, América Latina e Estados Unidos não são um passe livre para que essa relação seja tomada como garantida. História cria capital político, mas não substitui estratégia. E, se a oportunidade de integração for desperdiçada, os custos serão sentidos justamente onde mais importam: no acesso competitivo a alimentos, energia, infraestrutura e insumos críticos, em um mundo marcado pela guerra na Europa, pela instabilidade no Oriente Médio e pela vulnerabilidade das rotas de abastecimento.
Para o setor privado, isso significa algo concreto: segurança jurídica, cadeias de suprimento diversificadas, regras previsíveis e mercados abertos para permitir investimento de longo prazo.
Geopolítica, afinal, já não é assunto restrito às chancelarias. Ela entrou no conselho de administração, no planejamento industrial e nas decisões de investimento.
A próxima Cúpula Ibero-Americana, em Madri, oferece uma oportunidade para reafirmar a centralidade de nossa relação. Mas reafirmar não basta. É preciso transformar afinidade em arquitetura, discurso em instrumentos e proximidade histórica em vantagens concretas.
Empresas, Parlamentos e sociedade civil têm papel decisivo nesse processo. A integração do Triângulo Atlântico não pode depender da fotografia de uma Cúpula ou do ciclo político de um governo. Precisa ser construída como política de Estado: com mais comércio, mais investimento, maior previsibilidade regulatória e, sobretudo, um diálogo entre parceiros que se reconheçam como iguais.
Porque a alternativa não é simplesmente escolher entre o Atlântico e o Leste. A verdadeira escolha é entre participar ativamente da construção do novo sistema internacional ou adaptar-se a uma ordem desenhada por outros. A realidade raramente espera que estejamos prontos para ela. Desta vez, talvez o maior ativo do Triângulo Atlântico seja justamente a possibilidade de se preparar em conjunto. Se Europa, América Latina e Estados Unidos conseguirem transformar sua velha interdependência em uma renovada estratégia comum, poderão não apenas preservar seu protagonismo: poderão convertê-lo em uma nova fonte de prosperidade. O futuro do Atlântico, afinal, não será decidido pela história que nossos povos compartilham. Será decidido pela capacidade de construirmos, juntos, aquilo que ainda não existe.